domingo, 4 de março de 2018

ÓSCARES 2018 - Previsão


Que seja a noite de Três Cartazes à Beira da Estrada sobre A Forma da Água, o triunfo do conteúdo sobre a forma, da humanidade singela, e do cinema que fala de gente, sobre a estética tantas vezes presunçosa, vangloriosa e incomunicável.

Isto significa Filme, Argumento Original (para o genial Martin McDonagh) e Ator Secundário (onde nem quero ouvir falar de um Willem Dafoe invisível, perante Sam Rockwell e o papel de uma vida), mas significa, sobretudo, a Senhora que definiu o que era a medida da excelência para todas as outras almas do ano. Frances McDormand é a estrela da noite, é não só o Óscar mais garantido, como o mais merecido, e é, no fim de contas, a melhor notícia que podíamos ter, em tempos tão incertos e traiçoeiros, pela valorização do que é o talento e a experiência, e pela glorificação do que é um filme com pessoas lá dentro. McDormand foi mais do que uma personagem e, no cinema como na vida, é sempre mais especial se for de verdade.

Numa noite para eternizar velhos caminhantes, o monumental Gary Oldman chegará, finalmente, ao primeiro Óscar da carreira, numa performance imortal e num retrato especial, que honestamente me disse muito, me fascinou e inspirou, e que não tenho dúvidas foi dos mais subvalorizados do ano. Como ao próprio Churchill, será o tempo a fazer justiça à Hora Mais Negra. É sempre ingrato falar de concorrência perdida, mas a vitória do velho Oldman será absolutamente valorizada por duas outras interpretações singulares, uma em cada ponta do espectro: por um lado, a explosão de um prodígio chamado Timothée Chalamet (Chama-me pelo Teu Nome); por outro, a despedida do maior de todos os tempos. Vale a pena acreditar que não seja para sempre, Sir Daniel Day-Lewis.

Como sempre, em noite de Óscares, tem de haver lugar ao idealismo e às apostas cegas, pelo que também é hora de atirar unicórnios. Serão, à primeira vista, categorias fechadas, mas se uma única for disputada, então já ganhámos todos qualquer coisa. Começo por Actriz Secundária, onde Allison Janney (Eu, Tonya) é para lá de favorita, com Lesley Manville (A Linha Fantasma) a correr por fora. A beleza é mesmo esta, porque por mim não era uma, nem outra, ainda que Janney seja uma boa vencedora. O meu Óscar ia inteirinho para Laurie Metcalf, única forma humildemente condigna de celebrar uma pequena pérola, que foi a maior surpresa do ano: Lady Bird.

Do benefício da dúvida, passamos para uma questão de justiça e para o esvaziamento definitivo do filme mais desproporcional do ano. Isso implicaria, claro está, resgatar o Óscar de Melhor Realizador para Paul Thomas Anderson (A Linha Fantasma), tirando-o literalmente das mãos de Guillermo del Toro (A Forma da Água), que já é o vencedor oficioso. Muito sinceramente, é mais uma vitória oficiosa incompreensível, porque parece-me evidente que Thomas Anderson apresenta, de longe, o melhor trabalho do ano, com uma verdadeira obra-prima de alta-costura. Todavia, estaria até disposto a ser ainda mais inortodoxo e a pagar para ver uma fantástica oportunidade de partir pedra, reconhecendo, porque não, a delícia do trabalho de Greta Gerwig (Lady Bird), em mais um filme que cometeu a indubitável proeza de falar de relações como se elas não tivessem nada de sobre-humano.

Para o fim, fica um clássico pessoal, de tão redundante, uma mistura entre uma categoria favorita (Argumento Adaptado) e o melhor argumentista que já viveu. Aaron Sorkin voltou em força e Molly's Game é uma maravilha de cinema-espectáculo, vertiginoso, contagiante e sedutor, daquele que nos arranca da rotina e nos leva consigo a viajar. Call Me by Your Name, o favorito, é um dos filmes que marca o ano, mas não precisa deste ponto de honra.

Da alta roda da temporada, só não vi o Get Out, e tenho pena de não "conseguir" redimir com um prémio uma peça tão admirável como The Post. Consegui, ainda assim, voltar a acompanhar a corrida como já não o fazia há bons anos e a melhor notícia é que este foi verdadeiramente um ano bom. Mais logo, lá estaremos para a luta, como sempre.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Phantom Thread: a vez dos artesãos


É um dos filmes mais majestáticos do ano, porque é um modelo de marca. Um filme cuidadosamente medido, desenhado e cosido à mão pelo delicado engenho de dois artificies marcantes: Paul Thomas Anderson, na criação, e Daniel Day-Lewis, na execução. O resultado final é inteiramente indissociável de ambos, como numa dança impossível de fazer sem os dois, uma insinuação permanente, como se adivinhassem os movimentos um do outro, mesmo quando parecem estar a dançar sozinhos. Phantom Thread é um filme que deixa impressão e não deixa ninguém indiferente, e obviamente começa a ganhar logo aí. Por saber o que quer e para onde vai.

É austero, mas não assusta, é de finíssimo recorte, mas sempre capaz de nos envolver, de nos seduzir e de nos alimentar a saciedade. No universo de Paul Thomas Anderson, entrar numa sala de cinema, é como entrar num palácio, e é assim que o notável realizador californiano - que chancela mais uma suprema e incontornável nomeação ao Óscar - nos recebe no seu atelier de alta-costura, com decoro e formalidade, mas com uma capacidade omnipresente para nos fascinar pela profundidade da câmara, pelos cores e pelos filtros, pelos ângulos, os tecidos e as texturas, até pelos silêncios. É uma realização verdadeiramente em 4D, como se pudéssemos olhar e tocar em volta, e sentir-mo-nos em cada uma daquelas divisões.

