segunda-feira, 30 de junho de 2014

Copa, dia 17: a Grécia não pôde ganhar à Grécia

 

Costa Rica 1-1 Grécia (5-3, agp)

Não sei se nalgum momento dos últimos 10 anos pensei realmente escrever isto mas, hoje, tive pena deles. Só houve uma equipa em campo a querer ganhar e a trabalhar realmente para isso, não porque foi obrigada, não porque teve de correr atrás do prejuízo, mas porque a isso se prestou desde o início, por honestidade e por convicção competitiva. Não sei se o percurso acidentado e a saída inglória lhe farão justiça mas, pese o seu ADN, todas as suas deficiências e o próprio preconceito generalizado, a Grécia deve ser lembrada como uma equipa que dignificou o jogo e que, não só mereceu chegar às eliminatórias, como devia ter estado entre as oito mais fortes. Os helénicos foram sempre positivos e foram melhores em três dos seus quatro jogos. Esqueçam tudo o que sabiam deles. Fernando Santos fez um trabalho notável com os recursos e a mentalidade que tinha à disposição e transformou a Grécia para muito melhor... só para vê-la ruir perante um adversário que usou os seus antigos segredos como um guião: muito esforço, futebol em metade do campo, um grande guarda-redes e um tiro de sorte, jogar em inferioridade e ganhar nos penalties. Nada pode ser tão irónico quanto o destino.

Não se pense que estou aqui a diabolizar a Costa Rica, porque isso jamais seria possível. Os ticos serão sempre a grande história deste Brasil. A equipa que nunca ninguém respeitou, mas que, do fundo do grupo da morte, chega a uns quartos-de-final após desterrar três campeões do Mundo e um campeão da Europa. Falaremos sempre deles com o carinho que eles merecem e a odisseia segue aí, viva. A minha única tese é que o futebol não pode ser dogmático, nem nos heróis, nem nos vilões. Na antecâmara, claro que teria sempre ratificado este resultado, mas jamais consigo ficar indiferente à competência. A relva é como o algodão, não engana. E, por mais que eu respeite a Costa Rica, hoje não era um papão que estava do outro lado, mas uma equipa real quanto baste, humana, uma equipa que merecia, pelo menos, alguma devoção de crédito. Depois do brilhantismo da estreia, tudo o que os homens de Jorge Luis Pinto tinham de fazer era sobreviver, a todo o custo, forjando a ferro e fogo que tinham nervo para levar as promessas até ao fim. Hoje, pelo contrário, era o dia para a Costa Rica voltar a jogar, voltar a ser alegre, voltar a mostrar porque é que nos conquistou. Seja por incapacidade, seja por mérito adversário, seja porque se convenceu do cinismo, não aconteceu.

Até ao golo pincelado de Bryan Ruiz, a equipa manteve-se a uma distância segura do jogo, especulando com as dádivas que ele lhe pudesse dar. Nunca pôs ideias em campo, nunca foi atrás da sorte. Quando a sorte por acaso lhe calhou, foi como se o jogo já tivesse acabado, o que só piorou com a expulsão de Óscar Duarte. A Grécia foi em crescendo. Carrilou sempre mais jogo, teve a única oportunidade da primeira-parte, sofreu contra a corrente e, depois, abateu um volume ofensivo em tempos inimaginável sobre o adversário. Os gregos têm um ataque algo primário, sem muita criatividade, mas com muita vontade e muito carácter. Sob todos os prismas, é difícil ficar indiferente ao que foram fazendo no Brasil, à valia da equipa e ao mérito de Fernando Santos. O golo nos descontos foi uma orgulhosa reminiscência muito sua, um vestígio do seu sangue perverso de tantas outras noites e, por uma vez, fez-lhes jus, deixando o cheque-mate suspenso no ar. No entanto, era só um presente envenenado. A Grécia ainda não deve ter percebido como é que não ganhou no prolongamento (24 remates contra 6, 57% de posse de bola...) mas, chegados aos penalties, só era, afinal de contas, o seu jogo para perder. Uma década depois de ter sabotado todos os que lhe apareceram pela frente, foi amoralmente no momento da redenção que a Grécia encontrou uma das suas mais dramáticas derrotas.

GRÉCIA - Holebas foi talvez o melhor lateral-esquerdo deste Campeonato do Mundo. Explosão, intensidade, técnica, um comboio verdadeiramente incansável com soluções técnicas de fazer inveja aos mais avançados. Brilhante. Lazaros, na extrema direita, foi o outro fórmula 1 da equipa. Com jogo de cintura e uma finta curta e objectiva, tem um pulmão insuperável e vende pragmatismo. Aos 37 anos, Karagounis correu 12km e encheu verdadeiramente o campo. A criatividade da juventude trocou-a pela maturidade táctica, pela capacidade de trabalho e pelos dons da construção a partir de trás. O capitão bem mereceu despedir-se de outra maneira. Muito bom jogo dos centrais também - Manolas e Sokratis - e peso sempre indiscutível de Samaras e das suas viagens menos ortodoxas pelo último terço.

COSTA RICA - A vitória tem um nome: Keylor Navas já era, com propriedade, um dos grandes guardiões deste Mundial. Hoje chegou-se verdadeiramente à elite, com duas defesas monumentais, a primeira a segurar o 0-0, a segunda a garantir os penalties que ele próprio viria a decidir, com a derradeira parada de ouro. Já dissera anteriormente que a Costa Rica pode não ter muitas individualidades, mas que tem a sorte das principais corresponderem. Hoje tal não poderia ter ficado mais claro, sobretudo quando a isto se juntou aquele bilhete delicioso de Bryan Ruiz.

domingo, 29 de junho de 2014

Copa, dia 17: corazón partío

 

Holanda 2-1 México

Foi o que de mais parecido este Mundial já ofereceu a um episódio da Guerra dos Tronos. Estava tudo bem, era como se já tivesse acabado e, por uma vez, o herói ia ganhar. Ochoa voltara a ser um extraterrestre, houve a centelha de génio na frente e o resto era a obra do carácter único de uma equipa com a qual já tínhamos aprendido a sonhar. Sem a hipertensão com que contáramos, num certificado de maturidade e competência, o México ia mesmo concretizar serenamente um destino surpreendente mas que todos quantos o têm visto sabiam ser verdadeiramente possível. Os últimos cinco minutos são uma bastonada no corpo todo. A sensação de impotência foi grotesca, o requinte maquiavélico do fim engoliu-nos por dentro e restou-nos ficar a olhar para o ecrã adormentados, esmagados perante o choque. O sonho acabara-nos de ser arrancado ali, sem aviso e à traição, como numa armadilha crua que, afinal, nunca poderíamos ter ganho.

O jogo foi diferente do que se podia prever. Nem os mexicanos conseguiram emprestar-lhe a sua notável dinâmica, nem a Holanda soube ser elegante com bola. Pelo menos até ao golo de Giovanni, foi uma partida pragmática e renitente ao risco, com ambas as equipas, em 3-5-2, a conservarem linhas baixas, a pressionarem pouco e a privilegiarem o equilíbrio, ou seja, a mandarem gelo sobre o campo, num dos dias em que, de resto, o calor também foi uma das mais incontornáveis condicionantes. Num perfil mais próximo do que a Holanda sabe fazer, o México foi, contudo, mais perigoso. Com paciência e menos excesso, os tricolores perceberam que defendiam melhor do que o adversário e que, afinal de contas, o registo podia-lhes até servir melhor. O 1-0, apesar de não decorrer dum domínio claro, foi o corolário da única equipa que tinha tido efectivamente oportunidades para marcar.

É um lugar-comum dizer que os golos mudam as equipas, mas há, de facto, uma Holanda antes e outra depois do golo sofrido. Três jogos depois da goleada ao Campeão do Mundo, a Laranja é hoje uma charada táctica que começa a ser difícil de compreender. Van Gaal tem usado dois sistemas por jogo e rodado peças com uma compulsão que até aos jogadores me parece estranha de assimilar. Kuyt e Blind, por exemplo, jogaram hoje em três posições diferentes!?, o que é, pelo menos, bastante inortodoxo. Nesta alienação teórica, a Holanda pareceu, até ao golo mexicano, simplesmente convencida de que o tempo corria a seu favor, de que um golpe dos génios estaria sempre no fim da história. E estava certa, mesmo que por linhas tortas. Pelo que fizeram na última meia-hora, os holandeses justificaram a chance. Mesmo sem o compasso de outras tardes, a equipa foi com tudo o que tinha e acabou por triunfar nos seus próprios termos: pelo génio dos seus ases - melhor jogo de Sneijder no Mundial, mais o Robben normal - e pelo seu extraordinário sangue frio.

No segundo do empate, achei honestamente que o prolongamento era justo. Que se uma destas duas enormes equipas tinha de cair, pois que a outra sofresse e o honrasse o suficiente. O futebol, porém, tinha em mente outro tipo de sacrifício. Mais radical, finito. Definitivamente mais cruel. O adeus do México seria sempre um dia triste. Só não tinha de ser desumano.

MÉXICO - Deus Ochoa, ou 'Oshowa', como lhe chamaram os brasileiros na semana passada, fez mais uma partida inesquecível. Ir embora nos oitavos é como ficar em 4º nos Jogos Olímpicos: é já teres uma história, mas morreres na praia do reconhecimento. Não há ninguém no México que merecesse mais a qualificação histórica do que o melhor guarda-redes do Mundial. Mesmo que em apenas quatro jogos, porém, as suas paradas insuperáveis serão lembradas para a posteridade. Na próxima época, estará numa equipa à sua altura. Num dia de futebol ingrato, que tenha sido Rafa Márquez a fazer o penalty fatal é outra perversão. O capitão foi sempre uma bandeira desta campanha e, hoje, fez mais uma exibição quase perfeita. Que pena. Muito bom jogo de Guardado no meio, outro dos que sai bastante valorizado. E golaço de Giovanni dos Santos, naqueles lances de génio que, por mais interminente que seja a sua carreira, podemos sempre acreditar que moram por lá.

HOLANDA - Mesmo quando tudo se torna confuso, podemos sempre confiar na simplicidade do talento. Por um dia mais, Arjen Robben voou quase sozinho rumo às estrelas. Nunca me posso cansar de dizer que há muitos grandes jogadores, mas que ele é um dos excelsos predestinados. Foi o seu génio vertiginoso que guiou a Holanda à sua sorte. No momento mais sensível da equipa até agora, apareceu Sneijder. O Pequeno Genial tem andado muito distante do Brasil, num modelo que, de resto, também não sabe exactamente o que lhe pedir. Hoje, porém, desdobrou-se no que foi preciso e propeliu todos à sua volta, mais o grande golo. Depay é mesmo uma das revelações da prova e começa a exasperar pela titularidade. Mais uma exibição do suplente de luxo, na ala esquerda.

sábado, 28 de junho de 2014

Mata-mata


Onze da primeira fase [3-4-3]:  

Ochoa (México); 
Rafa Márquez (México), Medel (Chile), Óscar Duarte (Costa Rica); 
Robben (Holanda), Herrera (México), Matuidi (França), James (Colômbia); 
Messi (Argentina), Benzema (França), Neymar (Brasil)

T: Miguel Herrera (México)

Parte da alma do Mundial acabou anteontem para a posteridade, na energia inenarrável dos três e quatro jogos por dia e dos 32 sonhos diferentes em campo. O Brasil 2014 tem sido um espectáculo ainda maior do que prometeu: um jorro de futebol inacreditável, regado com uma média de golos lendária, um lugar de jogos históricos, de surpresas irresistíveis e de filosofias que morrem, de uma identidade muito própria, o naufrágio europeu aos pés do Novo Mundo, e um palco de ídolos que chovem como ases. Perfeito. Agora que retomamos o fôlego, contudo, é hora de dizer que hoje começa outro Mundial. Outra face do planeta futebol, porventura menos eufórica, mas brutalmente mais intensa, os jogos de nervos em que cada segundo mata ou morre, na relva onde já não há segundas oportunidades. Agora só há lugar para quem falar a sério. Ficam as apostas:

Brasil-Chile. O Brasil vai ganhar mas só porque tem mesmo, mesmo de ganhar. Depois duma fase de grupos amorfa, a Canarinha teve o azar de encontrar de chofre um dos mais terríveis segundos classificados. O Chile fará a vida negra a Scolari - vai marcar, nunca se vai descompor e um prolongamento não está fora da mesa - mas, mais pela magnitude do contexto do que pela sua efectiva superioridade, o Brasil está condenado a seguir em frente. Nem os apocalipses podem ser prematuros.

