segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

The Butler. Muita pretensão, alguma técnica, nenhuma alma


Os últimos anos foram especialmente prolíficos em filmes sobre o racismo nos Estados Unidos. Coincidência ou não, Oprah Winfrey esteve envolvida, directa ou indirectamente, em três deles: produziu The Great Debaters (2007) e Precious (2009), e protagonizou agora este The Butler. Coincidência ou não, todos eles são filmes fracos e todos padecem do mesmo mal: o retrato das condições, das injustiças e dos abusos é melodramático em vez de ser genuíno, é forçado em vez de ser inspirador.

As melhores coisas costumam ser sempre as mais naturais. Foi assim o excepcional The Help (2011), uma franca obra-de-arte, que trata as mesmas temáticas transversais com pureza, jeito e com uma emotividade honesta, em relação à qual é impossível não empatizar. O problema de The Butler, tal como o dos seus 'antecessores' nesta órbita de Oprah, é esforçar-se demasiado para que nos compadeçamos dele. O filme é feito para causar dó e para reafirmar dolosamente algo com o qual já todos nos identificamos, e não é assim que as coisas devem funcionar. Isso torna-o plástico, exaustivo e sem ponta de carisma.

A história até era boa. Adaptada de uma reportagem jornalística por Danny Strong, vencedor do emmy do ano passado para melhor argumento em mini-série, faz uma recriação livre da vida de Eugene Allen, que escapou dos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos na juventude, para vir a ser mordomo da Casa Branca durante uns extraordinários 34 anos, entre 1952 e 1986. O primeiro defeito do texto é estrutural. Sendo um relato demarcadamente cronológico, não houve o indispensável engenho para moderar o efeito disso. Assim, o filme não se descolou de um prolongado martelar de datas (2h15 deste registo é um excesso), numa reafirmação de pontos de vista óbvios, sem surpresas para o sustentarem, ficando-se, em vez, por momentos falsamente emotivos que só o diminuíram.

É esse, aliás, o seu pecado capital: a pretensão. The Butler especula sobremaneira com a comoção, com os dilemas, com a grandeza moral e com a sua mensagem, ao mesmo tempo que nunca nos consegue contagiar para esse efeito. É um filme executado a regra e esquadro para ser um clássico, como mandam os livros, mas cuja absoluta ausência de alma o deita por terra. Lee Daniels, que já realizara Precious, faz um trabalho a que realmente não se podem apontar falhas de monta, mas que se torna redundante, na medida em que é sempre incapaz de fazer fluir a acção, maquilhar a passagem do tempo e, grosso modo, de nos manter interessados.

Se The Butler teve uma boa ideia, essa foi Forest Whitaker. Não que o oscarizado texano faça aqui um dos papéis da vida, mas porque é, de facto, quase impossível que este não esteja à altura do que lhe pedem. Não acho que tivesse um texto ou uma caracterização boa, nem que tenha tido nenhuma grande cena, mas, no global, tem uma performance muito sólida, que plasma, ela sim, a grandeza e a dignidade que se pretendia para o filme. Individualmente, é tudo o que há, apesar dos muitos nomes. Oprah não é qualquer mais-valia para o filme e, à semelhança do compadrio das aparições especiais de Mariah Carrey ou de Lenny Kravitz, que já se verificara em Precious, personifica pouco mais do que uma distracção. The Butler é um filme competente a nível visual, que recorre a um elenco extenso e a uma temática cara. Não sendo um desastre, a forma como se sobrevaloriza acabou por prescrever o seu falhanço.

5.5/10

2013. Os onze do ano


Neuer; Lahm, Thiago Silva, Ivanovic, Alaba; Ribéry, Yaya, Vidal, Ronaldo; Ibrahimovic, Lewandowski.

Weidenfeller, Zabaleta, Gundongan, Robben, Reus, Bale, Suárez.

Treinador: Jurgen Klopp.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Don Jon. Gordon-Levitt inventou (e vitimou) o filme mais ambicioso da temporada


Don Jon é um filme surpreendente. Despudorado, provocador, politicamente incorrecto e raro por isso, mesmo que não mantenha esse nível até ao fim. Narra a história de um tipo cru e musculado, povoador de discotecas e muito bem sucedido com o sexo oposto mas que, por ironia do destino, é profundamente viciado em pornografia, só dela conseguindo retirar verdadeiro prazer. O filme é visual e completamente descomplexado. Insiste abertamente na sua fórmula, é pungente e gere bem o choque que provoca.

É impreterível começar por dizer que Don Jon é uma invenção quase a solo de Joseph Gordon-Levitt que, além de protagonista, se estreou a escrever e a realizar. A nível interpretativo, Levitt sempre foi dos meus menos favoritos. Acho-o um dos nomes mais sobrevalorizados do mercado, acho que lhe falta engenho e que é um deserto de génio e de carisma. Não raras vezes, parece feito de plástico a nível expressivo... e Don Jon não me vem transformar a opinião nesse campo. Admito que a figura áspera e, quiçá, simplória de um tipo de New Jersey dedicado à família, aos amigos, ao ginásio e à sua igreja será dos papéis mais capazes da sua carreira, mas sinceramente só porque a medida era muito confortável e pedia-lhe pouco mais do que uma caricatura. Nas poucas ocasiões, aliás, em que se lhe reclama um pouco de nervo ou de emotividade, o resultado é o mesmo de sempre. Don Jon pode é passar aos livros como um portal para outra dimensão, onde já foram morar nomes como Ben Affleck: a chegada ao porto da Direcção/Argumentação.

O filme é uma notável peça de realizador, candidata a qualquer prémio de Melhor Estreia. É um trabalho de uma intensidade muito interessante, com um corte de planos rápido mas sempre ágil, que dá cadência ao filme e que nos vai puxando para ele. Gordon-Levitt também investe bastante em planos fechados, em repetições e numa não linearidade que confirma a sua lente como uma definitiva mais-valia, a rever assim que possível. Ao argumento original, do mesmo modo, só posso tirar o chapéu. Não porque tenha sido imaculado, mas porque demonstrou codícia, inteligência, gosto pelo risco e porque o soube concretizar. A primeira metade do filme é, de facto, brilhante, à medida que vamos conhecendo e tentando perceber a extrema peculiaridade do protagonista. Cada nuance, cada nova linha, é uma novidade que nos agarra à história, sendo o cume o segmento com Scarlett Johansson que, sinceramente, representa uma das pérolas do ano. Cada um achará das suas capacidades enquanto actriz o que quiser, mas num papel onde o elemento-chave é a fusão de sensualidade com a sua inenarrável beleza natural, Scarlett foi um cast de sonho. A personagem não lhe exige muito e é toda ela bem escrita, nos altos e nos baixos, mas é o seu sex appeal brutificante o que vem constituir uma experiência com vida própria dentro do filme, passível de quebrar qualquer queixo e de abstrair de tudo o que a rodeia. Uma chapa.

Estaríamos a falar, portanto, de um dos candidatos do ano, se o filme não tivesse feito o desfavor a si próprio de espalhar-se ao comprido no capítulo final. Admito que não era um trabalho fácil de acabar e não acho que a opção argumentativa seja totalmente imérita: não é surpreendente, mas é um desfecho com sentido, que talvez com mais bagagem e com outra capacidade interpretativa (Julianne Moore também não surge nos melhores dias) pudesse ter funcionado. Assim, a viagem de um tipo agreste na descoberta da sua própria intimidade acabou por render um fim ligeiro, lírico e pouco genuíno, ainda mais afectado pela prestação insuficiente de Levitt, que foi, no fim de contas, tanto o criador como o principal ponto fraco da sua obra. Don Jon terá de constar, seja como for, na lista dos que valeram a pena do ano que agora acaba.

7/10

domingo, 22 de dezembro de 2013

The Spectacular Now. O pecado foi não ser ainda melhor


Mal vi o trailer foi amor à primeira vista. A correr por fora, as venturas e desventuras de um finalista de liceu à procura de si próprio insinuaram logo ali um indisfarçável síndrome de grandeza, uma distinção intrínseca que tornava The Spectacular Now num dos meus filmes mais esperados de fim de ano. A sensação que fica é agridoce. Este é, de facto, um filme especial em muitos aspectos, escrito com um talento pouco comum na caracterização da jornada e das personagens, e assente em prestações individuais tremendas. Ao mesmo tempo, não foi capaz de se concretizar com todo o génio que sustentou em muitos momentos, recorrendo a um par de balizas-comuns que acabaram por sabotar parte do seu alcance.