Este é um exercício tão desafiante, quanto cativante, que nos exige atenção quase a tempo inteiro, comprometimento e devoção para com os detalhes, mas não é um exercício imaculado, porque como acontece quase sempre num filme que faz questão de ter a realização como protagonista, tão presente e tão saliente, é difícil até ao melhor dos maestros nunca perder a mão. Digamos que, se não perde a mão, Thomas Anderson deixa-se claramente deslumbrar, emerso no seu próprio perfeccionismo, prolongando cenas e contemplações que não precisariam de ser tão longamente concebidas, e, sobretudo, não por seu bel-prazer.

A juntar a isso, há que referir que o argumento é, pelo menos... peculiar. A caracterização das personagens e o fio condutor dão-nos pouco quase sempre, exigindo ao espectador uma carta branca para o que é compreensível, e para tudo aquilo que não é. Mas se não é de descuro que se trata, acaba por haver um certo ligeirismo psicótico, na premissa de que nada se explica, mas tudo é artisticamente justificável. Por ironia, o argumento será a única parte do filme que denota uma evidente dificuldade em falar connosco, talvez pelo esforço desproporcional (e desnecessário) em ser demasiado provocador ou inortodoxo.


Claro que depois há Sir Daniel Day-Lewis, e enquanto houver Day-Lewis há sempre esperança. Poucos predicados serão capazes de descrevê-lo, mas talvez possamos resumir que é alguém que podia ganhar um Óscar sempre que acorda. Aos 60 anos, é o melhor da actualidade, talvez seja o melhor de sempre, e pode ganhar este ano o 4º Óscar para Melhor Actor e bater... o seu próprio recorde absoluto. Com apenas seis filmes feitos nas últimas duas décadas, Day-Lewis anunciou que Phantom Thread seria a sua despedida, mas não faz sentido falar disso agora, e faz muito mais sentido que, por uma vez, ele não saiba o que está a fazer.

Phantom Thread tem uma realização metodista, muito forte e muito emblemática, mas obviamente não poderia existir sem o verdadeiro assombro que dá pelo nome do seu protagonista. Podia dizer que é uma interpretação de nível estratosférico, mas é mais correcto dizer que foi só mais um dia de escritório para Day-Lewis, um dos únicos da História que poderia incendiar um ecrã com um sorriso ou um olhar, com um gesto ou até com o seu próprio silêncio, impávido e sereno. Como o prova a sua carreira, Day-Lewis não tem pressa para nada, nem se exalta com coisa nenhuma, não vai pelo caminho mais fácil, nem definitivamente pelo mais óbvio. Day-Lewis joga no seu próprio tabuleiro, joga sozinho e ganha sempre.

Phantom Thread não é um filme unânime e não será, definitivamente, para todos os públicos, porque implica que se perda tempo e que se ceda poder, porque implica que se abdique de estar no controlo. Não é uma viagem para fazer sempre, mas quem se deixar levar, não se vai arrepender.

7.5/10

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Logan: os heróis também merecem jubileu


Haverá, necessariamente, um filme para quem cresceu com X-Men e outro para quem não o fez, como em quase todas as sagas. Ainda que sejam os dois bons, essa será, porventura, a diferença entre ver Logan como um dos marcos do ano e reconhecê-lo - se é que isso é dizer pouco - como um filme de super-heróis acima da média.

Apesar dessa não ser uma média alta, engana-se quem acha que é fácil cumpri-la. Os exemplos disso mesmo são, de resto, incontáveis. Foi sempre difícil fazer filmes substanciais de super-heróis, pela forma, pelo contexto e pela audiência. O mérito de Logan é, por isso, e desde logo, o seu grande orgulho próprio. É um filme com propriedade e com identidade, que não deve nada a ninguém, um filme com um estatuto moral notório, que fecha um ciclo sem pedir licença, nem tentar agradar. Passará muito por aí a histórica nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Adaptado (crédito, entre outros, para James Mangold, que escreveu a short story e também realiza), a primeira de sempre da Marvel para as grandes categorias e apenas a segunda jamais concedida à banda desenhada, depois do imortal Óscar póstumo ao Joker de Heath Ledger, em The Dark Knight.

Apesar da excelente atitude, se desprovido da componente emotiva, ou militante se quisermos, Logan não é um filme que surpreenda pela mensagem (nem há sequer comparação possível com os Batman de Nolan, ou até com Watchmen), nem pela abordagem, que chega a ser exageradamente gratuita, com matança desproporcional, em quantidade e em duração de cenas, o que é tanto mais discutível porque dava a sensação de que não era preciso ter ido tão ostensivamente por aí.


Para o bem e para o mal, Logan faz o caminho à sua maneira, e acaba por ter duas grandes ajudas. A primeira é o cenário distópico e o ambiente poderosamente pesado, que nos absorvem desde a primeira hora. É um filme tão árido como algumas das suas paisagens, genuinamente triste e martirizado, e isso graças a uma narrativa que sabe capitalizar o ambiente e que é, sobretudo, firme no sacrifício que lhe emprega.