Colômbia-Uruguai. Acredito que o destino do jogo se escreveu no momento em que a FIFA puniu Suárez como ele merecia. Claro que menosprezar o Uruguai seria um erro imenso e, se há um sobrevivente no Brasil, é o conjunto de Tabárez; sem o vampiro, contudo, a equipa fica desterrada e literalmente sem presas. Não me parece, por isso, que possa responder àquela que é uma das três grandes selecções do Mundial até agora. Menos experiente, menos agressiva e menos cínica, a Colômbia é, no essencial, uma equipa brilhantemente idealizada, senhora de uma monumentalidade de talento que parece desafiar quaisquer convenções.

Holanda-México. Declaradamente a tripla dos oitavos, pelo nível excepcional que ambos estão a apresentar. É, aliás, criminoso que Holanda ou México tenham de ir já embora. A Laranja é aquele 5-1. Tem um treinador de classe planetária, uma equipa equilibradíssima e dois génios na forma das suas vidas. Ainda vice-campeã em título, é quem tem mais responsabilidades e será a teórica favorita. Honestamente, porém, digo sempre que será um 50/50. Não há um parâmetro do jogo em que este México não seja excelente (capacidade defensiva, coesão táctica, pressão, dinâmica do miolo, golos) e, no resto, estamos a falar de um coração gigante em forma de equipa. Os mexicanos são mais inocentes mas igualmente mais intensos, talvez piores no ataque, se calhar melhores no resto e nunca, nunca vão desistir. É este o jogo que ninguém pode perder. E sim, voto México.

Costa Rica-Grécia. O feel-good game da eliminatória. Duas equipas que não deviam cá estar mas que, por honesta competência, merecerão cada bocado do seu lugar ao sol. Pela rodagem, a favorita é esta Grécia, diferente de outros tempos, sempre assombrante mas, hoje, a jogar mais do que se pensa. Seja como for, este não é, por certo, o Mundial dos estatutos e ninguém o provou mais ostensivamente que os ticos. Vencedores sem derrotas do grupo da morte, com um futebol quente e atraente, os homens de Jorge Luis Pinto são a lenda maior deste Brasil e acredito que será ela a subsistir.

França-Nigéria. Os campeões africanos terão o prazer de despedir-se frente a uma das mais espectaculares equipas do torneio e um dos sinceros candidatos ao título.

Alemanha-Argélia. Segundo take da conferência UE-África e necessariamente o mesmo desfecho, até ao titânico embate franco-alemão dos quartos-de-final.

Argentina-Suíça. Messi resolve, ainda que sobre alguma curiosidade para ver como é que a Alviceleste, com tanto provar, se comporta perante o seu adversário mais exigente até agora. A Suíça é uma equipa positiva e talentosa que pode sempre pregar uma partida mas, sinceramente, a derrota com a França parece feri-la de morte. Os alpinos mostraram-se, aí, terrivelmente macios e desequilibrados em desvantagem, com o resultado que se sabe, e nunca puderam criar o élan que se lhes antecipava. Mesmo com um treinador primário e cheia de interrogações, o talento individual e o calendário parecem condenar a Argentina a mais um final feliz.

Bélgica-EUA. Que as odds estejam sempre a seu favor deve ser o lema dos belgas. A equipa mais antecipada do Brasil 2014 foi presenteada com o grupo mais fácil da primeira fase e a verdade é que ficou-nos a dever o bilhete. Sem uma visão colectiva e sem autoridade sobre o jogo, sem um único momento de afirmação cabal, os belgas viriam a fazer o pleno com base exclusivamente no talento abusivo dos seus jogadores. Os oitavos antecipam-se como o enésimo episódio da série. Os Estados Unidos fizeram um apuramento digno, mas são uma equipa de demasiado baixo alcance para transtornar uma Bélgica infinitamente mais talentosa e, ainda por cima, moralizada. Os homens de Wilmots chegarão longe antes de terem realmente de provar alguma coisa.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Copa, dia 15: os bem-aventurados


Estados Unidos 0-1 Alemanha

O dia fica indiscutivelmente marcado pela qualificação de duas equipas que, mais do que não serem favoritas, eram consideradas as mais frágeis dos respectivos grupos. Aqui, o feito dos Estados Unidos é tanto mais impressionante: num dos grupos da morte, os americanos deram conta de afastar um semi-finalista do último Europeu e a ainda melhor selecção africana, sem disporem de quaisquer recursos que nos fizessem acreditar que isso era minimamente possível. Um desfecho destes nunca pode ser linear e tem, sem dúvida, um sem número de condicionantes, nomeadamente o demérito dos mais fortes e um vestígio de sorte. De facto, os Estados Unidos usufruíram de ambos, nomeadamente na vitória impossível da estreia quando, sem merecerem sequer empatar, ganharam nos descontos, com um canto chutado do céu. Seja como for, nunca abdicarei do princípio de que quem cumpre, justifica-o sempre. O jogo com Portugal provou isso mesmo. A equipa estudou, foi solidária e, em boa parte, fez a sua própria sorte. Não me parece que os americanos possam sobreviver a qualquer eliminatória, mas a passagem é extraordinária. Depois do 3º lugar em 2006, e à sua devida escala, Klinsmann volta a dar cartas num Mundial.

Da Alemanha, ressalvar a inatacável altivez competitiva. Assim que se começaram a vilipendiar as possibilidades de um arranjo entre as duas equipas, que as qualificasse às duas, tive vontade de rir. Só quem não faz rigorosa ideia do que é mentalidade alemã podia assombrar-se com isso. Mesmo em ritmo de cruzeiro, Low bateu o homem de quem um dia foi adjunto e ganhou o grupo como se lhe exigia. Todavia, depois do apocalipse da estreia, é hoje menos líquido o alcance desta Mannschaft, ainda que estar entre os oito melhores tenha de ser uma mera formalidade. Uma nota obrigatória para Thomas Muller: 9 jogos, 9 golos em Mundiais, aos 24 anos. Tão discreto quanto surrealmente eficiente, é um avançado - assim, em termos latos - realmente bestial. A máquina não podia ter melhor porta-estandarte.


Argélia 1-1 Rússia

É um desfecho igualmente impressionante, mesmo que os argelinos chegassem ao jogo decisivo em condições mais favoráveis, a precisarem de um único ponto para concretizarem o sonho. Acontece que a Argélia era velada no grupo do Irão e das Honduras, como a tríade de selecções rotundamente piores a estarem presentes no Brasil. Os homens de Vahid Halilhodzic até se prestaram a chocar o mundo no dia inaugural, batendo ao intervalo a super-Bélgica mas, tanto a remontada, como esse penalty caído do céu, por entre um deserto de futebol, pareciam destinar-lhes a mesma sorte. Por acaso, Rússia e Coreia não fizeram melhores coisas, pelo que o segundo jogo, contra os asiáticos, acabou por ser o oásis das Raposas do Deserto. Halilhodzic mudou meia equipa e acabou com uma goleada impensável: foi a primeira vez que uma equipa africana marcou 4 ou mais golos num Campeonato do Mundo. Hoje, eram realmente os norte-africanos a chegar moralizados mas, mesmo nestes termos... do outro lado estava Capello. No global, será justo reconhecer que a Argélia não foi a equipa mais forte em campo. Esteve a perder, foi ressuscitada pelo seu grande guarda-redes - M'Bolhi - e só subsistiu com muita vontade, até encontrar a porta para o paraíso na cabeça de Slimani. O avançado do Sporting voltou a ser decisivo e fez História: este foi o primeiro apuramento de sempre da Argélia para uma segunda fase. Notável.

A Rússia sai pelos fundos e deixa em aberto o reinado de Capello, depois de tamanho falhanço. Tal como no Euro-2012, a equipa foi desfeiteada no último jogo dos grupos, quando tinha todas as condições para passar. Por uma vez, Capello teve honestamente azar. Os russos, sem talento visível, e depois de terem perdido o seu melhor jogador à 25ª hora, foram superiores aos respectivos adversários em todos os três jogos!, o que dá que pensar. Não muito melhores, mas mais inteligentes, melhor preparados, no controlo. A verdade é que todos os tiros saíram pela culatra. A equipa marcou menos do que devia, nunca teve sangue frio, sofreu golos verdadeiramente indigestos e, como se não bastasse, foi vítima dos erros imperdoáveis do seu guarda-redes, Akinfeev, um dos homens que certamente mais desterrados sairão do Brasil. No fim, porém, as contas são sempre cruas. Don Fabio chegou ao Brasil com os honorários de treinador mais bem pago da competição, a Rússia com os pergaminhos históricos e com o diploma de qualificada directa. Num grupo destes, nem com todo o azar do mundo podia ter acabado assim.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Copa, dia 14: a canhota dos ricos, a dignidade dos pobres


Honduras 0-3 Suíça

Num dos dias mais pacíficos do Campeonato do Mundo, com os destinos decididos ou razoavelmente encaminhados, o palco foi de duas figuras maiores. Depois do trauma napoleónico, a Suíça estava bem ciente da tragédia que era poder falhar, quando tinha uma passadeira vermelha estendida. O estado emocional da equipa, todavia, deixou muito cedo de ser um problema, assim que o seu pequeno touro meteu da direita para o meio e, a 25 metros, desolou as redes hondurenhas com um dos golos do torneio. Seria o início de um dia histórico para Xherdan Shaqiri. O criativo do Bayern voltaria a marcar por duas vezes, em unha e carne com o ponta-de-lança Drmic que, por sua vez, bisou nas assistências. Depois de quatro! más campanhas sucessivas, a pior de todas a não qualificação para o último Europeu, Der General Hitzfeld qualificou finalmente a equipa para as eliminatórias, naquela que deverá a ser a sua despedida, e frente ao próprio adversário que lhe sabotara os planos há quatro anos. A Suíça tem um plantel de muito bom nível e uma equipa bem organizada, que teve o mérito de saber valer-se do talento, sendo um justo qualificado. Ainda assim, a derrota com a França pesará sob qualquer julgamento e mancha no ar a ideia de que os suíços deixaram, na verdade, coisas importantes por provar. No papel, bater esta Argentina não é, na verdade, uma tarefa impossível, mas se sugerirem sequer dificuldades na transição defensiva, os suíços acabarão dizimados.