Começando pelo mais importante: Milles Teller e Shailene Woodley são magníficos. A ele não conhecia e é obrigatório reconhecer que Teller ganha o filme, num papel razoavelmente banalizado - o rebelde party animal de liceu - que ele soube agarrar com uma alma de todo o tamanho. É um tipo com uma empatia tremenda, um personagem muito bem escrito, que não é superficial nem forçado, e que ele potencia com uma das mais carismáticas prestações jovens de que me lembro. A sua relação paternalista com Shailene Woodley - não lhe chamaria química, mas antes a forma como se complementam, enaltecida por um excepcional triângulo amoroso - é outro evidente ponto alto. Ela, por sua vez, não é nenhuma surpresa. Há dois anos, já me apaixonara profundamente em The Descendants, ao ponto de ter defendido que mereceu o Óscar desse ano para melhor Secundária. Neste regresso ao grande ecrã, a lindíssima californiana de 22 anos volta a desarmar qualquer um com a sua doçura, num papel mais ingénuo, de quem tem poucas certezas, mas muitos sentimentos e sonhos ainda maiores. É um papel meninesco sem ser juvenil e vazio, e compõe o ramalhete romântico com uma pureza à prova de qualquer cinismo.
"Everybody just singin' and dancin', falling in love... I'm so happy. I mean, this night, this is our night. This is the youngest that we're ever gonna be. I love these people. I do, I love these people. I love you all! Come on. Dance with me. Come on."
O ambiente é o outro tom do filme a que é difícil resistir. Aborda esse fim de Secundário, esse princípio de adultez, com um coração larguíssimo, com as poucas certezas e as muitas dúvidas, com os amigos mais próximos e as paixões mais distantes, tudo numa mescla genuína, cativante, com a qual é fácil identificar-se. As idiossincrasias de Sutter (Miles Teller) são esse retrato acabado dos 18 anos e de todas as possibilidades do mundo. Ele é um gigante e, ao mesmo tempo, um peão, um símbolo para fora que é muito mal resolvido por dentro. The Spectacular Now brilha ao navegar entre a sua história e a componente envolvente, na vertigem dessa era em que não se sabe nada mas onde ainda se pode tudo.

O calcanhar de Aquiles surge no momento em que o filme tem de concretizar as suas 'grandes questões', nomeadamente a partir do drama do pai ausente. Ao forçar uma mensagem e uma moral que não foi capaz de construir com um engenho à sua altura, este não evitou banalizar-se num lirismo redundante e desnecessário, que lhe castrou uma parte importante da aura. Adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, argumentistas de 500 days of Summer, o desenlace tem uma componente auto-destrutiva brilhante, mas padece do facto de ter uma conclusão muito by the book, quando dificilmente elas são assim. Com várias cenas bonitas, também acho que a realização de James Ponsoldt, na sua terceira e mais significativa longa-metragem, podia ter deixado outra marca, num registo que oferecia todas as condições para isso.

The Spectacular Now é um filme de que se gosta naturalmente, que acredito vá ser bastante consensual. Só tenho pena que, depois das provas de cor, coração e carisma, lhe tenha faltado um quê de génio para fugir a lugares-comuns, porque era isso que o eternizaria noutro patamar.

7/10

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Captain Phillips. O regresso de um gigante


Fazer suspense com algo que já aconteceu na vida real será das coisas mais difíceis a realizar de forma fidedigna em cinema. Num argumento original, pode-se sempre inventar mais um compasso, mais uma nuance. Num 'verdadeiro' as cartas já estão todas na mesa. Se o primeiro reclama criatividade, o segundo só pode sobreviver com mestria. Captain Phillips é a prova de que, não raras vezes, a realidade pode-nos afectar ainda melhor do que a ficção.

O resultado final não é exactamente uma surpresa, ou o responsável não se tratasse de Paul Greengrass, que há sete anos já deslumbrara num registo parecido, então com United 93 (2006), a história do único voo sequestrado no 11 de Setembro que não atingiu um alvo civil. A mesma agressão emocional e o mesmo terror psicológico voltaram a ser filmados aqui com um nível elevadíssimo. Como o provou uma vez mais, o talento de Greengrass para dirigir histórias da vida real é ímpar. A forma como nunca se precipita nem é plástico, como consegue induzir um paz falsa, que conforta mesmo que saibamos que não vai durar, quais cuidados terminais, como conduz a tensão a conta-gotas, a tentar remediá-la, antes de finalmente a abater sobre as nossas cabeças, foi, de novo, todo um arranjo verdadeiramente brilhante.

Captain Phillips é um filme que parece 'normal' durante parte substancial do tempo, que não parece perigoso, porque nunca nos ameaça o suficiente. Temos quase a certeza com o que contar e sabemos que não pode ser muito maior do que isso. O facto do zénite da acção serem 4 escassos piratas numa lancha a assumirem mando de uma tripulação inteira num cargueiro mercante ilustra exactamente isso. Parece tudo relativo... e, no entanto, sem mudar nenhum factor de maior, o esmagamento final é de uma violência excepcional. Muito bom argumento adaptado de Billy Ray, ele que, além de Hunger Games, assinou o meu muito estimado State of Play (2009).

Na mesma ilusão perversiva, Tom Hanks insinua ir ocupar um papel meramente glorificado. Como se se limitasse a ir dar a cara pela chapa, ser posto à prova e subsistir com a coragem dos heróis. Mesmo numa fase já avançada continuava a estar amarrado a esses serviços mínimos. Dizem, todavia, que os melhores aparecem nos momentos decisivos; os últimos 20 minutos e, em particular, a sua incrível cena final não foram, portanto, menos do que o regresso formal de um dos maiores monstros de sempre. Diria que é impossível ficar emocionalmente indiferente à majestade da sua prestação. Não tem nada a ver com a execução técnica mas, antes, com uma autêntica humanidade em estado puro, tão incontida e vulnerável, tão 'real' que sobra muito pouco a dizer. Ata-nos a garganta e faz-nos experenciar uma compaixão integralmente genuína. Coisa, como é bom de ver, só ao alcance de uns quantos predestinados. Por fim, ainda vale a pena reconhecer o carácter dos piratas, que eram facilmente banalizáveis e que, em vez de serem parentes irrelevantes, vêm a contribuir de forma decisiva para o poder da acção.

Talvez Captain Phillips não seja um filme com que nos identifiquemos por instinto, porque tem características que o tornam numa peça particular, nomeadamente a paciência necessária para que o fim funcione. A sua concretização, no entanto, é inatacável e avassaladora, num primor de direcção e de extremo talento individual que os Globos de Ouro já reconheceram (nomeações Drama, Actor, Secundário e Realizador).

8/10

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Homeland, season 3. O fim de uma jornada memorável


Escrevi aqui vezes suficientes a minha admiração por Homeland. Uma demonstração de força já no seu primeiro ano, foi na reentrada que se tornou numa das minhas séries favoritas de sempre. A 2ª temporada foi um dos mais excepcionais eventos televisivos a que já assisti, a usufruir daquela necessidade compulsiva de consumo imediato só reservada às melhores das melhores. Teve uma escrita irrealisticamente realista, com descargas nervosas tão à flor de pele que justificariam calmantes para o estonteamento de episódio sobre episódio, com um carácter emocional e uma tensão pasmantes e, acima de tudo, com uma excelência interpretativa que foi para lá de quase tudo o que já vi, legado eterno de dois monstros chamados Claire Danes e Damian Lewis. Os prémios, que como saberá qualquer pessoa de bem, são sempre uma nota de rodapé a qualquer questão de culto, renderam, mesmo assim, cinco globos de ouro e oito emmys. Registos escassos para a altura do que se fez.

Sobretudo nas séries maiores, porém, se há coisa inevitável é aquela sensação de perda antecipada. Aquelas vertigens de quem está a jogar muito alto, tão alto, que é quase impossível não estar sempre à espera de cair. Não vou dizer que a 3ª temporada representou uma cisão dramática entre um nível estrelar e uma qualquer vulgaridade, porque tal não seria verdade. É, no entanto, indiscutível que esta marcou a descolagem com um referencial que, uma vez consumada, raramente tem retorno.

Assim, a primeira metade da season 3 foi uma envergonhada perda de tempo, fomentando todas as piores expectativas, tão evidente que se tornou o bloqueio criativo e a incapacidade para voltar a agilizar a história, e dar-lhe o tom quase toxicodependente que sempre a caracterizou. Foram dois meses de acalmia oca, cheia de pontas soltas e de várias apostas discutíveis, que já só nos levava a esperar que houvesse remédio mais por fé do que por convicção.

Nos últimos 4 episódios, honra lhe seja feita, a série respondeu. Teve rasgo, adrenalina, respirou e contagiou como nos velhos tempos. O grande legado da temporada é ter investido no quadrante emocional, na relação pura, mesmo que espectacularmente distante, entre Carrie e Brody, e com ela ter vingado. A sua grande sequência surge no season finale, quando estão os dois numa cabana. É gutural, arrepiante, comovente. Os dois ali amassados, batidos, depois de terem arriscado e de terem perdido quase tudo, ali juntos, quebrados, produtos com defeito, como se diz, mas juntos. Isso e, devo acrescentar, algo mais transversal à temporada, que é a genuinidade bestial e indescritível com que Claire Danes sempre agiu perante o romance, da comoção nos olhos aos nós na garganta e aos sorrisos surdos, coisas, enfim, de um nível interpretativo extraterrestre e que, mesmo numa temporada em défice, só no entendimento de calhaus com olhos a podem ter deixado fora da corrida ao Globo de Ouro.