O verdadeiro trunfo é, contudo, o carisma fundamental das duas personagens principais. Hugh Jackman é tão auto-destrutivo quanto inesgotável, tão intratável quanto disponível, e impressiona a forma como, mesmo contra a vontade, vai resistindo por instinto à sua inevitável degradação. Patrick Stewart é, todavia, e para mim, o maior expoente emocional do filme. Desde a brutal primeira imagem que temos dele, de ir às cordas, até à forma extraordinariamente graciosa como eterniza a sua boa vontade, a sua consciência e o seu toque redentor, mesmo por entre todo o seu tormento. É dele a minha cena favorita ("This was, without a doubt, the most perfect night I've had in a very long time") e, se dependesse de mim, teria trocado sem hesitar a nomeação para Argumento, pela indicação a Melhor Actor Secundário.

É por causa de cada um deles que, mesmo para quem assiste ali ao filme pelo filme, e não a um tributo a uma História muito maior, é impossível ficar indiferente. Logan podia ter sido muitas coisas, algumas melhores, outras bastante piores, mas no fim, foi fiel ao seu ADN, ganhou e perdeu com as suas próprias regras, e com as suas próprias garras, e é por isso que merece respeito. Quase 20 anos depois da primeira vez, Jackman e Stewart despedem-se com a sensação de dever cumprido e com o seu próprio lugar na memória e num Olimpo do tamanho da velha Mansão, aonde todos voltaremos sempre, de uma forma ou de outra.

7/10

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Darkest Hour: os Leões nunca morrem


"Lost causes are the only ones worth fighting for"

É quase impossível sermos apanhados de surpresa quando já temos expectativas muito altas. Darkest Hour é esse filme ainda melhor do que as melhores expectativas. Já era, desde o início, uma proposta irrecusável, mas o retrato do maior líder europeu do século foi mais esmagador do que isso, e transformou-se num jackpot de corpo e alma. Gary Oldman é um Óscar vivo e este Óscar merece ganhá-lo de graça, com honras de Estado. Darkest Hour são duas horas que podiam ser dadas na escola, sobre estadismo e transcendência, sobre carácter, coragem e heroísmo da vida real, mesmo se perante circunstâncias infinitamente maiores do que a vida, mesmo se numa solidão infinitamente maior do que a própria morte. É um filme abismal e arrepiante, de matar o fôlego a uma pancada de cada vez, para ver e rever, um filme cujo peso do mundo aos ombros nos verga numa vénia emocionante à resiliência da Liberdade e à grandeza dos gigantes que fazem a nossa História e a nossa Humanidade. 

Darkest Hour é uma bem-aventurança em tempos de desinspiração, uma dádiva em tempos de descrença, uma trepidante viagem pelo limbo mais trágico do século XX europeu, uma visão materializada do Inferno à nossa frente, no fio entre viver sem esperança ou morrer sem salvação, num grau de desalento e desolação que já não foi do nosso tempo, nem da nossa geração, um grau de perda no qual dificilmente poderíamos acreditar com os próprios olhos, mas que, por entre as descargas de nervos, temos a felicidade de conseguir sentir, chocados, como num ataque de pânico atrasado, como numa visão da vida a fugir-nos à frente dos olhos, perante tudo o que podíamos ter sacrificado, que é tudo o que conhecemos hoje. E neste quadro de luto, brilhantemente talhado a negro nas mãos de Joe Wright, no contexto, na forma, nos lugares e no significado, sobressai a luz incandescente de um homem singular, numa representação tão impensavelmente fascinante como ele próprio.


Este é o ponto que resume o filme. Tudo podia ter funcionado como funcionou (a realização, o argumento com conta, peso e medida de Anthony McCarten, tão dedicadamente bem escolhido e bem trabalhado, o glorioso elenco), mas nada podia ter funcionado como funcionou não fosse a obra-magna de Gary Oldman, um dos melhores da década e certamente a melhor da sua vida. Não tenho elogio maior a fazer a nenhum actor, do que dizer-lhe que foi do tamanho do próprio Churchill. Foi perfeito. E sorte a nossa, continuará a ser perfeito de todas as próximas vezes que o reencontrarmos, numa história, a Nossa, que merecerá sempre ser recontada, para podermos partilhar com ele as indecisões e as certezas, os maneirismos e os murmúrios, as palavras e a espectacular autoridade moral do Último Leão. Como escreveu um dia Manuel Alegre, "há sempre uma candeia/ dentro da própria desgraça" e "mesmo na noite mais triste/ há sempre alguém que resiste." Tal como lhe dedicou David Elrich na IndieWire, Darkest Hour é "o testemunho do poder das palavras e da sua infinita capacidade para nos inspirar", e da sua infinita capacidade para nos salvar, acrescentaria eu.


É impossível não pensar nisso, não pensar nele, e não sorrir. Quanto tamanho, quanta magnitude, quanto génio e engenho são necessários para fazer o caminho certo sozinho, com as próprias dúvidas e com todas as dúvidas dos outros, porque achamos que estamos a fazer a coisa certa. De todo o retrato portentoso que fica do filme, o que mais comove não são os murros na mesa, os berros no Gabinete de Guerra, ou os discursos inflamados ao Parlamento (pesem todos os nós na garganta); são, pelo contrário, os silêncios, o medo atroz, as hesitações, as tais falências e imperfeições que, tal como a maravilhosa Kristin Scott Thomas lhe explica a dada altura, o tornaram verdadeiramente preparado para o cargo.

São esses momentos apaixonantes e insubstituíveis com a mulher (aquele toque, aquele comprometimento, aquele confessionário, o tempero sagrado para todo o restante e imensurável temperamento), são o telefonema a Roosevelt, a incursão no metro (que por mais que seja História ficcionada, é uma cena brilhante e fidedigna na construção, genuína, do personagem) e a conversa com o Rei Jorge VI naquela meia sala, meio aposento lá de casa (menção obrigatória à capacidade de redenção de Ben Mendelsohn), para mim a cena do filme, pela dor daquela vulnerabilidade e pelas lágrimas nos olhos de ser, por uma vez, alguém que não ele a dizer que valia a pena ter esperança.