Nigéria 2-3 Argentina

Com a equipa já qualificada, Alejandro Sabella decidiu, mesmo assim, manter o onze argentino inalterado, certamente consciente do tanto que ainda tem a mostrar e de que todos os minutos podem ser úteis para engrenar. Por um dia mais, contudo, o suspeito do costume roubou a festa: este também já é o Mundial de Leo Messi. Numa equipa com pouco que a valha a não ser o talento cru, a Pulga tem-se dedicado a resolver jogo sobre jogo, como numa jornada incansável, em jeito de missão. Depois dos momentos assombrosos das duas primeiras jornadas, foi a vez de um Messi, hoje mais relaxado, servir um bis para sobremesa. A Suíça é superior a qualquer rival do grupo F, mas ainda não será exactamente o adversário que pode pôr tudo em causa. Seja como for, já sabemos que há Messi. E isso diz muita, muita coisa. O único parâmetro que se equivaleu ao #10 viria a ser a compostura nigeriana. De facto, os campeões africanos foram de ganas ao jogo, recuperaram duas desvantagens e, sinceramente, mereciam melhor sorte. A Nigéria, é bom lembrar, não era favorita à passagem e, não só se qualifica com dois clean sheets, como ainda jogou taco a taco com um dos candidatos. É, possivelmente, uma das surpresas mais subvalorizadas da prova. Não parece, contudo, possível ter estaleca para segurar o TGV que aí vem.


Equador 0-0 França

A França fez alterações e esteve na mesma em alta rodagem, tornando redundante o que já se sabia: a equipa sobeja talento, motivação e confiança (e até Pogba, que ainda faltava, já está em evidente crescendo). Só uma hecatombe pode prevenir que esteja, no pior dos casos, no grupo dos oito melhores. Só não ganhou hoje porque encontrou pela frente aquele que é, até ver, o mais altivo de todos os eliminados. Na crónica do jogo com as Honduras escrevi que, acontecesse o que acontecesse, os equatorianos já não envergonhariam ninguém. Hoje eles fizeram questão de provar-me verdadeiramente certo. Frente a um adversário tremendo, que quis mesmo ganhar o jogo, o Equador deu uma extraordinária demonstração de carácter, sobre todas as suas circunstâncias. À meia hora, a Suíça já ganhava por dois no outro campo, aos 60', Antonio Valencia expulsou-se  - a estrela foi, de muito, muito longe, o pior de todos - e, mesmo assim, foi irresistível a demonstração dos últimos 20 minutos. Em inferioridade, os homens de Reinaldo Rueda não só defenderam com tudo o que tinham (o guardião Domínguez foi uma das estrelas do torneio), como responderam para ganhar como se este fosse o seu Maracanã. É por equipas como o Equador que o Brasil 2014 está a ser um sítio tão memorável.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Amanhã


Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós. Sermos muito melhores do que até agora é só a parte fácil. Precisamos de uma abusiva ajuda adversária e precisávamos, tanto pior, que os rivais directos, que tão mais capazes têm sido, decidissem, logo amanhã, deitar tudo a perder. O milagre do apuramento não é mais do que uma linha de equilibrismo impossível, em que a maior das fés se presta a deixar engolir pelo abismo da razão. Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós, salvo a mais importante: escolhermos como é que queremos sair.

Amanhã é um dia para ganhar. Por uma vez, não porque nos vai levar em frente, não porque há uma História a fazer, mas porque precisamos de nos dar a esse respeito. Porque, mesmo se tudo acabar mal, deve acabar nos nossos termos. Aceito qualquer derrota, mas não aceito qualquer eliminação. Nunca fui jogador, mas não há nada que me confunda mais do que estar lá e não querer saber. Como é que é possível entrar na relva e ser alguma vez indiferente? Quem não joga para ganhar, não é mau profissional, é mau na vida. Se estar no Campeonato do Mundo com o escudo ao peito não for um argumento suficiente, espero que eles ao menos percebam o quanto são pequenos em relação ao resto. O país mais antigo da Europa joga no Brasil apenas o seu sexto Mundial. Gerações de enormes futebolistas, tantos tão maiores do que eles que lá estão, teriam morto pela chance deste Portugal-Gana, fossem quais fossem as circunstâncias. Lembrem-se que parte dos que ali estão não voltará a pisar um Mundial. Lembrem-se que, um dia, quando forem velhos e não vos sobrar mais nada, nem umas férias nem um salário para voltar, não vão querer olhar para trás e envergonharem-se da oportunidade que tiveram a sorte de ter. Representar o país não é vosso mérito; é vosso privilégio. Se vos faltar a vontade, lembrem-se que ela também não nos interessa para nada e tenham a hombridade de correr por todos quantos, no fundo do poço das probabilidades, vão vestir o verde e o vermelho e sofrer até que não haja milagre que nos valha, por todos quantos dariam tudo para lá estar no campo, a poder, ao menos, perder como homens.

Amanhã é um dia para não ser arrogante. Errámos muito, provavelmente para lá da salvação, mas não temos de errar até ao fim. Nunca é tarde para admitir e, fazê-lo, é a maior de todas as provas de dignidade. Consigo respeitar um treinador que quer ganhar com as suas ideias, jamais alguém que prefere perder em vez de mudá-las. Qualquer miúdo de 12 anos já fez o diagnóstico da Selecção. Não temos balanço, uma ideia, nem nada treinado. Não temos capacidade física, nem temos Ronaldo apto. É preciso lucidez para reparar o sistema, coragem para afastar os consagrados. Neste momento, Bruno Alves, Meireles, Veloso, até Moutinho, não têm condições de jogar. É preciso recorrer a quem tenha algo para dar a nível técnico, físico, táctico (Neto, William, Amorim, William, Varela, William, William, William). Se Ronaldo não pode defender, se nem é útil que defenda, requisitem uns vídeos do que Ancelotti inventou no Real. Não é física quântica.

Beto, João Pereira, Pepe, Neto, André Almeida, Nani, William, Amorim, Varela, Ronaldo, Éder. Um 4-4-2 nem sequer porque precisamos de muitos golos, que tem muitas mudanças, mas não porque precisamos de uma lição. Simplesmente porque esse guião e esses actores são aquilo que mais genuinamente nos pode servir agora. Que Paulo Bento, cujo trabalho sempre zelei, perceba que isto não tem de ser uma exibição marcial de lealdade, um hara-kiri irredutível, cuja grandeza só existe na sua própria cabeça. Pode não haver qualificação, mas que haja redenção. O seu serviço não está à cartilha de nomes que elegeu, mas àqueles que sempre respeitaram o seu trabalho. E esses merecem mais.

Amanhã é um dia para saber ganhar mas, sobretudo, para saber perder. Se houver milagre, pois que estejam à altura da transcendência que o tornou possível; decerto que os problemas não terão desaparecido por magia. E não queiram ser vingadores de conferências de imprensa, como se estivessem sozinhos contra o mundo. Mas se cairmos, por pior que seja, tenham respeito, por vocês e por nós. Não lavem roupa suja, não cacem bruxas, não ponham tudo em causa. Nem na derrota temos de ser um bando de perdedores. O eterno Sócrates, pai espiritual do Brasil-82, a melhor selecção que já jogou, disse uma vez que ser campeão é detalhe. Mostrem que jamais iremos embora sem uma luta e, se isto for o fim do ciclo, lembrem-nos porque é que vale a pena ter orgulho nele. Amanhã, no fundo, é tudo muito mais importante do que ganhar ou perder.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Copa, dia 12: a equipa que nunca nos vai trair


Croácia 1-3 México

O futebol é Miguel Herrera a festejar um golo. É ser espoliado por um árbitro e ter um empate suficiente para a qualificação, mas atacar como se a vida dependesse disso. É Rafa Márquez, 35 anos, capitão pelo 4º Mundial seguido, a marcar o golo que mais ninguém podia marcar, a um quarto de hora do fim. É não conhecer o lado feio disto. É continuar a carregar mesmo depois de já se estar na frente. É ter um mundo de gente a abraçar-se nas bancadas como se nunca tivesse sentido nada tão absolutamente. É acreditar que o jogo pelo jogo é um mantra que vale a pena honrar, um romance pelo qual vale a pena lutar. México é castelhano para 'joga bonito'.

À tarde, víramos o cume da adultez competitiva: a Holanda a usar o jogo e a corrompê-lo a seu bel-prazer, a sacrificar o que foi preciso sem sequer hesitar, impenetrável e imbatível. À noite, percebemos que nada pode ser mais diametral do que o confronto que se avizinha nos oitavos: o México é um coração do tamanho de uma equipa de futebol. Uma equipa apaixonada e apaixonante, que só sabe estar em campo de uma maneira, comprometida com o seu ideal de que é preciso viver a 200%, de que é preciso gozar e sentir tudo o que se faz. Nada ali é desonesto, cínico. O México é a equipa que nunca nos vai trair. É o futebol total à flor da pele, o mesmo que um dia, em miúdos, jogamos todos na rua, com o mesmo brilho nos olhos e o mesmo entusiasmo impoluto de devorar o mundo em cada lance, ganhar ou morrer.

Desde o primeiro pontapé, tudo aconselhava prudência e sangue frio aos mexicanos. Estavam na frente, vinham a ser melhores, o prejuízo era croata. Desde o primeiro pontapé, porém, o México colocou-se alegremente do lado contrário ao das próprias odds. Só porque se o futebol é sombrio, deixa de ser futebol. Sangue frio? Como se fosse possível. A última meia-hora é um vendaval memorável, de cujo desnorte os croatas demorarão bastante tempo a recuperar-se. Nada parou aquele tufão futebolístico pejado de compromisso, nem o penalty imperdoável por marcar, até o circo místico ter-se finalmente começado a fechar na cabeçada do capitão. Aconteça o que acontecer, Miguel Herrera já é um símbolo. Obrigado por tudo, El Tri. E toda, toda a sorte do mundo para o que vier.

A Croácia foi uma desilusão. Do pudor da estreia, pese o assalto arbitral, à inferioridade consumada hoje no campo, a cadência do Brasil foi um desafio, afinal, demasiado exigente, mesmo para quem tinha tanto talento. O Mundial é, antes do resto, o sítio dos duros; à Croácia faltou desde o início essa personalidade e essa agressividade competitiva. Hoje, com o México pela frente, a diferença foi como um abismo. À semelhança do Euro-2012, os croatas voltam a deixar uma história por contar, se bem que, agora, tenham de sair pela porta dos fundos.

MÉXICO - Hector Herrera, hoje e sempre. Já sobra pouco a dizer sobre o jogador do Porto e, agora que os elogios se amontoam, resta afirmar o essencial: é o melhor médio do Mundial. Guardado é um parceiro de miolo perfeito, pela meia-esquerda. As suas chegadas à área contrária têm a graça de um bombardeiro. Chicharrito merecia mais minutos. Por fim, Rafa Márquez. Pese a postura abertamente positiva, o México tem mostrado ser uma das grandes defesas da prova. No dia em que isso não era suficiente, o capitão foi à área contrária resolver o jogo. Um líder não se compra e jamais se pode pagar.