O jogo de cintura final não foi, contudo, suficiente para resgatar a série, porque o desfecho soçobrou aos piores receios. No último fôlego foi impossível mascarar a falta de um desígnio. Diz-se que para um barco sem rumo não há ventos favoráveis, e Homeland navegou sem bússola assim que teve de zarpar do porto paradisíaco onde estava acostada. Nem as brisas emanadas do talento excepcional de todos os seus envolvidos (grande temporada de Mandy Patinkin, que, sem nunca ter chegado aos prémios, merecia ter sido dignificado com uma última nomeação) acabaram por soprar na direcção certa. Como quando se acabam os trunfos e já não se acredita no próprio bluff, a série decidiu que a sua única saída era apostar as fichas todas e confiar que o choque tivesse valor por si próprio. O que lhe sobrou foi um grande nada. O season finale precipitou-se de uma forma desgarrada, incontinente e ligeira (incompreensível o capítulo dos "4 meses depois"), e foi desperdiçado de uma maneira completamente oposta ao cerebral e irresistível terror psicológico e de suspense que sempre foi tão caro a Homeland e que a tornou numa peça de arte tão transtornante quanto viciante.

No próximo ano dar-se-á uma quase refundação da série, que será obviamente vista, porque isso é o mínimo para o tipo de crédito que esta fez por merecer. Mas, se muitas vezes é bom mudar de caminho, desta reservo-me ao direito de fazer o luto. Venha o que vier, o Homeland que "acabou" no Domingo foi da estirpe que dificilmente pode ter duas vidas.

Villas-Boas. A vida depois de Príncipe Perfeito


O bom senso aconselha a que se eduquem sempre as expectativas. No futebol, como no resto da vida, muitos podem ser grandes mas só poucos o vêm efectivamente a ser. Acabar um Mourinho não é mais do que uma hipótese infinitesimal, se comparada com o oposto. Mesmo assim, mesmo com toda a prudência, às vezes é impossível resistir à tentação. Villas-Boas foi, desde o berço, essa história encantada. Muito antes de ter chegado à cadeira de sonho, já a Providência se dedicara a escrever o argumento da sua carreira. Desde o dia em que, miúdo cheio de si, mandou uma carta letrada a um velho vizinho chamado Bobby Robson, ao ponto de por ele vir a ser tutorado, até ao cargo de observador-chave do maior ícone dos bancos do novo século, Villas-Boas teceu todo o seu percurso a filigrana. Quando chegou a técnico do Porto, com nome e barba de aristocrata, era isso tudo e ainda mais um bocado: era portista de corpo e alma. Como num conto de fadas.

Geralmente seria depois desta esquina que espreitaria o descalabro. O momento em que o herói sucumbiria às suas circunstâncias, para satisfação do cinismo do mundo. A maioria dos atentos, boa quota-parte de portistas, terá desconfiado disso mesmo. Afinal de contas, quando chegou ao Dragão, Villas-Boas era muito mais o protegido de Robson e Mourinho, do que o treinador que estivera longe de deslumbrar em meio ano de Académica. O resto toda a gente sabe.

O bom senso aconselha a que se eduquem as expectativas, mas há expectativas que pervertem o melhor dos sensos. Com uns inacreditáveis 33 anos, o puto-maravilha foi campeão sem derrotas. Ganhou Taça e Supertaça só para as formalidades, dedicando-se, então, à glorificação europeia que, a meio do caminho, já parecia inevitável. A história não estaria completa sem que o maior rival, claro, tivesse sido devorado, no auge da sua regeneração. Ou sem que ele tivesse apaixonado qualquer conferência de imprensa ou seduzido o mais tenaz dos seus adversários. As dúvidas havidas dissiparam-se como numa aparição. O novo messias tinha nascido. Esse Porto foi perfeito. Como a sua história.

Não sei se hoje Villas-Boas estará arrependido do caminho fracturante por onde seguiu nesse Verão, quando veio a esfacelar o coração da sua própria gente. A razão diz que sair daquele Porto já feito, a palpitar pela relva da Champions, foi uma falta de visão; honestamente, só com hipocrisia poderia censurar quem aceita um daqueles convites que só aparece uma vez na vida. A nível futebolístico, a sua passagem pelo Chelsea será sempre injustamente subvalorizada. Villas-Boas escolheu bem os jogadores e foi capaz de enunciar em campo a sua ideia de jogo durante um tempo. Escreveu, mesmo que por linhas tortas, a génese de um Campeão Europeu. Falhou, de facto, porque era preciso muito mais do que a bola para que estivesse preparado.

Muito longe de uma estrutura com tanto profissionalismo quanto tradição, o balneário do Chelsea era um selva onde só se sobrevive com calejamento e com tacto. Villas-Boas entendeu tudo mal. Foi contratado para fazer uma revolução, mas nunca percebeu que elas também se fazem com cravos. Não percebeu, sobretudo, que os seus gigantes não tinham pés de barro e que ainda não era a sua hora, transformando os maiores trunfos que poderia ter nos seus piores inimigos. A profética frase "tenho a confiança do presidente, não preciso dos jogadores" é daquelas que o perseguirá por toda a vida. Ele acabou na rua, eles acabaram campeões da Europa.

O tombo foi proporcional ao percurso imaculado. Por mérito seu, tinha sido tudo "fácil" até então; a partir daí, para o bem ou para o mal, as suas pegadas descolaram-se definitivamente das da sombra maestra que sempre o perseguiu. O primeiro fracasso é sempre quanto baste para pôr tudo em causa. O que viesse depois valeria, portanto, a dobrar. Sinceramente, não esperava por aquela imediata segunda vida na zona rica da Premier League. O Tottenham, o mais caro dos não-candidatos, pareceu a ressaca ideal. Jogadores, dinheiro e menos pressão. Um posto para superar lugares-comuns e fazer magia.

Houve um dia, pelo menos um, em que o céu voltou a estar na ponta dos dedos: o da vitória em Old Trafford. Villas-Boas assaltava o maior de todos os castelos e um galês intergaláctico entregava oficialmente a candidatura a maior do ano. Pareceu uma daquelas vitórias que fazem campanhas inteiras. No fim, porém, o 5º lugar soube a muito pouco. A Champions ficou pendurada por um tortuoso ponto, é verdade, mas a crueza das contas explicou que ficar atrás dos quatro do costume era o que se teria feito em piloto automático. 13/14 era o ano de fazer ou morrer. Sem a estrela-mãe mas com 120 milhões para gastar.

De certo ninguém esperaria que, por esta altura, os Spurs andassem a ofuscar toda a sua engalanada concorrência. Villas-Boas sai, aliás, com a melhor percentagem de vitórias da história do clube e à frente do próprio campeão em título. Às vezes, contudo, os números não são mais do que isso. E só quem não o tenha visto pode achar que este Tottenham, onde se derramou todo e qualquer centavo da factura de Bale, não é o pior de todos os projectos futebolísticos de Villas-Boas. Era preciso tempo, sim. Mas tempo é uma comodidade aversa a quem não a mereceu, gastou demais e mudou para pior.

O Tottenham joga pouco, marca menos do que isso e pareceu, quase sempre, pouco mais do que uma equipa errante em campo, desiludida em cada toque. A brutalidade das humilhações ofertadas por City e Liverpool foram só os punhos na ferida. Mais do que individual ou colectivo, o que saltou à vista foi o défice humano. A falta de disponibilidade mental de um plantel de luxo para estar em campo, para querer sofrer, para acreditar no que se está a fazer. Se atentarmos a reacções como as de Adebayor ou Ekoto é ainda mais cristalino. Villas-Boas não perdeu no campo, perdeu na cabine. Outra vez.

André subiu rápido demais; estará destinado a cair sem rede? Estará acabado? Parece-me evidente que não. Julgamentos sumários são absurdos, ainda mais para quem tem 37 anos e, acima de tudo, porque uma centelha de génio não é coisa que se compre no supermercado ou que jamais apareça por acaso. A carreira não esperará por ele para sempre, é certo, e talvez Villas-Boas não seja o novo Especial, mas tem realmente na sua aura algo que é fora do comum, e que acredito que voltará a sobressair mais cedo do que tarde. Para ele, mais importante do que confiar nisso, porém, é perceber que há outras coisas que, pelo contrário, não tem e que dificilmente poderá vir a ter. Seja qual for o seu próximo balneário, Villas-Boas terá de encará-lo com a mais cândida das humildades. Não com medo, porque assim perdê-lo-ia igualmente, mas com uma genuína e integral transparência. A saber abdicar do pedestal, gerir egos e ser vulnerável. Se não a contagiar e a conseguir que 'morram' por ele, a ganhar o respeito dos jogadores, querendo-os como iguais.