Darkest Hour é uma experiência cinematográfica, social e histórica, um bocado de tudo o que temos de melhor, da Política à Arte, da História à Filosofia e ao Humanismo, consubstanciada na ressurreição de um homem extraordinário num tempo extraordinário, maior do que a vida e do que um país, do tamanho de um século de História comum, uma história duríssima e poderosa, inspiradora e carismática, e que nos ensina a todos que, nem perante a escuridão, nem sequer perante o fim, temos o direito de desistir. Que nos ensina a todos um bocadinho do que é ser um herói com todas as letras.

9/10

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Call Me By Your Name: faz o que eu digo, não faças o que eu faço


É um dos filmes mais ambiciosos da temporada, pela forma nua e despojada como trata o exercício da descoberta sexual, no caso, quando esta rompe com os cânones estabelecidos da época, da cultura e da própria sociedade vigente. É um filme seguro e que exibe vários predicados, mas não é tão afirmativo quanto supõe, porque acaba por soçobrar no esforço em balizar uma história de amor, desejo e deslumbramento intrínseca, justificando-se demasiado, entristecendo-se demasiado e sofrendo demasiado.

Call Me By Your Name encara com descomplexo o retrato da homossexualidade tantas vezes subretratada, mas não resiste a que a narrativa lhe vá fugindo por entre os dedos dolorosamente. A proposta de responder com naturalidade a essa descoberta do primeiro amor vem, neste caso, torturar-se a si mesma, como que contrariando a própria mensagem de que o amor, em todas as suas formas de sexualidade, deve ser abraçado, explorado e orgulhado. Isso leva, no fim das contas, a que vivamos uma história temivelmente expectante, quase sempre desconfortável e agonizada (a metáfora do protagonista sempre a olhar para o relógio é, quanto a isso, sintomática), e exageradamente melancólica, que nem o remate final consegue resgatar.

A competência do filme nos mais diversos planos é, contudo, indiscutível, desde logo em termos de produção. Visualmente (norte italiano, anos 80) é idílico, com uma fotografia brilhante e uma realização, de Luca Guadagnino, deliciada na suavidade das cores e no carisma provinciano da bella Italia, impossível de recusar. A ambas, junta uma das melhores bandas sonoras do ano, cortesia de Sufjan Stevens (na corrida deste ano para Melhor Música Original), que o superiorizam, por isso, em termos estéticos (é um filme eminentemente contemplativo), por comparação à capacidade narrativa, ao timing ou à acção.

Individualmente, Timothée Chalamet é, sem dúvida, uma das revelações do ano, com chegada aos Óscares mais do que justificada. Com apenas 22 anos, assume uma interpretação poderosa, arrojada e visceral, que define o filme, mercê do compromisso e da entrega totais ao papel, e notavelmente projetadas. É ele quem reclama o palco, também porque Armie Hammer, na sua figura muito mais estilizada e previsível, não chega a surpreender, e não consegue impressionar. Por fim, nota obrigatória para Michael Stuhlbarg e para o seu monumental monólogo final. É um daqueles bocados de texto intemporais e invejáveis, que vai sempre redimir a memória que fica, especialmente para todos aqueles que não o guardem como inesquecível.

Call Me By Your Name é um filme tão honesto, quanto ousado, artisticamente comprometido e sensível, mas não resiste ao pecado capital de ter demasiada pena de si próprio, eternizando os seus próprios obstáculos e condenando-se à impossibilidade de encontrar a plenitude. Há quem diga que só o amor não cumprido pode ser romântico; esta é a história de quem refuta esse dogma, mas não o pratica o suficiente.

6/10

sábado, 27 de janeiro de 2018

The Post: o filme quase perfeito foi quase perfeito


Hanks, Streep, Spielberg. The Post anunciou-se ao mundo como uma abusiva passadeira vermelha, boa demais para ser verdade. O elenco, a matriz e a majestade da história, e o próprio timing político, faziam antever nada mais do que a tempestade perfeita e uma avalanche de troféus... que já percebemos não irá acontecer. Não se percebe é exactamente porquê.

The Post é um filme viciante e admirável, um clássico instantâneo, executado com uma mestria apaixonante do princípio ao fim. Um produto feito verdadeiramente pelo engenho dos melhores, para perdurar na memória colectiva. O esquecimento de uma Academia (que o cingiu a Melhor Filme e Melhor Actriz) tantas vezes permeável ao mainstream, é quase irónico, e pode ser entendido apenas como uma espécie de auto-censura preconceituosa, num tempo em que Hollywood vive com medo da sua própria sombra.


Num filme heterogeneamente riquíssimo, podemos começar pelo óbvio: o prazer, a sorte e o privilégio que é continuar a ter Tom Hanks e Meryl Streep a este nível, com esta ambição e este grau de exigência, ainda por cima ao mesmo tempo. Não sei exactamente qual é a tipologia de um actor que nos sorri de deslumbramento quando aparece no ecrã, mas Tom Hanks é esse actor. Um verdadeiro senador da longa-metragem, um tipo tão expansivo, natural, caloroso e icónico, que nos esquecemos que há ali interpretação e guião.