CROÁCIA - Perisic foi o melhor croata no Brasil. Com golos, assistências e conexão directa ao jogo, alheia aos humores, o extremo do Wolfsburgo é o clássico jogador de alto rendimento. No talento puro, o que me dói mais é a despedida de Rakitic. Tem classe em cada madeixa de cabelo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Copa, dia 12: keep calm and trust Louis


Holanda 2-0 Chile

Jogo espectacular em potência, com duas das grandes equipas do Mundial até agora, sem a neura da qualificação e com o bónus que era, com toda a probabilidade, evitar o anfitrião nos oitavos-de-final. Infelizmente, foram promessas não cumpridas. O Chile quis mais, mas nunca foi capaz de emprestar ao jogo a sua fúria; a Holanda mandou um autêntico balde de gelo para a relva, sabendo que o empate lhe sobrava. À laia da velha raposa que tem no banco, e graças a um Robben que continua a escrever na relva canarinha uma história especial, a Laranja mataria o jogo no quarto-de-hora final, com o sangue frio dos melhores assassinos.

Foi uma exibição cínica de uma das selecções mais entusiasmantes do torneio. De facto, e quando o momento o pediu, Van Gaal nem hesitou em emprestar ao jogo cada gota do seu pragmatismo. Com Blind a central, Kuyt a lateral-esquerdo! e sem ponta-de-lança, a Holanda foi quase provocadora no seu experimentalismo e num certo alheamento ao jogo. Evidentemente conscientes de que o vento soprava a seu favor, os holandeses pareceram limitar-se a fazer descanso activo, oferecendo ao Chile toda e qualquer iniciativa de jogo. Com um posicionamento sólido, esse bluff serviria para intimidar o adversário que, apesar de muito mais dedicado, nunca se prestou às nuances kamikazes que tanto constituem a sua imagem de marca. Como perceberam depois, de pouco serve jogar xadrez com Van Gaal. O empate chegava, mas a Holanda também previra o exacto momento para fazer o cheque-mate, assim que, por cozê-lo em lume brando, tivesse roubado ao adversário toda a alegria de jogar. Entrados no último quarto-de-hora, 90 segundos em campo foram suficientes para que Leroy Fer concretizasse o plano, através das bolas paradas onde é tão forte. O KO seria um mero fim simbólico assinado por um futebolista excepcional, o único que, no fundo, teve liberdade para jogar sempre no seu próprio mundo. Que Mundial está a fazer Arjen Robben.

Ainda que longe da exuberância do jogo anterior, o Chile merecia melhor sorte. Impecável nos cinco detrás, e com Alexis num grande dia, a equipa acabou por sucumbir na medida em que o adversário lhe tornou o jogo tão desconfortável. Os chilenos são uma equipa de coração na boca que, pura e simplesmente, não sabe especular. Com a Holanda a baixar o ritmo e, maquiavelicamente, a 'recusar' jogar, os homens de Sampaoli perderam as referências e assemelharam-se a peixes fora de água, condenados a sufocar devagar até sucumbirem à armadilha. Daqui para a frente, o Chile nunca será favorito e são essas as circunstâncias que melhor capitalizam o seu jogo. O Brasil será, contudo, imprudente e pouco inteligente se não tiver estado hoje a tirar notas de mais uma perversa lição estratégica de Van Gaal.

HOLANDA - Robben. Que luxo. Até num jogo fechado e armado como este, sem sequer Van Persie a acompanhar, foi impossível negar-lhe o palco. Aos 30 anos, o homem de cristal está melhor do que nunca. É um dos futebolistas de elite que mais melhorou com a idade, logo ele, em tempos tão exposto a lesões e a sub-rendimentos. Hoje, mental e fisicamente assente, o seu futebol é uma imensa proposta irresistível. Ficará na História como um daqueles talentos excelsos que nunca pôde ganhar uma Bola de Ouro. Memphis Depay voltou a entrar muito forte e já é um dos suplentes de luxo da prova.

CHILE - É impressionante que, na Catalunha, o tenham em tão baixa estima. No dia em que se volta a dar como certa a sua partida, Alexis Sanchéz provou novamente que é um avançado de nível mundial. Passe o portento físico, tem tudo e faz tudo, destacando-se o papel na construção que desempenha, sem embaraços, na equipa nacional. Um craque. Mesmo em dia de derrota, é difícil deixar de admirar a postura dos lutadores: Medel lidera a defesa, mas sempre a cuidar da bola; Mena é um pilar na ala-esquerda; e no miolo, por seu turno, é Aranguiz quem acrescenta o toque quente à força legionária.

Copa, dia 11: só o talento pode perverter a lógica


Bélgica 1-0 Rússia

Ter pena de uma equipa de Capello, eis mais um conto para os anais deste Campeonato do Mundo. Num jogo terrivelmente tépido, a abordagem do italiano foi tão boa como seria possível. Consciente do que os diabos vermelhos podiam fazer em qualquer instante, a Rússia começou por ocupar-se muito bem atrás - sem autocarro, com redobrada competência - e soube sempre sair, acabando por controlar o jogo todo e ter as melhores oportunidades em 80 minutos. A Bélgica, por seu lado, limitou-se a ser estremunhada... mas sabemos que se pode dar a luxos reservados a muito poucos. Os flamengos acordaram expressamente para a recta final e, mais uma vez graças ao seu insultuoso talento, ganharam o jogo contra as cordas.

As estreias merecem ser relevadas, as confirmações não. A nível individual, é provável que a Bélgica mereça realmente o estatuto de 5º favorito das apostas; a nível colectivo, as limitações do onze de Wilmots já são hoje evidentes e denunciam que a esperança de vida não vá possivelmente tão longe assim. Dando sequência à boa reacção do primeiro jogo, o seleccionador belga promoveu três alterações aos titulares, com destaque para Fellaini e Mertens, ambos decisivos frente à Argélia. Pela frente estaria o adversário mais credenciado do grupo, mas a equipa já tinha o calo, agora só tinha de valer o bilhete. Uma vez mais, não valeu. Durante a eternidade do jogo, os diabos foram um conjunto errante, assente nos fogachos isolados dos seus fantasistas, um onze incapaz de mandar na partida, porque nem sabia ao certo o que queria dela. Fellaini entrou como duplo pivot, quando é muito mais efectivo junto do avançado; De Bruyne, que é tão vertical, mora a #10, quando parece muito mais um extremo; Lukaku ainda nem chegou ao Brasil. A Bélgica dispensa talento, mas é incontornável o tempo que passa à espera que as peças se limitem a cair magicamente nos sítios certos. Funcionou ontem, mais uma vez, mas a violência das eliminatórias é todo um outro campeonato. Um que dificilmente admite que se joguem aos dados.

Há equipas que fazem treinadores, há treinadores que fazem equipas. A segunda premissa é a Rússia. De facto, dificilmente se vislumbra talento aparente no onze da terra dos czares. O mérito russo é todo ele estratégico, na maneira como a equipa se coloca, lê e avalia o jogo, e tenta tirar partido dele. Depois do frango colossal que custou dois pontos na estreia, um golo em cima da hora foi de uma ingratidão inenarrável. Mesmo assim, ganhar à Argélia será suficiente. Ainda que os magrebinos estejam a dar boa conta de si, compadeço-me sempre da transcendência inerente ao trabalho de um grande treinador. Capello é bom que chegue para fazer acontecer até a estrelinha que ainda não teve.

BÉLGICA - Talento que nunca mais acaba. Impressionante. Mais uma vez, Hazzard no lance que tudo decidiu, ontem com uma jogada perfeitamente extraordinária, a fazer o que um plano inteiro não tinha conseguido. Na sombra de uma equipa que tem sido bem menos total do que se contava, o pequeno génio do Chelsea passa muitos minutos na solitária; ainda assim, podem crer que, se houver um lugar ao sol, ele guia-os até lá. Origi foi de provável não convocado, até à lesão de Benteke, a provável titular, dado o ocaso de Lukaku. O esguio avançado do Lille, 19 anos, foi uma pedrada no charco da equipa pela segunda vez e, desta, marcou mesmo o golo de ouro. Finalmente, porque é normal esquecermo-nos dele, Kompany. A Bélgica vai tendo muito que se lhe diga, mas se sofre de menos, deve-o necessariamente ao melhor central do mundo.

RÚSSIA - Destaques individuais são relativamente redundantes, numa equipa tão competente como a verdadeira acepção da palavra. Salientaria o bom meio-campo: Shatov, nas costas do avançado, tem escola, é objectivo e revela sempre discernimento; Fayzulin, o homem dos equilíbrios, tem pés agradáveis para a posição e muita compostura; Glushakov, a espécie de box-to-box, é efectivamente disponível e está confortável até nos flancos.

Copa, dia 10: cortinas de fumo


Argentina 1-0 Irão

Não pensei viver para ver Queiroz ser o líder de uma 'equipa do povo'. Que o Irão tivesse segurado o nulo a ferro e fogo já seria verdadeiramente notável; que ainda tenha roçado a vitória em 2 ou 3 momentos deixa-me sinceramente boquiaberto. Não sou fã de Queiroz, não lhe reconheço competências humanas, nem acho que seja o treinador de nível mundial que tanto se intitula mas, ao longo da carreira, o português adquiriu realmente competências tácticas e um calejamento de alta competição que, a juntar à sua ambição, sobretudo neste tipo de selecções, pode criar um cocktail acima da média. Nos últimos 6 jogos em campeonatos do Mundo, as suas equipas sofreram... 2 golos: um da Espanha campeã, outro dum extraterrestre. Vénia quando ele a merece. No cume, o episódio incontornável: que o penalty sobre Dejagah não tenha sido marcado é uma vergonha incompreensível. O Mundial parecia ter entrado nos eixos, mas que isto continue a acontecer sempre aos mesmos, num contexto tão limítrofe quanto titânico, é absolutamente devastador.

A Argentina há de estar a suar frio. A estreia com a Bósnia foi miserável, o jogo de Sábado também fala por si. Em ambos, 'o favorito com o melhor ataque' foi uma equipa atrofiada, com o nível estratégico de uma parede. A táctica argentina, por um dia mais, resumiu-se a duas palavras: Lionel Messi. Deu para ontem, deu para hoje, talvez dê para amanhã, mas é certo que chegará o dia em que os relâmpagos de génio do predestinado não poderão maquilhar um tamanho vazio técnico.


Alemanha 2-2 Gana

Há duas ideias centrais que me importam defender: a primeira é que o tropeção da Alemanha foi efectivamente uma grande surpresa. O empate, porém, não torna os homens de Low remotamente menos favoritos, nem lhes pode pôr em causa o que quer que seja. A Alemanha deu, até ver, a maior mostra de superioridade colectiva do Mundial, por piores que tenhamos sido; achar agora que a Mannschaft afinal não é assim tão boa é uma barbaridade. Tal como aconteceu à Holanda frente à Austrália, os níveis de competitividade ressentem-se sempre depois de tamanhas vitórias, sobretudo frente aos que estão identificados como maiores rivais do grupo.