Um treinador ganha jogos, um líder costuma ganhar títulos. Acontece que ser líder não se aprende. Ou se nasce ou não se nasce. Villas-Boas, explicou a experiência, não nasceu. De hoje em diante, a sua carreira dependerá da capacidade para viver à margem do tipo-ideal que quis ser durante tanto tempo, da sua lucidez para admitir as próprias insuficiências e para redefinir a sua própria maneira de estar. Porque mesmo se não for perfeito, continua a ser treinador que chegue e sobre para dar a volta por cima. Não sendo esse líder nato, o seu futuro dependerá de um princípio estruturante a qualquer Arte da Guerra: aprender a fazer aliados, e a comandá-los lado a lado, em vez de os hostilizar como se pudesse ganhar sozinho.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O problema não és tu, sou eu


O Benfica acabou a Liga dos Campeões a fazer frente a uma das melhores equipas europeias da actualidade, tal como no ano passado. A última imagem é a que fica e, dê por onde der, encher o Camp Nou ou vergar um dos clubes da moda é coisa que qualquer adepto está sempre condenado a estimar e a ficar mais ou menos modestamente orgulhoso. A verdade, no entanto, costuma ser sempre mais agreste. Neste caso diz que, agora como então, PSG e Barcelona usaram suplentes, o que não vale a pena branquear. Vários jogadores de classe mundial, claro que sim, mas espinhas de reservas em equipas com a comodidade de uma qualificação já garantida. Até parto por princípio que é ingrato menosprezar qualquer vitória nos Campeões; facto é que no fim, agora como então, o Benfica também não soube fazer mais do que a fase de grupos.

Jesus é respeitado por ter devolvido a dimensão europeia ao clube e esse é um reconhecimento que ninguém lhe poderá tirar. Em cinco anos, cumpriu a proeza de ser o treinador benfiquista com mais vitórias continentais. Fez sempre o mínimo de uns quartos-de-final e devolveu o emblema a uma final europeia, mais de duas décadas depois. Tem de falar por ele... e, mesmo assim, é impossível relevar que, nos últimos quatro anos, o Benfica tenha saído três vezes do maior dos palcos pela porta dos fundos. Pior do que isso, eliminado por Schalke, Lyon e, particularmente, por Celtic e Olympiakos. Já aqui elogiei Jorge Jesus várias vezes, por bem mais do que a sua aura europeia. Ao ano cinco, porém, é de palmatória constatar que uns oitavos de Champions dão mais prestígio (e dinheiro) do que quase tudo na 'outra' competição. Para qualquer equipa que invista o que o Benfica investe e que tenha os recursos humanos que o Benfica tem (e parte deles apenas existem por mérito directo do treinador) só é possível querer jogar numa e em mais nenhuma prova. Ao ano cinco, e por injusto que isso possa soar, sair de cabeça erguida contra os suplentes dos maiores, soçobrar perante equipas grosseiramente alcançáveis e fazer boa figura na competição da qual ninguém quer saber, é pouco e não é suficiente.

Na antecâmara da fase decisiva do ano passado, escrevi que o Benfica tinha um dos 20 melhores treinadores da Europa e que devia considerar isso profundamente, caso a tripleta de sonho se tornasse num pesadelo. O pesadelo, no entanto, foi muito maior do que alguma vez pude conceber, eu ou um qualquer benfiquista. Ver a forma errante como a equipa tem perpassado pela nova época como que confirma que há mortes das quais não se ressuscita. No pontapé paranormal de Kelvin e na cabeçada assombrada de Ivanovic, mais do que os troféus, jazeu o legado de Jesus no Benfica. Ao qual a História fará jus, acredito, mas de cuja travessia no deserto já não parece poder haver regresso.

Jesus é o treinador de maior longevidade da liga. Não perdeu nenhum titular e desfruta do melhor plantel do país (mesmo que esse tenha sido estupidamente planeado). Não é preciso quantificar o vazio cru que é o onze aparecer desde o primeiro dia afligido de todas as mortandades do mundo, perdido ao sabor da fortuna e incapaz de produzir um décimo do futebol de veludo de outros tempos. O campeonato está para qualquer coisa e, honra lhe seja feita, o histórico prova que a Liga Europa é uma taça para escalar. Nenhum benfiquista deixará de suspeitar, no entanto, que perante a vitalidade do Sporting e a estrutura do Porto, há mais uma pequena tragédia a fazer-lhe uma espera no fim do caminho.

Ironicamente por mérito do próprio Jesus, estar na luta e perder de cabeça erguida é o tipo de crise existencial que, ao fim de tantos anos de grandes expectativas e de maiores frustrações, já não pode voltar a encher barrigas. Woody Allen escreveu que as relações são como os tubarões: ou andam constantemente para a frente ou morrem. As carreiras também são assim. Hoje, Jesus é o criador na iminência de ser engolido pela excelência da sua própria criação, porque não a conseguiu acompanhar, porque agora é ele quem atrofia o seu crescimento. O seu Benfica é aquele que se perdeu no caminho e que ficou à margem do que poderia ter sido. É o Benfica que já não chega, tal como Jesus já não chega ao Benfica.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um Zidane amarelo


Está diferente o Borussia, como aquelas pessoas que já viveram muita coisa e que acham que os melhores dias já lhes estão para trás. Na Bundesliga, o Bayern já foi embora, com a maldade da goleada a fresco no chão sagrado do Westfallen, e na Champions, a equipa que brincou no grupo da morte do ano passado tem tido um trajecto dorido no tormento de grupo que lhe voltou a sair em sorte. Depois de entrar a perder no San Paolo e de acolher outra derrota caseira com o Arsenal, ontem, um jogo que estava ganho chegou a parecer areia a escorrer entre os dedos. A 20 minutos do fim, o Nápoles estava a um golo de pôr o Borussia fora e tinha-o sitiado na sua própria casa. Acabou 'bem', é verdade, mas deixou a nu uma vulnerabilidade existencial que jamais víramos ao espectacular vice-campeão europeu no ano passado. Nem quando o Málaga esteve a décimas de segundos de acabar com o sonho na Alemanha, se o exército de Klopp parecera menos do que inexpugnável. Perder, então, teria sido uma mera nota de rodapé à mais apaixonante equipa europeia de 2012/2013. Mas está diferente, este Borussia.

Inflamado de lesões na defesa (ontem, à parte Weidenfeller, todo o quarteto titular do ano passado ficou fora), com golpes rudes no meio-campo (a partida de Goetze, claro, mas também a paragem forçada de Gundongan) e com Lewandowski incapaz de sacudir os anticorpos de que já pulula por outras paragens, escasseiam as boas notícias. Henrikh Hamleti Mkhitaryan é uma delas. O bailarino arménio que Klopp foi resgatar a Donetsk é um futebolista de raro quilate. Na casa e na camisa #10, parece feito de cristal, tamanhas são a elegância e a luz com que conduz o jogo da equipa. Não finta demais, nem toca, nem arrisca, nem corre demais. Gosta de perpassar os adversários como se levasse a bola por controlo remoto, deixando-a ir a rolar sozinha, antes de cirurgicamente dar o único golpe de rins com que tudo define. Olhamos para ele, e é fácil imaginá-lo de fraque e cartola, com um óculo sobre o imenso nariz, tradutor de toda a sua sabedoria. Ao fim destes meses por terras germânicas, sou forçado a dizer que não é só um criativo brilhante; Mkhitaryan tem qualquer coisa de zidanesco e esse é o maior elogio que lhe posso fazer.

Foram dele os melhores lances individuais do jogo e, apesar de não ter ficado directamente ligado ao resultado, a sua batuta foi indiscutivelmente a maior inspiração amarela. O Borussia, que ao quarto de hora do fim estava a um golo de ser eliminado, já só depende si para se qualificar na infernal montanha-russa do grupo da morte. Pela nova jóia da companhia e, sobretudo, porque os dias maus vão passar, o futebol agradece.

O que é a crise do Porto?


Como outros antes dele, Paulo Fonseca atravessa um ano zero especialmente doloroso. A herança era menos pesada do que as de outros tempos e o início até sugeriu exactamente o contrário: 6 vitórias seguidas, com uma Supertaça, liderança isolada da liga e estreia forasteira a ganhar na Europa. É verdade que o futebol não correspondia aos números cor-de-rosa, mas contra factos não há argumentos e esperou-se, no fundo, que os fins potenciassem os meios. Os pontos não eram consequência do jogo capaz, mas podiam vir a ser a sua causa. O encantamento durou até onde pôde, isto é, até à relva onde toda a gente está condenada a cair na realidade: a dos Campeões.