Ainda assim, o filme é feito para Streep e é nela que os olhos estão postos. Foi a sua 21ª nomeação aos Óscares, e não é difícil perceber porquê. Com ela, nunca é difícil perceber porquê. Meryl Streep é um manual de carne e osso, e continua a ser espantosa, até hoje, a sua capacidade de adaptação para responder a seja qual for a proposta que um filme lhe fizer. The Post pedia-lhe nada menos do que o assomo de ser inexperiente e Streep foi tão vulnerável como uma novata, conseguindo viver todo o filme nessa válvula despressurizadora de fragilidade e nervos, até à firmeza final. Um fascínio como sempre.

A nível individual, por entre a constelação de estrelas, impossível não destacar ainda Bob Odenkirk, cuja não indicação ao Óscar para Melhor Actor Secundário, mais do que incompreensível, é insultuosa. A robustez, o carácter e a velha escola idealista de Odenkirk materializam, em si próprio, a identidade da história e é ele uma das grandes razões porque também nós nos iludimos, apaixonamos e militamos. É absurdo que lhe soneguem isso.


Num filme que muito mais teria para dizer, nenhuma crítica estaria completa sem a vénia aos artífices. Desde logo, ao Senhor Cinema que dá pelo nome de Steven Spielberg, e à sua capacidade intemporal para garimpar bocados de História, com a batuta dos melhores contadores. Spielberg é um facilitador, um homem com inteira noção daquilo que funciona no grande ecrã e com a agilidade para fazê-lo funcionar, hoje e sempre na vanguarda. Um realizador com o altruísmo de só valorizar o que interessa, de só "aparecer" quando interessa, que por maior que seja o seu estatuto, continua a ter a hombridade e a noção de que se não dermos demasiado por ele, então sim roçou a perfeição. Alguém com quem muitos novos realizadores teriam o mundo para aprender.

Por fim, mas não por último, o argumento. Josh Singer, um velho caminhante que ajudou a escrever West Wing e que, há três anos, ganhou o Óscar pelo colossal e coincidente Spotlight, foi, tal como quase tudo em The Post, o homem certo no lugar certo. O texto é estrelar, cativante e carismático, escrito com uma paixão e um entusiasmo nítidos, como se de uma grande manchete se tratasse. Tem conteúdo, sendo extremamente elegante na acção, e tem personagens, mesmo sabendo que teria a História por protagonista. Entre todas as desconsiderações da Academia, o descrédito ao argumento será, ainda assim, a maior das suas golpadas.

The Post é a glorificação do filme que não podia falhar, uma ode ao grande jornalismo, nos tempos de cólera em que vivemos, e uma homenagem às grandes noites de cinema, um filme que só encontramos de vez em quando, que nos delicia, inspira e comove, e que não queremos que acabe. Foi uma honra, majestades.

8/10

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

The Florida Project: um diário de bordo sem nervo, sem surpresas e quase sem fim


Nomeado a Melhor Filme do Ano pelos Critics' Choice e pelos Spirit Awards, Top10 para o National Board of Review e para o American Film Institute, com nomeações nos Globos e nos Óscares. The Florida Project tinha tudo para ser um dos tesouros indies do ano. É um penoso, redundante e quase infindável exercício artístico.

O filme tem uma fotografia sublime. Isso contribui para a realização visualmente rica, com vida, sensibilidade e uma avalanche de cor (no bom sentido), numa equação que é a cartada mais forte do filme. A pequenina Brooklynn Prince (7 anos!) e a sua escalada na segunda metade do filme são a outra boa notícia, secundada por um Willem Dafoe simpático e empático, de quem é inevitável gostar (ainda que não me pareça suficiente para ser nomeado ao Óscar, muito menos para disputá-lo com o monstruoso Sam Rockwell, em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri).

Sendo assim, como é que esta muito razoável amostra de predicados não é suficiente para, sequer, redimir a peça? Florida Project desaba numa inenarrável presunção da sua própria inocência, inenarrável porque artificial e porque literalmente impossível de narrar, e que nos atola numa dramática rotina, demasiado longa, demasiado lenta, demasiado cristalizada e entorpecedora, como uma aula ou uma missa ou um sermão que nunca acaba, completamente deslumbrado com a sua própria mancha criativa.

Florida Project é um excelente exemplo de uma boa ideia pessimamente concretizada, de um filme que sacrifica o conteúdo pela forma, equivocando-se por inteiro ao acreditar que o estilo que apresentamos é mais importante do que a história que temos para contar. Parafraseando uma frase do grande Cruyff, fazer cinema é simples, mas fazer cinema simples é do mais difícil que pode haver, e se Sean Baker é um realizador com potencial, está drasticamente longe do que se pede a um argumentista (texto coassinado por Chris Bergoch).

Costumo dizer que sabemos se um filme é bom, se reconhecemos no fim que o veríamos uma segunda vez. Digamos que é extenuante acabar Florida Project à primeira.

4/10

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

I, Tonya: o que fomos e o que podíamos ter sido


É um dos bons registos do ano, um filme que apesar do carácter ligeiro e popular, se dá por bem empregue, e onde se destacam mais duas belas interpretações femininas da temporada.

I, Tonya conta a história da Tonya Harding, uma celebridade do desporto adolescente americano do início da década de 90, que foi vice-campeã do Mundo de patinagem artística, antes de cair em desgraça com o envolvimento, até hoje dúbio, num ataque à sua maior rival. Trata-se de uma personagem rica e bastante cativante, com escala a todos os níveis, seja em termos familiares, de personalidade ou mesmo afectivos. É uma figura que vai ao âmago do interior americano, ao qual faz uma homenagem, com modos singelos e humildes que valorizam a agrura desse património humano de uma forma, se nem sempre bonita, onde nem sempre existe beleza, pelo menos garantidamente honesta, respeitosa e redentora, na sua própria figura.