Depois, é evidente o mérito do Gana, o que vai de encontro ao segundo tópico que queria defender. Ao contrário do que muita gente parece achar, por desconhecimento, calhou-nos um grupo tão duro como os da morte. O Gana que, no último Mundial, ficou a centímetros de ser a primeira selecção africana a jogar umas meias-finais, continua a ser, indiscutivelmente, a melhor esquadra do continente. É uma equipa bem orientada, com uma qualidade individual altíssima, agressiva e eminentemente atlética. A chocante derrota inaugural foi só, como tive oportunidade de então constatar, uma partida do destino. A exibição de Sábado, por seu turno, não sendo adquirida, dificilmente pode surpreender quem andasse de olhos abertos. O contexto era desfavorável mas, em vez de pesar, exponenciou-lhes a personalidade. O talento e a espantosa capacidade física fizeram o resto, frente a um adversário que, na minha opinião, também os subestimou. Neste momento, o Gana é claramente mais forte do que Portugal ainda que, em virtude do desastre de ontem, os tenhamos eliminado tanto como a nós próprios.


Nigéria 1-0 Bósnia

A eliminação da Bósnia, à segunda jornada, equivale-me a todos os maiores choques a que o Brasil já deu palco até agora. Teria apostado dinheiro em como os bósnios não só se qualificariam sem problemas, como iam impressionar e, quiçá, dar até uma dor de cabeça à Argentina. A crueza do desfecho, num dos dois grupos mais acessíveis da prova, condenou de forma mais seca tanto a falta de experiência, como a falta de... ambição. A Bósnia ultra-ofensiva, que nos fez vida difícil duas vezes nos últimos quatro anos, teria encontrado o seu espaço neste Mundial. O que vimos, porém, foi uma equipa assoberbada pelo medo de falhar e que, ironicamente, deu o passo para o abismo justamente por causa disso. Por discutível que isto soe, acho que o jogo-chave foi a estreia. Não pelo resultado, que era sempre expectável, mas exactamente pela postura. A Bósnia foi uma sombra triste do que mostrara em tempos e, alegadamente mais madura e resultadista, contentou-se a especular com o empate. Devia ter sabido que, no Mundial, mais do que em qualquer outra paragem, a sorte protege os audazes.

Na negra, uma Nigéria que é evidentemente inferior, mas que não tinha nada a perder, escalou esse drama existencial. Claro que há um golo mal anulado a Dzeko e há, ainda mais, aquela desoladora bola ao poste no último segundo, mas o essencial estava contado. A Bósnia não foi ambiciosa quando devia, e já não teve tempo quando o quis. Uma pena.

Curtas de um soco no estômago

 

1 - Estamos fora, mas é futebol e é melhor precisar de um milagre do que chegar eliminado ao último jogo. Não, não 'era melhor não ter ido', não, não 'era melhor já ter perdido'. Que se foda, mas vou pensar assim até morrer.

2 - É fácil dizer que foi falta de atitude, mas a boa vontade não ganha jogos. Caso contrário, as Honduras eram campeãs do mundo. A culpa é 200% nossa, mas não vi ali as 'vedetas do gel' a passear. Os problemas foram outros e bem mais complexos.

3 - A raiz foi a má preparação: não podíamos ter chegado ao Brasil de véspera, o que é uma irresponsabilidade da Federação, que preferiu ir fazer uns trocos a Boston; não podemos ter cinco lesionados em dois jogos, a menos que tenhamos pedreiros no lugar dos preparadores e dos fisioterapeutas; não podíamos ter achado que a forma física dos jogadores era um mal menor, o que é culpa integral de quem os avaliou e convocou aos 23. O resultado é ninguém ali ter pernas, tão pouco conseguir lidar com o clima e, portanto, 'controlarmos' os jogos como se estivéssemos nos distritais. Eles não se estão a cagar, só não têm um pulmão a mais. 

4 - O cheque-mate foi a total incompetência estratégica. Fosse qual fosse o estado dos jogadores, a Selecção #4 do ranking da FIFA tem de ter outra fiabilidade táctica. No desenho colectivo, e no que é estritamente da sua responsabilidade, Paulo Bento não usou a táctica nem para alavancar o talento, nem para esconder as fragilidades. Portugal tem um modelo, mas, no Brasil, nem por um momento teve uma estratégia. No plano individual, trocar a razão pela lealdade, e ter insistido ir a jogo com aquele meio-campo, foi grotesco. Que William Carvalho ainda só tenha jogado meia-parte, à força, e sido o melhor português, é uma tragédia.

5 - Confio na seriedade da equipa no último jogo, porque sempre respeitei a seriedade do seleccionador. É com a mesma honestidade de quem lhe reconheceu todo o mérito nas vitórias que digo, sem dramas nem exaltações, que é ele o responsável evidente pelo que acontecer no Brasil. Se for isto, então é um ciclo que tem de se fechar.

sábado, 21 de junho de 2014

Copa, dia 9: viver e morrer no Pacífico


Honduras 1-2 Equador

Foi um dos jogos mais primários e, quiçá, mais puros do Campeonato do Mundo. Frente a frente duas das equipas mais duras das Américas, ambas tão honestas quanto os seus 4-4-2 clássicos, largos e directos como nos velhos tempos. No fim ganhou o mais forte, mas é justo que ninguém vá ainda eliminado no grupo E. Ao contrário do que seria de esperar, Equador e Honduras ofereceram um espectáculo sempre agradável e cativante, temperado pelo tropicalismo tão próprio que os une.

Antes de mais, é justo elogiar as Honduras. Depois do primeiro jogo, ficou a imagem de que os homens do colombiano Luis Suárez dificilmente podiam ou quereriam jogar futebol. Se, realmente, a respeito do talento e do potencial não fomos induzidos em erro - os catrachos são mesmo uma das duas ou três equipas a quem menos se pode pedir -, agora que o ónus duma estreia com a França já passou, é incontornável salientar a sua compostura competitiva. Com as armas que tinham (força, verticalidade, vontade), as Honduras apostaram tudo no sonho que era ganhar este jogo e fizeram-no com uma atitude sinceramente positiva quando ao futebol jogado. O golo de Carlo Costly, o terceiro da História do país em Mundiais e o primeiro desde 1982, acabou por ser um prémio curto para quem mereceu estar a ganhar ao intervalo e acabar com, pelo menos, um ponto.

O Equador cumpriu a sua obrigação com competência. Depois duma estreia de muito bom nível, este era o jogo em que a tricolor sabia ter tudo a perder e, desde o início, as Honduras explicaram que iam vender cara a derrota. Talvez por esse ascendente adversário, talvez por não saberem mesmo controlar um jogo, os equatorianos foram ainda menos regrados do que no primeiro dia e deram-se a uma partida comprida de para e resposta, assente na velocidade das alas e num futebol quase sempre directo, confiando que bateriam o adversário na sua própria estratégia. Até podia ter corrido mal, mas a verdade é que estavam certos. No fim, o talento individual foi como o azeite e veio ao de cima. O Equador precisará de um pequeno milagre no último dia, mas só depende de si e a imagem que patenteou até agora no Brasil não poderá envergonhar ninguém.

EQUADOR - Aconteça o que acontecer, este já terá sido o Mundial de Enner Valencia. O avançado do Pachuca, do México, é a antítese da equipa e, por isso, o seu trunfo: ágil, hábil e invisível, num equipa de altos, duros e velozes. Estar a assinar 100% dos golos tricolores ajuda a perceber. Dominguez, nas redes, foi a cavilha que garantiu que aquela granada em forma de plano não lhes rebentava nas mãos: irredutível e decisivo. Num jogo menos rentável dos extremos, Paredes deu nas vistas. Muita vida na lateral-direita.

HONDURAS - Uma dupla de avançados à antiga, cujo estilo se tornou propício pelo curso do jogo. Costly mais raçudo e batalhador, na génese dos 9 americanos, e a marcar um golaço simbólico; Bengtson mais simples e vertical, a acertar no poste, fora o resto. Num onze que não é propriamente técnico ou metódico, Espinoza é instrumental no meio, a agarrar a equipa. Boniek Garcia, na ala direita, mesmo sem brilhar, pareceu o jogador de maiores recursos.

Copa, dia 9: napoleonicamente candidatos


Suíça 2-5 França

No dia em que a Itália perdeu, e em que a Inglaterra foi ajudar a Espanha a fazer as malas, pelo menos uma casa nobre do velho Continente resolveu deixar claras algumas coisas. A França de Deschamps saíra discreta do Polónia/Ucrânia. No grupo de qualificação para o Brasil, perdeu para a Espanha e só num autêntico milagre da Senhora de Lourdes sobreviveu ao play-off com a Ucrânia. Na 25ª hora, a equipa ainda viu partir o seu melhor jogador e isto já depois de ter ostracizado o seu segundo mais mediático. A França que chegou ao Mundial era, se tanto, um ponto de interrogação. A estreia foi doce mas, claro, não se tiram ilações das Honduras. Hoje era, porventura, o dia mais importante do reinado do capitão de 98, perante um dos mais cotados outsiders da prova, uma equipa talentosa e competente. Hoje, dificilmente a demonstração de força francesa poderia ter sido mais brutal.

Em relação ao primeiro jogo, caíram Pogba e Griezmann, com a França a surgir, no papel, num 4-3-3 onde cabiam dois pontas-de-lança. Na prática, foi mais do que isso. A equipa viria a apresentar-se espantosamente metamórfica, com Benzema e Giroud a alterarem a ala-esquerda, em transição, e Valbuena a derivar para as costas de ambos, em construção. Já não me lembro se houve um aviso; só sei que, quando começou, foi como se o Inferno se tivesse aberto sob os Alpes. O volume de futebol ofensivo da França foi surreal, a elegância, a rapidez e o critério do seu jogo absolutamente deslumbrantes. A Suíça, tão geneticamente equilibrada, foi destroçada em jogadas de compulsiva e quase incompreensível inferioridade numérica atrás, como se a França soubesse todos os seus segredos, vagas atrás de vagas que ameaçaram que o placard se tornasse grotesco (16 remates à baliza, um penalty falhado, uma bola na trave, um golo mal anulado...). Benzema fez um dos melhores jogos da carreira em todo o último terço do campo, Valbuena foi desconcertante entre linhas e, se puxava ao físico, estavam Giroud, Matuidi ou Sissoko. Os franceses são uma máquina de contra-golpe impressionante, uma víbora azul que se desdobra em dois toques, que te serpenteia num golpe de rins e que atira sempre, sempre para matar. Se haviam dúvidas, pois elas já não existem: a França é, com todos os galões e com toda a autoridade, uma autêntica candidata ao título.

Os gauleses bateram uma equipa muito boa, que leram bem e desmontaram melhor, mas a Suíça fez uma figura muito pobre. Era um conjunto em que eu apostava muito, especialmente depois do nível com que se estreou e, apesar deste ser sempre um caso de mérito do vencedor, a verdade é que os homens de Hitzfeld não estiveram à altura. O jogo é marcado pelo duplo golo assassino, que o implode completamente, mas parece-me que os próprios suíços terão subestimado o adversário, acreditando que tinham tudo para causar-lhe impacto e condicioná-lo. Faltou, todavia, nervo, concentração, agressividade e intensidade. O 1-0 é uma bola parada, o 2-0 uma perda infantil. O melhor período helvético viria depois, mas a exposição que escancarou o terceiro da França (e já antes o penalty) tornou tudo uma questão de tempo. O mais provável é que baste à Suíça um empate para qualificar-se, mas o mais importante é que os suíços entendam que o sucesso só pode chegar no fim da inocência.