Foi a partir do jogo com o Atlético que tudo pareceu cru: o constrangimento da defesa, o dilema existencial no miolo, a falta de talento nas alas, a crise de Jackson, a incapacidade de impelir a equipa a partir do balneário, a letargia no banco, o discurso pobre do treinador. Os portistas acordaram do coma induzido em que se tinham deixado levar com aquela sensação de quem está a cair no vazio e, desde aí, não mais pararam de esbracejar. Numa equipa bamboleante, esses embalos foram as asas de borboleta que precipitaram o resto do furacão. Nos últimos 7 jogos, o campeão só ganhou 2. A vantagem na liga caiu para 1 ponto e, com toda a gente a ver, veio a maior de todas as lesa-majestades: a pior campanha caseira da História do clube na Liga dos Campeões, que torna a qualificação em não mais do que um rabisco teórico, dependente, quanto muito, de dois milagres.

Mas o que é, afinal, a crise do Porto? É só o treinador? Dificilmente costuma ser assim tão simples. A verdade é que, em Portugal, paciência é a antítese de qualquer idiossincrasia futebolística. Paulo Fonseca continua a ser o treinador que cometeu o estapafúrdio de levar o Paços de Ferreira a uma Liga dos Campeões e essas são coisas que raramente acontecem por acaso. Tem mais trabalho feito, por exemplo, do que Mourinho ou Villas-Boas quando assumiram a cadeira. Contudo, o que pareceu aos portistas uma ideia simpática de Verão, tornou-se numa bandeira revolucionária nos idos do Outono, quando, mesmo com a afectação europeia, não estamos perante nenhum escândalo. Vítor Pereira passou exactamente pelo mesmo e entregou um bicampeonato, ao ponto de hoje andar a ouvir o "volta que estás perdoado". Paulo Fonseca pode não ser o melhor treinador do mundo, mas não há tempo, nem acidentes suficientes, para dizer que é o pior.

Depois, há um facto de que só se fala de um jeito envergonhado, mas que tem tanta raridade, quanto peso: o departamento de futebol falhou de forma indiscutível na preparação do plantel. O Porto perdeu o jogador mais "insubstituível" da equipa e o seu único desequilibrador de classe mundial; para os seus lugares, apostou em dois mexicanos mais caros do que era suposto e em sete jovens da Liga. Não é propriamente a mesma coisa. Que a capacidade de investimento não seja a de outros tempos, toda a gente compreende. Que o scouting se permita a um ou dois equívocos, é o mínimo para quem tem acertado tantas vezes. Que se encare uma época de transição a substituir Moutinho e James por rapaziada do Paços e do Estoril, não.

Dito isto, acho que Paulo Fonseca não tem estado à altura. Desde logo, tem falhado no discurso e na maneira de estar. Em todas as oportunidades, foi provinciano na questão das arbitragens e, quanto à capacidade de contagiar a equipa, nunca chegou a ser mais do que opaco, da sala de imprensa ao banco. Jesualdo, mesmo que não fosse de topo, parecia sempre falar a sério. Villas-Boas era um treinador-modelo que dispensa apresentações. Vítor Pereira, mesmo com todas as aflições, parecia ao menos sentir sempre alguma coisa. Paulo Fonseca limita-se a parecer estremunhado... e a equipa joga como ele. Para além disso, é hoje evidente que a sua refundação táctica foi um fracasso.

O Porto jogava com o mesmo desenho desde que me lembro. Fonseca chegou e assumidamente mudou. Mexeu no miolo, na saída de bola, passou a pedir mais construção atrás, aproximou um médio do ataque. Como num semestre mau, porém, ninguém percebeu muito bem o que o professor queria. E quem percebeu, não sabe fazer. O Porto, de tractor que enchia cada molécula do campo, num futebol quase científico, passou a ser um grupo de bons rapazes no recreio, a tentar resolver os seus problemas ad hoc, com o que estiver mais à mão, à espera de um 'eureka!' qualquer que lhes redescubra a pólvora de todas as vezes. Diz-se que um treinador deve ganhar ou perder com as suas ideias; ter querido reinventar o Porto, no entanto, é em si mesma a razão porque não se estava preparado para o cargo.

A História diz que a estrutura do clube aguenta quase tudo, e ninguém ficará muito surpreendido se Paulo Fonseca acabar campeão. Resta saber se ele também aguenta e, mais importante, se vale sempre a pena arriscar até ao dia.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aos anti-chauvinistas


Boa noite,

Era para pedir desculpa pelo enfado que neste momento aflige esta importante fracção da nossa nata intelectual. Já tivemos todos a honra de a conhecer e hoje sinto-me culpado. Desculpem-me essas pessoas mais superiores que não se dão às minudências da plebe e que passaram a última década devotas a um grande desígnio agregador: o de explicar que o Ronaldo é uma merda e que toda a alma que gosta dele e, pior, que o apoia com barulho, deve sentir-se irreprimivelmente estúpida por isso.

Desculpe-me essa gente que passou anos no rosário de que o vendido do Ronaldo se está a cagar para a Selecção. De que é um arrogantezinho sem berço que merece cair em todas as fossas da vida. Essas pessoas que festejaram com um sorriso balão cada uma das suas pequenas derrotas. Essa gente que nunca defendeu um melhor do mundo, mas sempre o pior. Essas pesssoas que estão fartas de ouvir, e que sabem que um português que tem carinho por ele, e que fala dele com o coração na boca, é um português parolo, um nacionalista bacoco com palas na vista, que só é digno da sua pena. Claro que o Ronaldo não merece Bolas de Ouro, que pare o povão ignorante de tratá-lo todas as semanas como tal. Que nojo, que pequeninos que nós somos.

Desculpem lá a nossa javardice hoje. O Ronaldo é um brutamontes de tal ordem que às vezes até os vossos 'argumentos' deixa debaixo da debulhadora. Maldito, não queremos bestas dessas por cá, mas ele anda impossível. E pronto, nós que somos uns chulos por um ou dois golinhos fáceis, lá fomos ser panascas outra vez e ainda vos vamos irritar o resto da semana contentes. Ainda por cima, a coisa já parecia meio morta, e lá faz ele esta sacanice de assinar a melhor exibição nacional que vimos na vida, leva a solo esta terriola a um Campeonato do Mundo e ainda avia em Zurique um terramoto que faria inveja ao Richter, que a noite ainda não acabou, e o Blatter já veio dizer que ele é fantástico e que se lixem os prazos de votações, porque à FIFA apetecia não ser um circo para variar. Gabo o vosso esforço para tentar remediar a coisa, nas declamações providenciais de que falar de prémios hoje é feio, de que ele não joga sozinho, de que finalmente está a fazer o seu dever, de que ele é o símbolo dos papa bolos que já nem se lembram da crise do país... mas hoje é esquecer. O gajo abusou.

Desculpem lá, mas para nós, os intelectualmente modestos, ser chauvinistas de segunda é mais forte do que podemos controlar. Não temos gostos educados o suficiente para saber que a virtude do mundo brota do 'estrangeiro' e que embandeirar a ralé de casa é a chatice dos saloios. Hoje, no dia 20 de Novembro do ano do Senhor de 2013, não fazemos a vénia ao Ronaldo porque ele é efectiva e inequivocamente o melhor futebolista que pisa o planeta Terra, mas por um capricho de ignorantes, que insistem em idolatrar aquele bicho banal, que marca golos piores do que o Ibra, tem menos peso do que o Ribéry e não vale uma madeixa do cabelo casto daquele rapazinho que passou um terço do ano lesionado.

Desculpem lá, mas se esta noite não têm um orgulho estupidamente descomunal no que fez o extraterrestre que nasceu no mesmo país do que vocês, é possível que vocês sejam o problema. Sabem, há um ano atrás, achei que era o limite. Que era fisicamente impossível fazer melhor do que aquilo, enquanto se leva com tamanha quantidade de merda na cara. Estava enganado. Ao contrário, enquanto o resto do mundo se permitiu a ser humano, ele continuou a ir ser outra coisa qualquer. Já tinha sido o melhor individualmente e perdeu. Já fora o melhor colectivamente e também perdeu. Hoje, limita-se a ser tão cruamente maior do que os outros, que nós, os pobres de espírito, já só podemos ter vergonha alheia. Aos anti-chauvinistas que andam por aí: desculpem lá, mas vão para a puta que vos pariu.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Prisoners. Facilmente um dos melhores do ano


Tem ambiente, personagens e, muito especialmente, o tipo de esquema argumentativo que, sendo concretizado com intensidade, inteligência e uma chispa de génio, é incapaz de falhar. Prisioners é, com propriedade, um dos filmes do ano.

