segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mud. Cinema em estado puro


Acredito que o verdadeiro cinema é intemporal. Não depende de técnicas, fases e nunca tem de ser visto em contexto. O grande cinema nunca passa de moda porque emana do seu elemento nuclear: a história. Com uma verdadeira história, um filme não precisa de efeitos, de thrill, de surpresa, nem de dominar o mundo. Até um filme gloriosamente simples pode ser um clássico perfeito. Em 2013, Mud é, provavelmente, esse filme.

Pelas apaixonantes margens do Mississipi, este drama sulista americano tem tudo. Tem uma beleza e uma pureza desconcertantes, é emotivo sem nunca ser baboso e versa um conto irresistível sobre inocência, sobre a sua perda, sim, mas, mais importante do que isso, sobre a escolha de conservá-la e de viver por ela. Mud é um filme sinceramente bonito, sem ponta de cinismo, que nos faz gostar dele, torcer por ele e acreditar como ele, um filme que se autoriza a ter um coração do tamanho do mundo e que deixa que os seus protagonistas façam as apostas irrazoáveis e façam os erros todos, porque, mesmo se no fim estiverem errados, como qualquer um lhes diria à partida, continuou a valer a pena. A transparência e a genuína convicção em ajudar sem julgar e sem contrapartidas, e em amar sem condicionantes, pela mera simplicidade de seguir sentimentos e de fazer a coisa certa, empresta-lhe uma aura que encontramos muito poucas vezes.

A história de um fugitivo atrás da mulher da sua vida e dos dois miúdos que o vão ajudar é uma criação extraordinária de Jeff Nichols, realizador-argumentista americano de 34 anos, que assina, aqui, apenas o seu terceiro filme. O seu talento como contador de histórias é verdadeiramente sublime e garante-lhe, para já, o melhor argumento do ano; a sua câmara, entre travellings, mudanças de ritmo e compassos, perpassa pelo filme como um pincel ideal. Depois, sendo natural da região onde filmou, o seu domínio do ambiente é, também, singular. Parte da imensa sedução de Mud reside, justamente, no deslumbre dos seus cenários, que aparentam ser colhidos do ideário das histórias de aventuras e nos esmagam uma e outra vez, com o apoio de uma cinematografia também ela excepcional, assinada por Adam Stone.

Matthew McConaughey faz, sem margem para erro, a melhor performance da carreira. É um fora-da-lei com ares de náufrago, um ícone dramaticamente romântico que, apesar de ser ardiloso, de ter errado e de o ir voltar a fazer, em momento algum tem um pingo de maldade. É o tipo vulnerável, destinado a falhar, mas terrivelmente comprometido, honesto e de bom fundo. O laço de mentor que forma com o co-protagonista rende sequências estupendas, tal como é de uma beleza total o momento em que contracena com Reese Witherspoon. A vencedora de Óscar também tem uma caracterização de personagem muito boa, ainda que, por ironia, isso se verifique mais a nível passivo, pelo que não faz, do que pelo que tem de fazer. Não era um papel que lhe desse muito espaço para brilhar, mas Witherspoon compõe o ramalhete com mérito.

O outro estrondo do cast está, porém, condensado nos meros 16 anos de Tye Sheridan. O miúdo, que se estreou há dois anos no idílico The Tree of Life, personifica com um carácter perfeitamente extraordinário toda a essência do filme. É o seu dínamo e, além de estar sempre à altura, foi capaz de transcender-se no momento certo. A simplicidade com que lê e se coloca perante as coisas, a sua candura e as lições que vai escolher tirar das suas dores de crescimento, ao ver de que é feita a vida, colocam-no, para mim, e sem pejo, na lista de oscarizáveis. É o melhor desempenho juvenil de que me lembro. Jacob Lofland, o seu parceiro da mesma idade, é outro puto cheio de chispa (grande direcção de cast). O veterano Sam Shepard, finalmente, cumpre o seu papel patriarcal e encaixa bem no resto do puzzle.

Mud é a prova acabada de que, para estar entre os maiores, não é preciso ser difícil nem caro. A grandeza de um filme começa e acaba na medida da história que esse for capaz de contar.

8.5/10

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