É um filme que se enraíza tanto na genuinidade da personagem, que porventura perde foco, ambição e noção do seu possível alcance. Tivesse, I, Tonya, investido num tom mais pesado, mais afectado e menos folclórico, teria sem dúvida apontado a patamares mais altos, porque tinha capacidade para isso. Numa curiosa analogia com a própria protagonista sobre potencial perdido, o rumo criativo acaba por modesto, e fica-se por um meio termo entre humor e crime que, no fim de contas, acaba efectivamente por lhe cortar as asas.

Quem pode dizer, com toda a propriedade, que contraria esse derrotismo é, pelo contrário, a própria Margot Robbie, que não só não vulgariza uma personagem quando era fácil fazê-lo, como assina a melhor performance da carreira, rematada com um crescendo final surpreendente, que lhe valerá certamente a merecida nomeação ao Óscar.


Com o Óscar quase garantido está, por sua vez, Allison Janey, a memorável CJ Cregg de West Wing, que depois da mala cheia de emmys, garantida pela melhor série de sempre, está quase, quase a chegar à Terra Prometida. É um papel distante do que lhe conhecemos, mas é um daqueles diamantes em bruto para as audiências. Mesmo a pedir um bocadinho mais de exposição e de preponderância, a sua aspereza inescrupulosa e ostensiva marca o filme e é como uma permanente ferida aberta à qual nunca paramos de reagir. Tem a passadeira estendida como Melhor Secundária do ano. Em termos individuais, uma última nota ao papel pequeno em tamanho, mas enorme a definir a pulsação do filme, do sempre extraordinário Bobby Cannavale.

I, Tonya entretém-se consigo próprio, às vezes até de forma pouco ortodoxa, e, se calhar também por isso, mantém-nos curiosos a tempo inteiro. No fim, cumpre inteiramente o seu papel, mas talvez não cumpra o seu inteiro potencial.

7/10

domingo, 14 de janeiro de 2018

Os loucos de Anfield


Mais que de qualquer outro, foi a vitória de Klopp.

O profeta do futebol rock&roll foi, como quase todos, à Premier League à procura do seu lugar no mundo. Bicampeão alemão e vice-campeão europeu no Borussia, chegou já bem passados esses anos de negro e ouro, a um santuário onde, desde há muito tempo, só se reza por uma coisa: milagres.

Nestes dois anos, nem tudo correu bem. Duas finais perdidas (Taça da Liga e UEFA) não contam para os zero títulos, o regresso à Champions pouco consola o absentismo da luta pelo título e os zero pódios. Chegou depois da última grande armadilha de Mourinho, viu Ranieri ser campeão contra todas as casas de apostas e, no ano passado, na primeira época completa, nem viu Conte passar por ele. Nestes dois anos, o Liverpool continuou a padecer de alguns problemas morais estruturais, desde logo, o hábito de ser fraco com os fracos, o que continua a dinamitar época sobre época, mais a falta de nervo para a equipa ser mentalmente resoluta e competitiva durante nove meses. Chegou a sentir-se que a dormência e o carácter errante talvez já estivessem tão enraízados, que não haveria mesmo nada a fazer. O falhanço era uma inevitabilidade, o Liverpool não era para levar a sério e estava condenado a um lancinante complexo de inferioridade para com os gigantes de Manchester, o Chelsea, o Arsenal e até o Tottenham.

Mas Klopp subsistiu. Fez a sua via sacra num e noutro dos infindáveis meses de Premier League, deu a face de todas as vezes, nunca se assustou e nunca se escusou com a sua própria sombra. Respondeu a todas as dúvidas, sobre a génese desfeita do Liverpool, e sobre os seus próprios anos áureos, com um foco e um fôlego flamejantes, como se fosse um artesão obstinado, perfeccionista e incansável, disposto a começar constantemente de novo, depois de cada derrota. Acredito que, nestes dois anos, tenha havido momentos em que mais ninguém acreditou, se não ele. Sempre com a fome de um viciado pelo jogo, a precisar da próxima partida como de uma próxima dose, como se os dias custassem mais a passar, como se a redenção e a perfeição estivessem sempre ao virar da próxima esquina. Klopp nunca duvidou do que queria e nunca duvidou de que lá chegaria, e é por causa disso que, mesmo que ainda falte muita coisa, este já é um Liverpool como ele. É por causa dessa coragem que, nos últimos dois anos, mesmo com tudo o que se foi perdendo, o Liverpool nunca se fartou de jogar futebol.

Este ano, o destino fez a partida de lhe colocar Guardiola no caminho e é muito por causa dele que esta é uma história provavelmente sem final feliz. É cruel pensar o que joga o Liverpool, e porque joga o Liverpool, e depois perceber que o título é para Mourinhos, Contes e Guardiolas. A vitória de hoje é tanto mais espectacularmente simbólica, por causa disso. Estamos em Janeiro, mas comentei ontem que Anfield era verdadeiramente uma das últimas paragens que podia prevenir que este City reeditasse uma impossibilidade histórica que era ser Campeão Invencível na Premier League. E foi. Mesmo contra o Campeão que vai ser, uma das três melhores equipas do mundo, mesmo a começar a semana a vender a jóia da coroa ao Barcelona e acabá-la a perder o defesa mais caro de sempre, foi, e Klopp superou-se a si próprio, como o treinador que mais vezes bateu Guardiola (6 em 12 jogos), lembrando-nos a todos porquê. Num jogo entre estilos superiores, numa liga superior, acabou por ser, afinal, o carácter extasiante e a pureza da sua imprevisibilidade futebolística a fazer o cheque-mate. Como numa obra-prima de inspiração e improviso, como rock&roll a altos berros, intangível, incontrolável, imparável. Foi um livre-arbítrio numa liga que já estava condenada. Foi uma overdose e foi tão bonito e tão libertador.