Dois raptos, um pai disposto a correr até onde for preciso, um detective na posição nem sempre grata de fiel da balança e uma perversão de história não se sabe até que ponto funda compõem um cenário directamente saído de uma temporada de Criminal Minds. Na verdade, apesar de executado de forma irrepreensível, o argumento não tem nada de sobejamente novo. Mesmo assim, concretiza-se de uma forma senhorial, com fundações muito seguras, sem nunca inventar demais nem pôr os pés em ramos verdes. Prisoners tem, aliás, a característica particular de nunca guardar muitas cartas na mão. É um filme que se vai antecipando a si próprio e que joga habilmente com isso, dada a sua enorme competência em todos os outros vectores.

Os dias nublados, o frio e a chuva casam brilhantemente com o contexto, que depois também é rico a nível espacial, pejado de bosques, casas abandonadas, caves ou esconderijos que ainda disparam o seu apelo. Denis Villeneuve dominou o ambiente a seu bel-prazer e aproveitou-o ao máximo, num filme, qual policial, eminentemente cativante nesse campo, daqueles que preenchem o imaginário com facilidade e pedem energia, sombras e criatividade, coisa que o canadiano replica com distinção. Com uma história cativante, mas normal, e um ambiente atraente, mas comum, o filme, porém, dificilmente seria suficiente caso faltassem intensidade e performances. Como nos melhores, contudo, essas é que acabam por ser as suas chaves.

Prisoners tem uma capacidade fantástica de impor o ritmo e a sua força. De nos manter embrenhados, desconfiados, mas em dúvida, de nos envolver na corrida e de fazer-nos querer perceber, torcer por eles, torcer contra as probabilidades e contra o que vai acontecer. É uma escrita de primeiríssima água, exponenciada, obviamente, pelo nível do cast. Hugh Jackman deixou escancaradas as portas dos Óscares. Brutalmente aceso e mais emocional do que nunca, é visceral na sua maneira de estar, contagiante na sua corrida desesperada, capaz de nos fazer compadecer seja do que for que tem de fazer. Assina um tour de force majestoso que o coloca necessariamente na short list de melhores do ano. Jake Gyllenhaal, por seu lado, equilibra-o de forma apreciável. É forçado a ser mais contido e responsável, mas a sua performance escala em empatia e expressividade com o decorrer do filme e vem a completá-lo absolutamente.

Prisoners dura 2h30 mas nunca chegamos a dar por elas. É um thriller criminal de alto nível, com o dom, ainda por cima, de ter um daqueles corolários irresistíveis, com classe que abusa. No género, é difícil pedir melhor.

8/10

A Gaiola Dourada. Nem tudo o que luz é ouro


Tem exibido orgulhosamente o rótulo de sensação do ano em Portugal e não é para menos. Desde a estreia, no Verão, que A Gaiola Dourada se tem assemelhado a um fenómeno de culto, com números que falam por si: 750 mil espectadores até agora e o filme mais visto no país desde Avatar, há 4 anos atrás. Com espaço para gostar mais ou menos, a fórmula parecia inatacável.

Mesmo que talvez não nesta escala, acho que o sucesso é natural. O filme, que não é propriamente refundador, teve o mérito de entrar nos circuitos certos e, sobretudo, de capitalizar de forma magnífica o seu lobby positivo. Ao ser capaz de chegar a um certo patamar de aceitação popular, o efeito avalanche passou a ser uma consequência compreensível. Curto, ligeiro e a explorar uma das linhas matrizes da identidade nacional no último século - a emigração -, A Gaiola Dourada tornou-se num jackpot não por aquilo que é mas, essencialmente, por aquilo que representa. E isso, digo-o sem ponta de condescendência, consigo respeitar. Diria que, em Portugal, toda a gente tem emigrantes na família e esse factor emocional diz muito às pessoas, e funcionou por si próprio a congregar simpatias. Numa avaliação honesta, contudo, é impossível branquear o quão fraco aquilo é.

Não escrevo isto com particular gosto ou só por criticar um produto tão popularizado, mas A Gaiola Dourada é um filme absolutamente mau. Não tem comédia, sendo um deserto de narrativa sem dois segundos de piada; é desesperante quanto à caracterização do contexto e das pessoas, e não consegue ter uma única boa personagem (salvo conduto à beleza da luso-francesa Bárbara Cabrita); e, o mais grave de tudo, não tem pingo de alma. É um filme baço, que começa e se esgota no seu inefável populismo bacoco, que, em vez de gracejar e interpretar as idiossincrasias, reduz a uma caricatura parola e ultrapassada uma comunidade inteira.

Se era essa a intenção do realizador? Claro que não. Ruben Alves é um luso-descendente, que usou as fórmulas com boa-vontade, numa homenagem aos próprios pais. A verdade, infelizmente, é que o seu falhanço é grosseiro. A injecção incontinente de clichés, do bacalhau às bandeiras e aos terços, do benfica aos pastorinhos, à porteira e ao pedreiro, até ao desenlace baboseirão com o fado, são apontamentos tão elegantes como enfiar uma faca pelo ouvido. Um filme destes tinha a obrigação, ainda por cima com o background sentimental de quem o fez, de ilustrar as coisas com coração, graça e o seu quê de brilho. Quando um artista interpreta a realidade através do seu trabalho, tem de tratá-la, tem necessariamente de revelar talento para desconstruir valores e plasmar mensagens, tem, em suma, de saber cativar a audiência para a história que está a contar. À parte o argumento miserável, o único legado de A Gaiola Dourada é, pelo contrário, estigmatizar de uma forma profundamente ridícula tudo aquilo que era suposto celebrar em quadro.

3/10

sábado, 16 de novembro de 2013

To the Wonder. Malick ressacou a obra-prima


A minha relação com Terrence Malick é recente e é uma daquelas intensas que parece, ao mesmo tempo, condenada à turbulência. Não o conhecia quando, em 2011, fui engolido pela majestade inenarrável de Tree of Life. Um tipo de filme que eu nunca gostaria, com uma narrativa profundamente desestruturada, uma liberdade inventiva sem limites e um indiscutível egocentrismo do seu criador. O filme, porém, esmagou-me; é que, mesmo donde menos se espera, somos quase sempre capazes de reconhecer uma obra-prima quando a vimos. Como é natural, a curiosidade adensou-se desde aí, ainda que assente na desconfiança de que, em virtude do seu processo criativo, a veneração fosse sempre coisa volátil. To the Wonder veio confirmar isso mesmo.

A nível de alcance visual, o trabalho continua a ser de excepção, exponenciado pela fotografia sempre monumental de Emmanuel Lubezki. Malick tem um dom geoestratégico, e a escolha dos seus lugares e dos seus grandes planos não é menos do que um catálogo de chapas de cortar a respiração, feitas exactamente à medida dos seus tratados filosóficos. A banda sonora, na mesma linha, continua incapaz de desiludir. O traço mais distintivo da sua filmografia é, contudo, o gosto pelo risco e, paradoxalmente, esse é tanto a sua maior bênção como a sua grande maldição. Não me lembro de outro grande criador que seja tão pouco linear nos seus projectos, num tom arrogante e superior que ele nunca tenta sequer disfarçar. Se talvez é dessa forma que se fazem as coisas maiores, é igualmente assim que se falha mais do que a média. Respeitando a doutrina, é inevitável reconhecer que To the Wonder é um filme insuficiente.

Uma narrativa totalmente sinuosa, quando não tem um organismo forte a sustentá-la, é como um vírus que devora tudo o resto. Neste caso, isso acontece porque o filme (quase sem diálogo, como o anterior) é largamente deficitário no argumento, sendo este pretensioso e superficial, e nunca subtil, capaz de canalizar um raciocínio ou gracioso a passar a sua mensagem. A sua total inaptidão para agarrar o espectador e a sua tamanha falta de coesão fazem com que suportar as suas duas horas seja semelhante a um castigo.

Os filmes de Malick não dão muito espaço à interpretação, mas, mesmo assim, Olga Kurylenko destacou-se pela positiva e foi o que de mais genuíno ali houve, tão comprometida que esteve com a essência do filme, ao ponto de parecer emanar dele, física e emocionalmente. Também Javier Bardem, apesar do tempo de ecrã reduzido e da personagem ter sido mal levada, marcou pontos positivos. Já Ben Affleck, e como quase sempre, foi uma folha em branco.

To the Wonder tem algumas madeixas interessantes mas, no cômputo geral, é claramente um filme que não funciona, só passível de satisfazer um punhado de fãs de culto.

5/10

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A geração dos que não falharam


Poucos privilégios se podem comparar ao facto da minha geração ter começado a ver a Selecção no Euro-2000. Toda a gente tem os seus ídolos e os seus momentos, a lembrança das glórias que viram em miúdos, mas aquela equipa de ouro e grená não foi à Holanda e à Bélgica jogar um Campeonato da Europa; foi criar uma potência futebolística global, e isso é o tipo de coisa que a maioria das nações não viu nem nunca verá acontecer. É possível que, algures a meio daquele Inglaterra 2- Portugal 3, o melhor jogo que vou ver na vida, mesmo que vivesse mais duas ou três vezes, tenhamos destruído todos os planos que o Grande Arquitecto do Universo tinha para nós. O livre arbítrio não vem na Bíblia; foi concebido naquele chutão do Nuno Gomes ao Seaman, que fez com que um miúdo de 9 anos inutilizasse o resto da sua existência adulta a comemorar golos, porque nunca poderá festejar nenhum outro assim.