FRANÇA - Benzema. Foi um manual em directo, de cada vez que entrava desde a esquerda, de cada vez que baixava para receber e enquadrar, um vórtice de todo o génio francês no meio-campo adversário. Fez duas assistências dignas de um trequartista e, até ver, marcou moralmente cinco golos no torneio. Está a ser um prodígio na relva canarinha. Valbuena é o herói improvável. Fossem as coisas lineares e o pequenino marselhês seria suplente. Deschamps, porém, confiou-lhe a batuta da equipa e hoje não poderia estar mais realizado. Da ala para o meio, com uma bola curta irresistível, Valbuena parece duma dimensão à parte, viajando entre linhas para perverter tudo o que o adversário acha que sabe. Um joker. Matuidi é, definitivamente, o médio-chave da equipa. À disponibilidade bestial alia uma óptima chegada, num expresso que deve com certeza deixar os carris marcados em toda a meia-esquerda. Giroud foi igualmente instrumental e deve ter ganho a titularidade para parear Benzema no seu jogo de sombras.

SUÍÇA - Não necessariamente pelos golos, mas foram eles os melhores: Granit Xhaka, hoje um #10 a viver na ala, foi o único a encarar o jogo desde que tudo ia mal; Dzemaili entrou a ferver para o miolo e demonstrou a raça de que a equipa tanto precisava. Foi dele o primeiro livre directo do Mundial.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Copa, dia 8: 'de qué planeta viniste...'


'...para dejar en el camino a tanto inglés?'
 
Uruguai 2-1 Inglaterra

Espero que já toda a gente tenha ouvido esta frase pelo menos uma vez na vida. Foi dita há 28 anos por um senhor chamado Victor Hugo Morales. O calendário marcava 22 de Junho de 1986 e a maioria saberá que ela emoldura a ouro o golo do Século, ainda que os mais religiosos tenham de explicar que se trata de algo mais: o que ela descreve é a descida de Deus à Terra. Hoje, em São Paulo, o que aconteceu não é evidentemente comparável a essa tarde mística na relva do Azteca, como não é nenhuma obra humana que tenha acontecido antes ou depois. Mas que melhor sítio para lembrá-la se não um Campeonato do Mundo, no dia em que um sul-americano louco e genial voltou a arrancar o coração inglês com as próprias mãos?

O Mundial tem sido verdadeiramente espantoso. Não há um único dia que não tenha oferecido um jogo bestial, seja qual for o domínio em que o jogo é bestial: talento, estratégia, carácter, sorte, emoção. Pela mera amostra desta primeira semana, o Brasil 2014 deixará uma conta de jogos memoráveis que não sei se tão cedo se poderá pagar. No entanto, ao 8º dia, digo, com a formalidade necessária, que nenhum bateu o Uruguai-Inglaterra. Que não foi o mais chocante, nem o mais exuberante, mas cujo alcance mental não tem simplesmente comparação. A atmosfera do jogo foi tão grandiosa como uma batalha. Dois campeões do mundo frente a frente, ambos acossados, ambos forçados ao limite para salvarem a própria vida. O medo respirava-se no ar, a tensão sentia-se na cara e a electricidade insuportável tornava todos os lances decisivos em algo muito mais dramático do que isso. Um jogo, por ironia, menos imprevisível do que parece. É que, no íntimo, sabemos sempre se estamos ou não à altura. Com idiossincrasias tão díspares como as de um Uruguai-Inglaterra, porém, também podíamos desconfiar.

Conta a lenda que, antes da final de '50, que o Uruguai jogaria no Brasil, frente à equipa da casa e a 200 mil canarinhos, o capitão charrúa, Obdulio Varela, dirigiu-se aos companheiros e, numa frase, sintetizou o ADN de um país: 'só há uma forma de ganhar, é termos os colhões na ponta das botas'. O Uruguai é isto. A Inglaterra, sabemos bem, é outra coisa. É a derrota com menos de romântico e mais de perdedor. É a equipa que, em trezentos desempates por penalidades, perdeu todos, a equipa dos Três Leões, se eles forem o abismo, o azar e as vitórias morais. Ainda assim, chegavam ambos a este jogo com estados de espírito diferentes, apesar das derrotas iguais: o Uruguai estreara-se humilhado, a Inglaterra, claro, caíra de pé. Honra lhes seja feita, começou como sempre, com os ingleses a liderarem a carga, numa projecção heróica muito própria. E lideraram-na sempre, na ilusão da madrugada do jogo, depois do primeiro golpe e quando o tempo já fugia por entre os dedos. Rooney já falhara golos de todas as maneiras, quando, para extâse geral, marcou finalmente o primeiro da carreira em Mundiais. A Inglaterra voltava ao jogo, a Inglaterra ia virar a sorte. Seria possível? Não, era só um prenúncio de morte. A tragédia seria, afinal, ainda mais cruel.

Qualquer vitória uruguaia é uma vitória do carácter. Daquele que os faz ganhar o último metro, roubar o último segundo, transcender as suas circunstâncias e fazer o próprio destino. Poucos terão acreditado que a redenção ainda fosse possível, depois da hecatombe inicial, com a estrela amarrada ao banco e a uma lesão, e perante um adversário vaidoso, jovem, sofisticado. A verdade é que não podia haver melhor cenário. O caos é o prato celeste favorito e o limbo o seu melhor restaurante. Qualquer vitória uruguaia é uma vitória do carácter. Quando o seu depositário é um predestinado, então mais vale pagar bilhete e deslumbrar-se com o espectáculo. Luís Suárez teve um pé fora do Campeonato do Mundo, depois de uma época que o podia levar a disputar a Bola de Ouro. Era impossível ter a certeza em que condição surgiria hoje, logo com a equipa num estado cumular de desespero. A sua exibição, bigger than life, será lembrada para sempre. Ali, semi-lesionado e sem segundas chances, no contexto e no palco mais radicais de todos, Suárez foi o melhor ponta-de-lança do universo que conhecemos. Inspirou os companheiros, liderou-os, tornou-os a todos melhores e fez o que mais nenhum podia fazer, numa demonstração inacreditável de génio, coragem e carácter. Poucos se podem alguma vez dar ao luxo de escrever tamanho capítulo sobre o que é estar à altura das expectativas.

Ao Uruguai ainda falta o pior adversário, à Inglaterra ainda sobra um milagre, mas acho que todos sabemos como é que isto vai acabar. Querem apostar?

URUGUAI - Cavani foi instrumental em ambos os golos. Saiu da orfandade e está reeditada uma das duplas idílicas da Copa. Arévalo foi determinante a ancorar o meio-campo e Lodeiro, a atacar por dentro, aproxima a equipa da sua matriz.

INGLATERRA - O milagre ainda é matemático e mais vale não subestimar o futebol, mas o Mundial foi demasiado ingrato, como sempre. A Inglaterra é das selecções com maior margem de progressão nos próximos anos, resta saber se também descobrirá um exorcista, até porque o talento nunca foi o problema. Rooney está condenado a ser o bode expiatório, mas ninguém tentou mais do que ele, ainda que as três perdidas sejam demasiado amargas. Johnson e Baines, nas laterais, foram os extremos que a equipa não teve. Sturridge, por fim, já é certamente um dos melhores #9 europeus.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Copa, dia 8: só faltas tu, Radamel


Colômbia 2-1 Costa do Marfim

Ainda não tinha visto nenhuma das equipas em jogo e começou por parecer um dia mau para o fazer. Colômbia e Costa do Marfim cumpriram na estreia o estatuto de mais fortes do grupo D e, durante uma primeira-parte abrasiva à uma da tarde, pareceram ambas atadas a um armistício qualquer, num respeito mútuo que sugeria mais valer adiar tudo para as presas da última jornada. Isso só viria a mudar nos meados da hora de jogo, quando os colombianos esbarraram no óbvio: eram eles, indiscutivelmente, a melhor equipa em campo.

A Colômbia é qualidade por toda a parte. Dedicara-se a insinuar isso praticamente desde o início, mas nunca forçara; quando finalmente se deu ao jogo, patrocinou uma autêntica inundação de talento. Com a dramática ausência de Falcão, a equipa abdicou da dupla de avançados da qualificação e apresenta-se hoje num sustentado e, porventura, mais adequado 4-2-3-1. Os cafeteros têm soluções para todos os momentos do jogo. Em construção, podem contar com o génio de James e Quintero para inventarem espaço dentro de cabines telefónicas. Em transição, conseguem ser ainda mais assustadores, mercê de um porte explosivo excepcional, cujo maior de todos os intérpretes é o apaixonante e imparável Juan Cuadrado. Tanto numa como noutra estratégia contam com laterais motorizados, omnipresentes na possibilidade de rasgarem o jogo. Sendo muito intensa, a Colômbia é, contudo, uma equipa que não se desequilibra com facilidade. No zénite, é dos onzes mais impressionantes do Mundial até agora e, no meio-campo adversário, só tem par com Alemanha e Holanda. Assim que abriu a sua caixa de Pandora, o jogo acabou e, apesar do adversário capaz, a proximidade do resultado final é enganosa. O único vazio... é mesmo um ponta-de-lança. Que Falcão não possa ser a jóia desta coroa é uma tragédia por todos os tempos.

A Costa do Marfim continua a ser favorita à passagem. Esta é a última oportunidade da geração de ouro dos Elefantes qualificar-se para uma segunda fase e acredito que será desta, mesmo que o fulgor já não seja o de outros tempos. Ainda assim, há recursos suficientes, tanto mais em relação ao adversário final, e a equipa parece-me bastante lúcida. As justificadas ausências de Drogba e Kalou demonstram, desde logo, rectidão e bom julgamento, e isso é um bom começo. Claro que, tantas vezes, a Grécia é como a morte que nos vem buscar, mas os marfinenses podiam estar pior preparados para essa esfíngica tarefa. Consciente dos préstimos sul-americanos, a equipa especulou com o jogo enquanto pôde. O pacto de não-agressão, a ter vingado, seria a estratégia perfeita. O jogo, porém, foi mais cru do que isso. Lamouchi tinha acabado de substituir Bony quando James fez o 1-0 e essa foi uma condicionante demasiado infeliz para quem é forçado a ter, então, de ir discutir o jogo. Gervinho, sempre o melhor, ainda reduziu num lance brilhante, mas o desfecho foi o único que fazia sentido. Esperemos que, no fim das contas, os apurados também façam.

COLÔMBIA - Por onde começar? O mais impressionante foi Juan Cuadrado. O extremo da Fiorentina teve uma época gorda na Serie A e não é à toa que tem sido tão associado ao Barcelona. É um desequilibrador bestial e é impossível roubar-lhe a bola, seja em toque, seja em explosão. É ficar a vê-lo ir. Pelo critério falam as 3 assistências em 2 jogos. Um abuso e talvez a grande revelação da prova até agora. James não fica atrás. Convertido a estrela da equipa, não é tão exuberante, mas é tanto mais sábio. As suas botas continuam a derramar diamantes e a dar novos mundos ao mundo da equipa, e ainda por cima tem somado golos. À entrada do pequenino Quintero ficou associada a pujança da equipa. O Porto deu um ano duro a todos os reforços, mas o criativo azul não engana. Assombroso com a bola colada ao chão, podia até ter bisado com um golo olímpico. Talvez chegue o dia em que Zuniga e Armero sejam a traição da equipa, mas a febre ofensiva dos laterais colombianos é um regalo e, não raras vezes, um transbordo que engole os adversários. Finalmente, Mario Yepes. Aos 38 anos, o capitão pôde jogar o seu primeiro Mundial e continua a ter classe para dar e vender. Com o seu ar de pirata, não só lidera a linha como se dedica a meter técnica em cada corte. Uma referência. Nota negativa para Téo Gutiérrez: com Jackson e Bacca no banco é impensável que seja ele o ponta-de-lança duma armada deste tamanho.