Klopp não será campeão este ano e, se calhar, nunca será campeão no chão sagrado de Anfield Road. Mas é uma bênção tê-lo por perto, a lembrar aos extraterrestres o que é ser humano, e a lembrar aos humanos que, numa ou noutra noite das nossas vidas, podemos ser todos extraterrestres, se quisermos jogar de cabeça erguida e se estivermos dispostos a ganhar e a perder, a entrar e a sair de cena, mas sempre pela porta grande. Talvez Klopp seja campeão um dia. Mas se não for, é a tipos como ele que devemos a essência sagrada da Premier League, onde os únicos invencíveis, são os loucos que nunca desistem.

sábado, 13 de janeiro de 2018

The Shape of Water: quando a fantasia nos distancia


Ponto prévio: tudo o que escrevo sobre The Shape of Water deve ser lido à luz de uma diferença criativa por vezes inultrapassável quando o tema são filmes de fantasia. Guillermo del Toro é um (o) fantasista por excelência e não tenho dúvidas de que quem faz o seu género, será naturalmente tocado pelo filme, pela sua decoração e pela maneira como ele o propõe.

Começo, contudo, por confessar o mais primário: The Shape of Water pode ser exemplar para o seu público-alvo, mas não demonstra capacidade para ir muito para além disso, nem engenho para quebrar determinadas barreiras de forma e de linguagem, que o tornassem numa peça mais subtil, dialogante e, quiçá, universal. O filme conta a história de uma contínua muda, a trabalhar em instalações classificadas do Governo americano na década de 60, e a forma inteiramente inortodoxa como se apaixona por uma das criaturas ali em cativeiro. Pese todo o secretismo, o filme não faz, contudo, segredo disto muito tempo. O que acontece é, aliás, o contrário, e o espectador não tem nem tempo, nem sequer estímulo para digerir a proposta, nem para tentar que ela vagamente nos seduza.

A acção precipita-se, desde cedo, de forma extemporânea, ao bel-prazer de Guillermo del Toro que, não tenho dúvida nenhuma, faz um filme verdadeiramente entusiasmado para si próprio, queimando as linhas entre criador e fã. Já li (como elogio) que The Shape of Water coloca o mexicano no auge da sua liberdade criativa, de forma quase inacompanhável, o que se percebe sucessivamente em cenas quase abstractas, que deformam a própria narrativa, ao jeito de uma miríade de pinceladas febris. Esse descomplexo só acaba, todavia, por aumentar a distância para o espectador, em vez de convidá-lo a aproximar-se, e de uma forma quase irremediável.

A própria humanização dos monstros, que lhe é tão querida, e que traduz o combate ao preconceito por parte de todos aqueles que são diferentes e marginais na sociedade, por mais que represente um propósito notável, fica presa numa narrativa que é muito mais romantizada, e científico-ficcionada, do aquilo que seria necessário. Porque a humanização de um filme é necessariamente a sua capacidade para contar uma história que possamos assimilar, onde possamos ser nós a unir os pontos e a decantar uma moral maior e que nos diga alguma coisa, seja qual for o grau da metáfora, e mesmo que lá estejam todos os monstros do mundo.

The Shape of Water é um filme visualmente bonito, bem realizado e com protagonistas a boa altura, neste caso Sally Hawkins, se calhar o único ponto em que o filme consegue ser eficaz de maneira inortodoxa, e Michael Shannon, na sua austeridade mecânica de sempre (o resto do elenco nem tanto). Só não é um filme onde seja possível entrarmos, darmos alguma coisa de volta, nem chegarmos juntos a lado nenhum, depois de duas horas a viajar num onirismo alheio, muito próprio e muito distante.

6/10

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri: um tratado de humanidade


Quem já a conhecia, tinha de ficar entusiasmado com o registo drasticamente cáustico que o filme anunciava. Tinha tudo para ser uma jóia talhada naquela sua crueza extraordinária e na ostensiva falta de paciência que lhe parece correr nas veias. Se não foi um papel escrito para ela, como é costume dizer, acabou por sê-lo, de uma forma ou de outra. Frances McDormand é tudo o que dela poderíamos esperar, em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. O carácter brutal e brutalmente irresistível define-lhe uma personagem icónica, que marca o nível da temporada e escreve mais uma página de ouro na sua fantástica carreira (já ganhou um Óscar, um Globo de Ouro, um Tony Award e um Emmy, mas façam um favor a vós próprios e vejam um tesouro de minissérie, chamada Olive Kitteridge).

McDormand é, evidentemente, a reserva estilística e moral de um filme que, à sua imagem e semelhança, se escuda na própria rudeza para afastar todos quantos não sejam de confiança, e não queiram perder o tempo suficiente com ele. A olho nu, é uma excelente alegoria negra sobre crime, mas se formos capazes de ver para além disso, é um drama brilhante, uma história abnegada e singela de quem tem de sobreviver de alguma maneira, depois de já ter morrido na morte de outros. A sua incansável travessia no deserto e a inevitabilidade do seu falhanço, mais a maneira como ela se dá a essa derrota de forma tão sonante e espectacular, acabam por ser comoventes e contagiam-nos na mesma medida em que compadecem os que, de forma mais ou menos improvável, acabam por gravitar à sua volta.