Na corrida pelo Mundial da Ásia, porém, voltou a estar tudo em causa. Na galeria de melhores de todos os tempos, calhou constar, pois, um jogo que começou numa deprimente noite de frio nas Antas, em que Figo nos escapou de penalty, no último lance do jogo, ao nosso próprio destino, e que só acabou num imersão de futebol em plena Banheira de Roterdão, na partida mais icónica de sempre do outro ilhéu que, então, nos abastecia de golos. Com a classe de um Raúl, foi esse o dia em que Pedro Pauleta pediu oficialmente a Holanda em casamento por nós, naquele que viria a ser um romance dos filmes, e que se mantém tão espectacularmente frutífero até hoje. Correu mal na Coreia, sim, mas era apenas a segunda vez na História que fazíamos duas fases finais seguidas. Estávamos só a começar.

O Euro-2004 acho que nunca teremos noção o que foi. Muitas pessoas lembram-no, hoje, como uma oportunidade perdida. Em consciência, acho impensável não lembrar toda a imensidão do que ganhámos. Da candeia sagrada que alumia o caminho a ser partilhada por dois dos maiores de sempre, à espinha de uma equipa campeã europeia, uma selecção perfeita num campeonato perfeito. Um país multicultural por génese, inundado pela Europa toda e mobilizado de coração nas mãos, no sol e nas cores de Junho, por um desígnio do tamanho da sua esfera armilar, e que teve de tudo, drama, espectáculo, heroísmo e tragédia. Perdemos, é verdade, mas o jogo é muito maior do que isso. Da história da nossa primeira final, os barcos e os autocarros e uma nação inteira nas suas calçadas de Norte a Sul são mais importantes do que qualquer vitória, porque ali, naquela simbiose que todos sentimos dos pés à cabeça, acontecesse o que acontecesse, éramos grandes e já sabíamos.

Assim, 2006 foi polir a reputação, porque já ninguém voltaria a descurar os bons rapazes. Estalámos os dedos e qualificámo-nos sem derrotas, ganhámos todos os jogos da fase de grupos, eliminámos dois candidatos crónicos e fizemos top-4 do mundo. Assim, naturalmente, como quem andou naquilo a vida toda. Foi hora do capitão, o último guardião da Geração de Ouro, completar a sua passagem de testemunho. A missão estava cumprida. Quando passou a braçadeira a Ronaldo, acredito que, como o Infante nos Descobrimentos, Figo tenha dito que jamais poderíamos voltar a olhar para trás. Não voltámos. Se em 2008 e 2010 não andámos de boca em boca, não foi por ficarmos a ver as coisas pela televisão, como nas décadas a preto e branco, nem sequer por fazermos feio nas primeiras fases. Estivemos sempre nas 8 ou nas 16 melhores que existem. Já não sabíamos fazer de outra maneira. E no ano passado, quando, à boa maneira portuguesa, um céu nublado foi tratado como uma tempestade tropical, e a selecção não prestava e Ronaldo era vulgar, a selecção encarregou-se de não prestar e Ronaldo de ser vulgar até ficarmos a dois postes nos penalties de eliminar a melhor selecção de todos os tempos.

É por isso que, na antecâmara do nosso bilhete mais difícil de todos, éramos tolos se não confiássemos. O português gosta de ser coitadinho, gosta de dizer mal e gosta de não gostar. À primeira contrariedade no play-off, o reflexo será sempre o de soltar os leões sobre os nossos e de deixar o circo incendiar, porque sermos mesquinhos e pequeninos é mais forte do que podemos controlar. De certo modo, num descarrilamento freudiano qualquer, acho que sempre gostámos de falhar, só porque destilar ódio dá-nos muito mais gozo do que vencer. Infelizmente para nós, a Selecção anda há década e meia a provar que é melhor do que isso. Uma selecção que é boa demais para fazer sentido, que é melhor do que nós e do que nós merecíamos, decidiu, nesse primeiro dia do Euro-2000, a perder 0-2 na madrugada do jogo, que, tal como escreveu Pessoa, era a hora. Hoje, no horizonte do primeiro Mundial lusófono, o nosso destino é ser aquele pontapé do Figo, um dia mais.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Absolutamente um must


Considerei-a, no início do mês, a primeira jóia da temporada. Concluído o primeiro quinteto de episódios, sou forçado a insistir: Masters of Sex é uma das séries do ano e é impensável que ainda não a estejam a ver.

Michael Sheen é, provavelmente, o lead masculino mais interessante da temporada, fruto de uma personagem de uma riqueza ímpar. É um homem severo, frio, hostil, que parece incapaz de baixar a guarda ou de reduzir a distância, mas que não tem, contudo, ponta de maldade, e acaba por ser extraordinário que, mesmo que faça ostensivamente pelo contrário, caiam sempre uma série de migalhas pelo caminho que nos fazem empatizar com ele, com a sua vulnerabilidade, as suas assombrações pessoais, os seus medos e os seus desejos.

Lizzy Caplan tem uma aura que, definitivamente, não encontramos muitas vezes. É palpitante e carismática, e não há forma de deixar alguém indiferente assim que entra em cena, na fusão entre imagem, maturidade e uma avassaladora segurança de si, do que faz e do que quer. É mistificada como fantasia, e esse é um caminho no qual embarcamos de bom grado, já que ela está à altura do epíteto, e jamais de uma forma vulgar, mas é verdadeiramente o seu carácter aquilo que a torna apaixonante.

Por esta altura, também já emergiram os secundários: Nicholas D'Agosto é excelente no seu jogo permanente entre luzes e sombras, um médico-aprendiz realmente capaz, com tacto e genuíno bom coração, mas consumido por ambição e por não poder ter aquilo que mais queria; Caitlin FitzGerald, a esposa, é a mulher de cristal, dramaticamente frágil e ingénua, feita para afligir-se em silêncio, mas que vai colocar-se numa posição que me parece vir a dar-lhe uma margem de progressão tremenda.

Masters of Sex continua a surpreender de episódio para episódio. É uma série de época com toques de leveza e de bom humor, mas com constantes e massivos estremecimentos emocionais que nos deslumbram, como uma caixinha de surpresas que parece ter sempre mais um segredo para contar. Fiquei impressionado desde início, mas não achei que pudesse ter tantas camadas e fosse ser tão rica, requintada e densa nas suas narrativas paralelas. Facto é que, para já, não há outra no mercado tão bem escrita e interpretada, e isso fala por si.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mud. Cinema em estado puro


Acredito que o verdadeiro cinema é intemporal. Não depende de técnicas, fases e nunca tem de ser visto em contexto. O grande cinema nunca passa de moda porque emana do seu elemento nuclear: a história. Com uma verdadeira história, um filme não precisa de efeitos, de thrill, de surpresa, nem de dominar o mundo. Até um filme gloriosamente simples pode ser um clássico perfeito. Em 2013, Mud é, provavelmente, esse filme.

Pelas apaixonantes margens do Mississipi, este drama sulista americano tem tudo. Tem uma beleza e uma pureza desconcertantes, é emotivo sem nunca ser baboso e versa um conto irresistível sobre inocência, sobre a sua perda, sim, mas, mais importante do que isso, sobre a escolha de conservá-la e de viver por ela. Mud é um filme sinceramente bonito, sem ponta de cinismo, que nos faz gostar dele, torcer por ele e acreditar como ele, um filme que se autoriza a ter um coração do tamanho do mundo e que deixa que os seus protagonistas façam as apostas irrazoáveis e façam os erros todos, porque, mesmo se no fim estiverem errados, como qualquer um lhes diria à partida, continuou a valer a pena. A transparência e a genuína convicção em ajudar sem julgar e sem contrapartidas, e em amar sem condicionantes, pela mera simplicidade de seguir sentimentos e de fazer a coisa certa, empresta-lhe uma aura que encontramos muito poucas vezes.

A história de um fugitivo atrás da mulher da sua vida e dos dois miúdos que o vão ajudar é uma criação extraordinária de Jeff Nichols, realizador-argumentista americano de 34 anos, que assina, aqui, apenas o seu terceiro filme. O seu talento como contador de histórias é verdadeiramente sublime e garante-lhe, para já, o melhor argumento do ano; a sua câmara, entre travellings, mudanças de ritmo e compassos, perpassa pelo filme como um pincel ideal. Depois, sendo natural da região onde filmou, o seu domínio do ambiente é, também, singular. Parte da imensa sedução de Mud reside, justamente, no deslumbre dos seus cenários, que aparentam ser colhidos do ideário das histórias de aventuras e nos esmagam uma e outra vez, com o apoio de uma cinematografia também ela excepcional, assinada por Adam Stone.