COSTA DO MARFIM - Acho que está para chegar uma grande competição internacional em que Gervinho não seja o mais determinante jogador da equipa. O extremo da Roma é muitas vezes um alvo fácil, e muitas vezes é hábil e trapalhão na mesma medida, mas a sua rentabilidade é inquestionável. Rápido, fantasista e finalizador está sempre ligado ao jogo. Que golão o de hoje. Serge Aurier foi a outra referência. O lateral-direito do Toulouse, de apenas 21 anos, já tinha dado que falar na estreia e continua a justificar créditos como os que o associam ao Arsenal. Força, técnica e um bem em extinção: cruzamentos com açúcar. Na mó de baixo, note-se o pouco impacto dos pontas-de-lança e, acima de tudo, a diminuta influência de Yaya Touré no futebol da equipa. O melhor médio centro do mundo não esteve sequer nos arredores de Brasília.

Copa, dia 7: eram imortais, só não podiam viver para sempre


Espanha 0-2 Chile

Lembro-me que, na final do último Europeu, fechei o meu texto com a única epígrafe que me pareceu suficiente. Essa crónica chamou-se 'A equipa que vimos jogar'. Hoje, dia em que esse livro se fechou, é o melhor para afirmar que não sei se algum dia voltaremos a presenciar um fenómeno como a era Espanhola. Como em tudo o que é suficientemente marcante, não está em causa só o que se ganhou, e este é um dos casos em que as evidências a esse nível falariam estritamente por si; o cerne, porém, é verdadeiramente a forma como se fez. A Espanha foi a equipa que nunca tínhamos visto. Uma conspiração alienígena qualquer que reinventou o jogo às suas regras próprias e que, durante anos a fio, nunca teve realmente um adversário. Isto é uma hipérbole por definição, mas a Espanha era a hipérbole por definição. A equipa que não perdia nada, nem sequer a bola. Às vezes tinha um dia mau, às vezes tinha azar mas, em circunstâncias normais, e na maior parte das outras, acabava tudo da mesma maneira. 1 Mundial, 2 Europeus, dezenas de vitórias, centenas de posses de bolas, a experiência competitivo-estilística mais desafiante da História, e isso estão condenados a reconhecer tanto os aprendizes da filosofia como os mais entusiastas dissonantes. A Espanha foi fascinante para quem gostou de ver, para quem não a suportou e para quem nunca a pôde parar. Fascinante naquela vertigem impossível da inevitabilidade da vitória que a tornou no mais único de todos os rivais. Estou à vontade para falar, porque não houve um jogo em que eu tivesse querido pela Roja. Não houve um dia em que aquele bailado me tivesse seduzido, nem um torneio onde eu não tivesse torcido por melhores futebóis. É, por isso, com todo o desprendimento que hoje digo que nunca existiu e nunca existirá maior adversário.

Daqui em diante vão-se duplicar argumentos, triplicar razões e ver revelados todos os dogmas do mundo sobre a diferença entre o sucesso e o fracasso espanhol. Que nos últimos dois anos era evidente o atrofio do Barça, a Meca onde tudo isto começou. Que Del Bosque resistiu à renovação geracional e levou todos os velhos que pôde. Que quem já ganhou tudo acomodou-se, perdeu a fome. Que não havia plano B, que lhes faltou seriedade ou que os adversários descobriram a poção mágica. Talvez tenha sido um pouco de tudo, talvez os prognósticos estejam sempre certos no fim do jogo. Da minha parte, digo em consciência que não há nada técnico nem nada táctico que pudesse realmente antecipar um fim deste tamanho e que, portanto, é desonesto crucificar seja o que for. De facto, algo falhou. De facto, já todos haviam ganho tudo, mas alguém pode jogar um Mundial e não querer saber? Mais, se não confiar em quem já ganhou tudo, já lhes ganhou tudo, então em quem? Cabeças rolarão, é certo, porque é disso que a vida se faz. Rolarão por linhas tortas, mas rolarão bem, ceifadas nesse inelutável teste que é o tempo. Por mim, apenas lembrarei o que aconteceu no Brasil como um fim muito grande, para quem foi muito maior do que isso. Um fim orgânico, natural, um ciclo de vida quando a vida achou que era a hora, porque nada pode viver para sempre. Nem um Império. Duvido que os próprios espanhóis lho dêem, mas esta equipa merecia o respeito dum luto desses. Limpo.

Sobre o jogo, resta pouco a dizer, tão maiores foram as suas consequências e tão distantes estiveram ambas as equipas. Só havia duas opções no Espanha-Chile: ou a Campeã se impunha, e sobrevivia à força, ou seria perfeitamente obliterada. Acreditei honestamente que não era desta, que a sorte podia estar traçada mas que ainda teriam de ser os maiores a vir provar se eram bons o suficiente. O Chile, no entanto, encarregou-se de demonstrar que era grande que chegue. Os homens de Sampaoli, a quem se antecipavam tantas coisas mas que haviam sido modestos na estreia, não tremeram nem por um segundo. Subiram ao Maracanã como predadores inebriados com o cheiro a sangue e, hoje sim, na consumação inteira do que vale o ADN da equipa, deixaram a Espanha em pedaços. A sua agressividade sobre a bola, a ultra-velocidade das suas transições e a filosofia suicida com que praticamente todos atacam ao mesmo tempo foi um furacão perante o qual, percebemos cedo, a Roja não detinha qualquer chance. O 1-0 é uma mistura cósmica de fôlego, técnica e velocidade da luz, perante algo comparável a uma Internet Explorer das defesas. Hoje, nenhum teria sido pior adversário do que o Chile.

Na segunda-parte, quando o jogo já tinha positivamente acabado, ainda pareceu tudo mais agreste. A Espanha foi desoladora. Um gigante derrubado sem poder contar com a misericórdia do cronómetro, de joelhos sem poder sequer arranhar o adversário, no meio do seu castelo a arder, do seu próprio Maracanazo. Uma das imagens do Brasil será Iniesta sozinho entre três e quatro chilenos durante aquela segunda-parte inacabável, the last man standing, como nos filmes, queimado e ferido, com mortos e desistentes à sua volta, por uma vez humano, por uma vez menor do que o seu destino. A Espanha acabou em grande, porque só podia ser assim, como o resto. Eu, como tantos outros, brindei à queda. No fundo, não conheço forma mais honesta de honrar um verdadeiro adversário.

Copa, dia 7: oficiais e cavalheiros

 

Austrália 2-3 Holanda

Um gajo às vezes questiona-se do saudável que é andar a ver compulsivamente três jogos por dia mas, graças ao Redentor, tem havido no Brasil sempre uma Austrália para provar que estamos certos. A segunda semana começou como acabou a primeira: com mais uma maravilha de espectáculo, talento, carácter, emoção e duas reviravoltas. No fim, vingou a lei do mais forte e começaram a separar-se as águas mas, mesmo que saiam do Brasil sem um único ponto, os socceroos já provaram o mais importante: que quando se quer jogar, não interessam as limitações; que quando se quer jogar, merece-se sempre lá estar.

O que aconteceu na primeira hora de jogo será unanimemente atribuído à falta de agressividade e de concentração, e a uma certa sobranceria holandesa, derivada do estapafúrdio resultado inaugural. De facto, os holandeses não tiveram metade da electricidade da estreia e isso valeu-lhes um jogo nas covas, a grande distância do anterior, mas a questão não se resume a esse problema de atitude. A verdade é que a Laranja não é uma equipa suficientemente intensa em posse, sendo, antes de qualquer outra coisa, reactiva. Para além disso, por maior que seja a qualidade ofensiva, o 5-1 à Espanha não emenda por magia o rácio mais discutível das outras posições. Contra uma Austrália muito rija, muito bem organizada e muita disposta, a equipa de Van Gaal não pôde contra-atacar, como tanto gosta, tendo em vez de assumir o jogo. O que isso lhe custou ficou patente e é uma dica importante para os futuros adversários. A Holanda pressiona pouco e vegeta num ritmo mais baixo de jogo. A sua sorte transformar-se-ia por uma ironia do destino. Em cima do intervalo, Cahill lesionou Indi, Van Gaal teve de abdicar do sistema - passou de 3-5-2 para 4-3-3 -, e a potência de Depay na ala esquerda veio a revelar-se determinante. No resto, toda a gente sabe o que aqueles avançados fazem num dia normal.

A Austrália é das equipas pelas quais mais estima vou ter sentido no Brasil. O nível individual é tão baixo que é perfeitamente incrível o que os aussies fizeram suar Chile e Holanda, que, a nível de talento, pertencem ambos a outro sistema solar. Arrumada num simpático 4-2-3-1, a equipa de Ange Postecoglou faz-se valer de um entusiasmo inatacável para render em todos os minutos de jogo, a defender, onde tem de fazer das tripas coração, e a atacar, onde tem... Cahill. Ali só mora verdadeiramente um craque: aos 34 anos, o eterno Tim despediu-se hoje do futebol internacional com aquele chutão de outro mundo e esse dvd será para sempre a modesta homenagem à imensidão de carácter que os australianos emprestaram aos gramados brasileiros. Não estava sinceramente à espera de tamanha demonstração, mas só é um choque para quem não viu o jogo com o Chile. Então, como agora, os australianos discutiram o jogo como gente grande e, durante longos e ingratos minutos, dedicaram-se a espreitar o golo do caos... mas não estava escrito. Resta recordar todo o carácter e reviver aqueles cinco minutos de euforia global, depois do penalty de Jedinak, neste que também é o Mundial da terceira Revolução Tecnológica, do imediatismo e dos memes.

HOLANDA - Robben e Van Persie, pelo óbvio que é não pararem de marcar. Van Gaal pode ter inventado no Brasil uma dupla histórica. Com 20 anos ainda frescos, Memphis Depay, extremo do PSV, foi o trunfo da equipa. Só ao transformar o sistema que tão espectacular conta de si dera na estreia é que a Holanda levou a melhor. Por outro lado, o jogo deficitário do miolo deve preocupar Van Gaal.

AUSTRÁLIA - No Brasil, para poucos jogadores significaria tanto dizer que estiveram à altura das circunstâncias. No último jogo internacional da carreira, e depois de já ter ferido o Chile, Tim Cahill marcou um top10 do Mundial. É o único australiano a ter marcado em três Campeonatos do Mundo e são dele, aliás, metade de todos os golos do país em fases finais. Uma lenda. Outro dos antigos, Mark Bresciano foi importante enquanto esteve em campo, nas costas do avançado. A maior revelação do dia foi, porém, Mathew Leckie. O extremo-direito de 23 anos, que anda pela segunda divisão alemã, demonstrou rins, passada e autoridade no flanco e foi a maior quebra no casco laranja, o municiador por excelência do ataque.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Copa, dia 6: o Cristo é mexicano, o Brasil não é brasileiro

 

Brasil 0-0 México

A estreia já tinha avisado, ontem confirmou-se. Este Brasil tem em mãos um problema delicado e dificilmente poderá resolvê-lo com tempo ou engenho estando o comboio em andamento. O contexto fará a Canarinha favorita todos os dias em que entrar em campo, mas agora que baixou a poeira da estreia, e que já se findaram dois jogos, é impossível ignorar o essencial. A equipa discerne um único mérito: Neymar.

