sábado, 27 de janeiro de 2018

The Post: o filme quase perfeito foi quase perfeito


Hanks, Streep, Spielberg. The Post anunciou-se ao mundo como uma abusiva passadeira vermelha, boa demais para ser verdade. O elenco, a matriz e a majestade da história, e o próprio timing político, faziam antever nada mais do que a tempestade perfeita e uma avalanche de troféus... que já percebemos não irá acontecer. Não se percebe é exactamente porquê.

The Post é um filme viciante e admirável, um clássico instantâneo, executado com uma mestria apaixonante do princípio ao fim. Um produto feito verdadeiramente pelo engenho dos melhores, para perdurar na memória colectiva. O esquecimento de uma Academia (que o cingiu a Melhor Filme e Melhor Actriz) tantas vezes permeável ao mainstream, é quase irónico, e pode ser entendido apenas como uma espécie de auto-censura preconceituosa, num tempo em que Hollywood vive com medo da sua própria sombra.


Num filme heterogeneamente riquíssimo, podemos começar pelo óbvio: o prazer, a sorte e o privilégio que é continuar a ter Tom Hanks e Meryl Streep a este nível, com esta ambição e este grau de exigência, ainda por cima ao mesmo tempo. Não sei exactamente qual é a tipologia de um actor que nos sorri de deslumbramento quando aparece no ecrã, mas Tom Hanks é esse actor. Um verdadeiro senador da longa-metragem, um tipo tão expansivo, natural, caloroso e icónico, que nos esquecemos que há ali interpretação e guião.


Ainda assim, o filme é feito para Streep e é nela que os olhos estão postos. Foi a sua 21ª nomeação aos Óscares, e não é difícil perceber porquê. Com ela, nunca é difícil perceber porquê. Meryl Streep é um manual de carne e osso, e continua a ser espantosa, até hoje, a sua capacidade de adaptação para responder a seja qual for a proposta que um filme lhe fizer. The Post pedia-lhe nada menos do que o assomo de ser inexperiente e Streep foi tão vulnerável como uma novata, conseguindo viver todo o filme nessa válvula despressurizadora de fragilidade e nervos, até à firmeza final. Um fascínio como sempre.

A nível individual, por entre a constelação de estrelas, impossível não destacar ainda Bob Odenkirk, cuja não indicação ao Óscar para Melhor Actor Secundário, mais do que incompreensível, é insultuosa. A robustez, o carácter e a velha escola idealista de Odenkirk materializam, em si próprio, a identidade da história e é ele uma das grandes razões porque também nós nos iludimos, apaixonamos e militamos. É absurdo que lhe soneguem isso.


Num filme que muito mais teria para dizer, nenhuma crítica estaria completa sem a vénia aos artífices. Desde logo, ao Senhor Cinema que dá pelo nome de Steven Spielberg, e à sua capacidade intemporal para garimpar bocados de História, com a batuta dos melhores contadores. Spielberg é um facilitador, um homem com inteira noção daquilo que funciona no grande ecrã e com a agilidade para fazê-lo funcionar, hoje e sempre na vanguarda. Um realizador com o altruísmo de só valorizar o que interessa, de só "aparecer" quando interessa, que por maior que seja o seu estatuto, continua a ter a hombridade e a noção de que se não dermos demasiado por ele, então sim roçou a perfeição. Alguém com quem muitos novos realizadores teriam o mundo para aprender.

Por fim, mas não por último, o argumento. Josh Singer, um velho caminhante que ajudou a escrever West Wing e que, há três anos, ganhou o Óscar pelo colossal e coincidente Spotlight, foi, tal como quase tudo em The Post, o homem certo no lugar certo. O texto é estrelar, cativante e carismático, escrito com uma paixão e um entusiasmo nítidos, como se de uma grande manchete se tratasse. Tem conteúdo, sendo extremamente elegante na acção, e tem personagens, mesmo sabendo que teria a História por protagonista. Entre todas as desconsiderações da Academia, o descrédito ao argumento será, ainda assim, a maior das suas golpadas.

The Post é a glorificação do filme que não podia falhar, uma ode ao grande jornalismo, nos tempos de cólera em que vivemos, e uma homenagem às grandes noites de cinema, um filme que só encontramos de vez em quando, que nos delicia, inspira e comove, e que não queremos que acabe. Foi uma honra, majestades.

8/10

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