Porque se Frances McDormand é a melhor notícia do filme, a segunda melhor notícia é o filme ser ainda maior do que ela. Pelo argumento ambicioso, cru e provocador e pelo que Martin McDonagh (do maravilhoso In Brugges) consegue dar às suas personagens, sem fazer muito caso disso, sem alarido e sem quase chamar à atenção. Three Billboards é um enorme filme, também pela generosidade da narrativa do sempre notável Woody Harrelson e, sobretudo, por aquele que para mim é a revelação do ano e, desde já, o meu favorito ao Óscar de Melhor Actor Secundário. Sam Rockwell faz, garantidamente, a performance da carreira, depois de demasiadas promessas durante demasiado tempo, uma que eu jamais viria chegar, e que a própria acção faz magistralmente questão de guardar.

O filme com o melhor título do ano é um oásis de humor de insulto, é agressivo, às vezes até gratuito, mas jamais presunçoso. É um filme que sabe falar de pessoas, da maneira difícil como são as pessoas, com atos em vez de palavras, com complacência e, acima de tudo, com redenção. É um trago forte, mas é um bálsamo para a alma.

8.5/10

sábado, 6 de janeiro de 2018

Molly's Game: o Mestre voltou para ficar


Um dos filmes mais cativantes da temporada, mais interessantes, eléctricos e curiosos de seguir.

Evidente que a isso não é estranho o facto de ter sido escrito pelo mago surpremo do diálogo televisivo, naquela que marcou, igualmente, a sua estreia absoluta na realização. Aaron Sorkin regressa dois anos depois, novamente com uma biografia em mãos, já com os tempos sombrios de Social Network completamente para trás. Molly's Game reflecte, não um crescimento sustentado, mas a afirmação cinéfila definitiva de Sorkin, depois de duas obras tão substanciais como Money Ball e Steve Jobs: o mestre está finalmente de volta ao palco, em grande forma, a jogar e a fazer jogar. Mesmo sem aparecer, é ele a maior estrela do filme, reclamando o estatuto enquanto um dos contadores de histórias mais brilhantes do nosso tempo, num regresso por demais saudado. Um regresso do melhor, depois de todas as partidas que a vida já lhe pregou, com uma candidatura assumida ao seu segundo Óscar.

No estilo falsamente ligeiro em que se sente mais confortável, a queimar linhas dramáticas com escapes de humor e fôlegos de ação, Sorkin faz-nos correr 2h30 atrás de puro perfume, num ecrã que nos mantém seduzidos pela sua história e pela sua protagonista, reiterando a capacidade para escrever personagens femininas que sempre o notabilizou. Jessica Chastain, apesar duma sensualidade impressionante, e mais do que nunca à flor da pele, acaba, contudo, por ficar à margem do que poderia ter feito, num filme que lhe estendia a passadeira e lhe dava um Óscar em bandeja de prata. Mais uma vez, é ela própria, porém, que demonstra falta de agressividade sobre o papel e uma incontornável incapacidade para explodir. Ficamos sempre à espera que chegue o seu momento, mas ela desvanece-se sem chegar a cumprir inteiramente o potencial da personagem, e é o próprio filme que perde estrutura com essa falta de intensidade. É um caso de estudo de uma actriz que tinha tudo para funcionar, mas que não consegue lá chegar.

Idris Elba, pelo contrário, numa rara oportunidade na época dos prémios, prova a personalidade e o rasgo que se lhe reconhecem, num filme que serviu até para ressuscitar Kevin Costner, com uma cena que começa por ser temivelmente forçada, mas que serve de invejável remate. Molly's Game é entretenimento a sério, uma maravilha na sala de cinema e um dos melhores bilhetes do ano.

7.5/10

The Last Jedi: a Força deu um passo atrás


Melhor que parte substancial das críticas, pior do que, apesar de tudo, me convenci a esperar.

D'Os Últimos Jedi ninguém poderá dizer que não se arriscou, depois das acusações do excesso de revivalismo d'O Despertar da Força, num esforço assumido para encontrar uma identidade própria, enquanto nova saga. Mais do que discutir a capacidade para fazê-lo, o que relevaria as diversas falências do filme, o que se questiona é, realmente, a necessidade de o fazer. Para mim, o que O Despertar da Força provou é que era possível viver não duas, mas três vezes, fazendo crescer novas personagens, a partir dessa reencarnação do que nos fazia mais fortes. Porque este não é, definitivamente, um legado qualquer. Em Os Últimos Jedi, mesmo por entre todo aquele carisma e aquela envolvência universais, cai-se no erro de pensar que é fácil reinventar universos e inventar tempos a histórias intemporais. E vai-se por esse caminho atalhado, prometendo muito e concedendo pouco, trocando a coesão do ideário pela gratuitidade da novidade e da acção, tentando cair em graça, sem ser engraçado, e cometendo, por fim, a lesa-majestade de desbaratar alguns personagens de luxo pelo caminho.

Manterei sempre a máxima de que é difícil falhar uma Guerra das Estrelas e assumo que, do ponto da vista da militância, são 3h de avidez, muitas vezes competentes, algumas vezes comoventes e umas poucas imemoriais e encorajadoras, e que isso já seria quanto baste. Todo o regresso já seria quanto baste. Será, contudo, fácil concordar que Os Últimos Jedi é inferior ao reinício da saga, que se precipita a coser uma narrativa à altura do que está em causa, e que desperdiça tempo precioso para o desenvolvimento das novas personagens, algumas delas activos verdadeiramente grandes. Feito o preço justo, foi pena. Ao tentar dar dois passos em frente, a Força deu um para trás. Que as experiências se corrijam.

6.5/10