O futebol do Brasil começa, vive e acaba no #10, exclusivamente. Não há ali mais nada, nem mais nada foi trabalhado. O duplo-pivot não funciona, a ala direita é uma lástima e os pontas-de-lança dão vontade de chorar. Óscar está perdido a anos-luz do que pode fazer e, quanto muito, às vezes dão-se uns espasmos de vida nas laterais. O Brasil não tem dinâmicas colectivas, criatividade ou capacidades visíveis na construção continuada. É um bloco mais ou menos sisudo que reza todos os minutos do jogo pelos baldes de cor que Neymar lhe derrama, não raras vezes em modo desenhos animados, a correr 50 metros e a tentar passar por 5 ou 6 adversários. O facto do menino de Santos ser efectivamente genial é o único factor que perverte esta análise. Apenas e só graças a ele o Brasil podia realmente ter ganho ontem. Calhou que, do outro lado, o universo decidiu equilibrar as coisas.

Guillermo Ochoa fez, indiscutivelmente, a melhor exibição individual do Campeonato do Mundo. O guardião azteca fez o jogo da sua vida, defendendo tudo e de todas as formas - reflexos, instinto, saída, à queima-roupa -, defesa do torneio incluída - a Neymar, como é evidente -, e garantiu com chave de ouro um ponto profundamente simbólico para a sua equipa. Engane-se, contudo, quem acha que isso conta a história do jogo. De facto, foi graças a ele que tudo acabou a zeros, mas durante o seu festival existiu uma enorme equipa. Não sei se os resumos farão jus ao jogo do México, mas os comandados de Miguel Herrera fizeram uma exibição quase perfeita, estancando as intenções brasileiras em tudo o que estava humanamente ao seu alcance. O seu 3-5-2 pareceu concebido digitalmente, tão orgânica foi a ocupação dos espaços, ao ponto dos mexicanos parecerem quase sempre ter mais jogadores em campo. Sempre na raça e sempre a jogar positivo, a equipa jamais abdicou da partida e, mesmo nas alturas de extremo sufoco, manteve Júlio César em cheque (13 remates!, mesmo com a opção a recair na meia distância). O trio de centrais foi irrepreensível, o triângulo do miolo encheu verdadeiramente o campo.

Apesar do 0-0, o jogo foi intenso, talentoso, tacticamente elevado e emocionante. Depois da grande estreia, o México confirmou todos os seus enormes predicados: é favorito à passagem e ao coração dos adeptos. Ao Brasil, destinado a outras lutas, resta acreditar numa alucinação mais radical: a de que Neymar pode ganhar isto sozinho.

MÉXICO - De facto, há poucas palavras para resumir a exibição de Ochoa. A antiga lenda do Football Manager nem tinha a titularidade assegurada, mas fez ontem o jogo que lembrará por toda a vida. Um monumento do tamanho do Cristo. Atrás, Mazza Rodríguez continua a ser o mais poderoso dum sector que praticamente não errou. Numa equipa cuja imagem de marca é explanar-se no campo todo, ontem a virtude esteve no meio: Vázquez no vértice recuado, Herrera na direita, Guardado na esquerda. Um poço nuclear que sabotou o Brasil, a comer metros, a ganhar bolas e a visar o alvo. Cada um deles terá tido, pelo menos, dois grandes remates.

BRASIL - Um pouco de Dani Alves, de Júlio César, de Thiago Silva e de Luiz Gustavo, o que traduz a evidência do que o México soube fazer. Mas, no essencial, já expliquei: Neymar da Silva Santos Júnior é o primeiro, o segundo e o terceiro melhor jogador do Brasil.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Copa, dia 6: a montanha ia parindo um rato


Bélgica 2-1 Argélia

As expectativas para a Bélgica eram tão salientes que dispensariam quaisquer apresentações. No desflorar da sua segunda geração de ouro, os belgas eram, grosso modo, a equipa pela qual toda a gente esperava no Brasil. Alheada de uma grande competição internacional há doze anos, desde a África do Sul que a produção futebolística do país se assemelhara a uma Revolução Industrial. Nos últimos anos, os melhores campeonatos da Europa encheram-se autenticamente de flamengos, com a Premier League a servir de palco maior e a colocar o mediatismo em níveis estratosféricos: a Bélgica foi nada mais, nada menos, do que o 5º favorito nas apostas para o Mundial.

À partida, qualquer pessoa minimamente avisada conseguiria ler a perniciosidade deste cenário. Muita gente jovem, muita pressão, pouco calo. A Bélgica era a proposta que não podíamos recusar, mas o caminho seria sempre uma enorme armadilha. Ao intervalo do jogo com Argélia, já não perceber isso melhor. Perante uma autêntica companhia de autocarros, a primeira-parte foi um gigantesco nada, onde tudo correu mal. Sem criatividade, capacidade de construção, velocidade, força ou desequilíbrio, os belgas pareciam tão somente uma recriação moderna do Êxodo, a estarrecerem num calor bíblico, enquanto esperavam que o mar argelino se pudesse abrir miraculosamente aos seus pés. Como se não bastasse, claro, a Argélia até já estava a ganhar. Não me perguntem como.

Nos balneários é certo que não houve qualquer reanimação cardiopulmonar, porque o primeiro quarto de hora da segunda parte foi só mais do mesmo. A Bélgica parecia honestamente condenada. Honra lhe seja feita, o maior artífice da vitória terá sido o treinador: Marc Wilmots nunca se conformou. À passagem da hora de jogo já fizera as três substituições, sacrificando, entre outros, Lukaku. Não aconteceria nenhuma transformação divina até ao fim e a Bélgica nunca jogou o suficiente, mas essa energia contagiou o grupo, ao ponto de todos os três suplentes terem sido determinantes. A isso não será estranho, claro, o facto do banco da Bélgica ser um candidato à qualificação, caso existissem equipas B. Ironia das ironias, o catenaccio argelino acabaria traído a dez minutos do fim, na única de todas as vezes em que se expôs ao contra-ataque adversário.

A Bélgica saiu viva mas jamais poderá dormir descansada. E se acha a Argélia intratável, a seguir vem a Rússia de Capello...

BÉLGICA - Fellaini é indissociável da vitória. Entrou para jogar ao melhor estilo dos bons velhos tempos de Everton, como segundo ponta-de-lança, e dizimou o adversário, decidindo a sorte do jogo. Foi o melhor em campo e merecia o segundo golo. Era sobre Hazzard que recairia todo o onús da desilusão, mas o jogo fez-lhe justiça. Eddie nunca se escondeu do jogo e a assistência primordial para o 2-1 lembrará isso mesmo. Mertens e Origi entraram muito bem e também foram essenciais, no que é o epíteto de um verdadeiro banco de luxo.

ARGÉLIA - Assumidamente uma das selecções mais fracas no Brasil, se teve o sonho na ponta dos dedos, deve-o essencialmente à marcial disciplina defensiva. O guardião M'Bolhi foi a figura, numa sucessão de golpes de rins que pareceram realmente ir desterrar o proeminente adversário. Numa equipa onde honestamente é impossível vislumbrar uma ideia de jogo, destacar ainda o lateral-esquerdo Ghoulam, do Nápoles, provavelmente o mais esclarecido da equipa... e o seu melhor intérprete ofensivo.

Copa, dia 5: o futebol perdeu nos descontos


Gana 1-2 Estados Unidos

É, por si só, um dos resultados mais honestamente surpreendentes do Brasil até agora, tendo em conta a disparidade de recursos de ambas as equipas. O grupo G fez questão de apresentar-se caótico às lides do torneio e, depois da catástrofe lusa à hora de almoço, foi a vez de, pela noite, serem os ganeses a não poderem acreditar na sua própria sorte. Quem não viu, pode sempre especular sobre que o Gana fez feio ou que os Estados Unidos estavam mais ou menos deflacionados. Mas nada disso. Os africanos são e foram infinitamente melhores e a má fortuna do seu curso de carga ofensiva chegou-nos a deixar desolados. Quando, uma eternidade depois da equipa ter-se retirado daquela área, John Brooks cabeceou uma granada caída do céu para o coração inimigo, acho que nos sentimos todos vagamente melancólicos. Porque o empate servia tão bem a Portugal mas, sobretudo, porque o jogo não merecia tamanha desfeita.

A equipa de Jurgen Klinsmann até entrou no jogo... 'à americana'. Clint Dempsey acordou para o Brasil 2014 com um golaço, o quinto mais rápido da História dos Mundiais, e deixou o Gana vagamente dormente pelos 20 minutos seguintes. Foi nessa fase que o jogo nos mentiu. Os Estados Unidos, a espaços no losango instituído pelo alemão, pareciam prometer alguma coisa, nomeadamente naquilo que parecia ser um desdobramento competente para o ataque, essencialmente via ala direita. Modestos mas frescos e equilibrados, os Estados Unidos tiveram a infelicidade de perder dois lesionados na primeira-parte (Altidore com impacto evidente no jogo da equipa) e, até ao intervalo, prolongariam essa ilusão de mérito. Depois, foi impossível, quer prolongar a miragem, quer sair do próprio meio-campo.

O Gana, em boa verdade, já antes disso estava a fazer pela vida. Com Atsu em destaque, Gyan demorou um pouco a entrar no jogo, até lembrar-nos que continua a ser um dos melhores pontas-de-lança africanos. Quando começou a crescer, o onze ganês não mais parou e, por meados da segunda-parte, o desfilar de ases e de oportunidades era pouco menos do que impressionante. Os irmãos Ayew, Muntari, Kwadwo e uma enorme entrada de Prince Boateng imprimiram ao jogo um sentido único, que só persistiu vazio com ares de tragédia. Quando André Ayew finalmente empata, numa grande jogada, honestamente só aparentava haver um fim possível para os últimos dez minutos. O espirro americano que havia de surgir não foi um balde de água fria, foi um contentor. O futebol foi demasiado ingrato para o Gana.

GANA - Nunca vou perceber como é que, depois do excepcional Mundial da África do Sul, e ao 25 anos, Asamoah Gyan decidiu abandonar a Europa e emigrar para os Emirados Árabes Unidos. Três anos depois do desterro, o que continuamos a ver é um dos melhores pontas-de-lança do continente africano. Ágil, intenso, instintivo, falhou ingratamente o golo, mas deu outro de calcanhar. Sempre um craque. Com Essien no banco, coube a Sulley Muntari liderar o miolo e o experimentado médio do Milan está óptimo, à beira dos 30 anos. Foi subindo no campo com o decorrer do jogo e ainda se lembra como é descer pela interior-esquerda, como nos tempos do Inter. Grande pé esquerdo, grande atleta. Atsu impressionou ao sentar Boateng no banco, e, em posições muito mais interiores do que no Porto, ganhou pontos. Prince Boateng entraria de qualquer maneira para provar o essencial: tem de jogar.

ESTADOS UNIDOS - O golo de Dempsey é de uma liga à parte. No resto, quem mais impressionou foi Kyle Beckerman. Exuberante no penteado, o trinco das rastas também não deixa por mãos alheias os créditos na relva. Esteve rigorosamente em todo o lado e a equipa bem lhe pode agradecer o milagre. Na direita, Alejandro Bedoya deixou boas sensações. É um ala elegante com bola. O grande Tim Howard também disse presente.