Matthew McConaughey faz, sem margem para erro, a melhor performance da carreira. É um fora-da-lei com ares de náufrago, um ícone dramaticamente romântico que, apesar de ser ardiloso, de ter errado e de o ir voltar a fazer, em momento algum tem um pingo de maldade. É o tipo vulnerável, destinado a falhar, mas terrivelmente comprometido, honesto e de bom fundo. O laço de mentor que forma com o co-protagonista rende sequências estupendas, tal como é de uma beleza total o momento em que contracena com Reese Witherspoon. A vencedora de Óscar também tem uma caracterização de personagem muito boa, ainda que, por ironia, isso se verifique mais a nível passivo, pelo que não faz, do que pelo que tem de fazer. Não era um papel que lhe desse muito espaço para brilhar, mas Witherspoon compõe o ramalhete com mérito.

O outro estrondo do cast está, porém, condensado nos meros 16 anos de Tye Sheridan. O miúdo, que se estreou há dois anos no idílico The Tree of Life, personifica com um carácter perfeitamente extraordinário toda a essência do filme. É o seu dínamo e, além de estar sempre à altura, foi capaz de transcender-se no momento certo. A simplicidade com que lê e se coloca perante as coisas, a sua candura e as lições que vai escolher tirar das suas dores de crescimento, ao ver de que é feita a vida, colocam-no, para mim, e sem pejo, na lista de oscarizáveis. É o melhor desempenho juvenil de que me lembro. Jacob Lofland, o seu parceiro da mesma idade, é outro puto cheio de chispa (grande direcção de cast). O veterano Sam Shepard, finalmente, cumpre o seu papel patriarcal e encaixa bem no resto do puzzle.

Mud é a prova acabada de que, para estar entre os maiores, não é preciso ser difícil nem caro. A grandeza de um filme começa e acaba na medida da história que esse for capaz de contar.

8.5/10

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Império contra-ataca


Todo o organismo moribundo estrebucha antes de morrer. Todo o parasita atacado agride de volta, antes de ser incinerado. Esta foi, pois, a semana em que as forças inquisidoras do Santo Ofício começaram o seu ajuste de contas. Na segunda-feira, as Câmaras finalmente libertadas do jugo laranja abriram os seus portões para queimar o bolor e, desde aí, a caça aos infiéis não mais parou.

À vista do público, já houve garotice: o Governo Regional retirou à Câmara do Funchal a gestão de um dos maiores jardins da cidade, coisa apelidada pelo próprio ex-presidente, Albuquerque, de "absurdo"; os vereadores sociais-democratas, por sua vez, também já sancionaram que Cafôfo, que não tem maioria, não poderá contar com qualquer cedência, nem sequer a do bom senso. Já houve, igualmente, idiotice: na esventrada Câmara de Santa Cruz, o tribunal exigiu que se aumentem taxas para pagar dívidas... coisa ecoada nesse escarro de papel que é o Jornal da Madeira como um "escândalo" e uma traição de promessas eleitorais.

O mais grave, porém, não está aos olhos de todos: acumulam-se os casos de elementos da maior Oposição de sempre a serem purgados em todas as áreas, desde o afastamento de cargos na Função Pública até à cessão de contratos com o Governo Regional. O Império abriu oficialmente a sua caça às bruxas. Cambaleante, solta os leões uma última vez, na ilusão pútrida de que se pode recompor pelo castigo, pela coacção e pela guerrilha doente a todas as alternativas, na expectativa de torná-las ingovernáveis. O esvaziamento costuma ser proporcional à demência, portanto, o que devemos esperar a seguir? Raptos, à boa maneira de Pinochet, ou gulags, como os camaradas soviéticos?

Esta febre a anteceder o exorcismo é o legado final de Jardim. Derrotado, humilhado nos seus bastiões, este PSD vai tentar resistir como um verme e vai morrer como um. Vai continuar a investir tudo na sua lavandaria cerebral e vai continuar a mover-se na calada, a mandar recados, a aconselhar silêncios, a intimidar as pessoas e a lembrar que é o Grande Irmão que tudo vê... mas só até ao dia em que, com data marcada, lhe vão arrancar os olhos. É que, mesmo que sejam incapazes de aceitá-lo, a tirania plenipotenciária, para ser vivida em regime marcial, já ficou lá atrás. É verdade que, enquanto o Império respirar, todos são vulneráveis, todos podem ser as vítimas. A diferença é que as pessoas sabem que já não estão sozinhas. A diferença é que já não estão autorizadas a ter medo.

O Império está ligado às máquinas e, da próxima vez, qualquer madeirense sabe que a eutanásia mora, única e exclusivamente, nas suas próprias mãos. Isto vai acabar porque já não pode haver gente com estômago e pobreza de carácter suficientes para se continuar a associar-lhe. Os que hesitarem quando, na última batalha, o partido fingir que mudam as caras e apelar à velha Madeira dos brandos costumes, lembrem-se que votar PSD, seja em que nome for, é sempre votar este estado de sítio. E façam a coisa certa, se não por convicção ou por vergonha na cara, pelo menos, porque os vossos filhos merecem melhor.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pacific Rim. Um blockbuster dos antigos


Foi um dos dois ou três filmes mais caros do ano e, a nível de capacidade digital, vive à altura dessa honraria. Os robots, os monstros e todas as sequências de acção são material de primeira água, digno de ser visto em alta definição, e cumprem o seu desígnio de filme majestático de Verão, irrepreensível para quem queira ter duas horas de escape a consumir espectacularidade por ela própria. Não deixa de ser, contudo, um filme bastante limitado nas suas traves mestras, absolutamente previsível e com uma ilusão de grandeza que lhe tira muitos pontos.

De facto, se o trabalho de Guillermo del Toro na realização, para efeitos de um monster movie, é quase intocável, já do seu argumento, partilhado com Travis Beacham (Clash of the Titans), é impossível dizer o mesmo. Pacific Rim até tem umas nuances interessantes, desde logo, a envolverem a história e a química do seu protagonista. Depois, é igualmente capaz de, muito à laia de Transformers, criar uma certa mística com os seus mega-robots. No entanto, as boas ideias ficam-se por esses arranjos de forma e não de fundo. O esqueleto da história - uma invasão de aliens que vêm do fundo do mar para eliminar a raça humana - é banal, o filme não tem um único momento em que seja capaz de surpreender e, acima de tudo, é autenticamente inquinado por um vitral invejável de clichés, que deixa a sensação de estarmos a ver uma colagem de plágios qualquer, sem nenhuma característica identitária própria. Entre regresso do filho pródigo, confrontações com lágrima no canto do olho, romance, frases enjoativas, discursos de batalha e sacrifícios heróicos, acho que não faltou nenhum.

Mesmo possuído pelo excesso de iconofilia tão caro aos americanos, Charlie Hunnam foi uma boa surpresa como lead. Acima do menino bonito e oco, é um tipo genuíno, capaz de agarrar as suas cenas, com arcaboiço interpretativo. Foi uma mais-valia importante. Idris Elba, pelo contrário, passou largos furos abaixo do que pode fazer. O papel pedia-lhe impessoalidade e frieza e o britânico nunca soube ser crível nesse colete de forças. Rinko Kikuchi, a japonesa que ocupa o principal papel feminino, foi um erro ao comprido, do argumento ao cast. Dos restantes, Max Martini tem grande presença e ficou bem na fotografia.

Em suma, Pacific Rim é um bom junk movie, como todos gostamos de vez em quando, caro e bem executado, e que não vai desiludir ninguém que saiba o que esperar e que se divirta com o que ele oferece. Não se pense, no entanto, que há nele alguma coisa acima da média.

6/10

terça-feira, 22 de outubro de 2013

This is the End. Quem dera nem tivesse começado


Ensinou-me uma lição: nunca ir tão contra o meu próprio instinto cinematográfico. James Franco e Seth Rogen são uma das duplas mais espectacularmente sobrevalorizadas do mercado, não gosto de quaisquer reminiscências de Judd Apattow, li a sinopse, vi o trailer e sabia que não podia dar nada pelo filme. Apesar disso, as críticas tinham-no surpreendentemente deixado com a cabeça fora de água, houve delas até simpáticas e lá achei que, com as expectativas tão baixas, talvez fosse a hora de dar-lhes um desconto. Nada mais idiota. Os poucos méritos do filme são completamente incinerados por uma presunção e um non-sense desesperantes, acabando este por ser um amassado tão exaustivo de palhaçada que é impossível ter-lhe qualquer consideração.

This is the End é a história do apocalipse a meio de uma festa em casa de James Franco. Nestes termos, ele e todo o resto do gangue interpretam versões caricaturadas de si próprios, enquanto o resto do mundo incendeia à sua volta e a Terra é invadida por demónios. Para não fugir ao léxico, o filme é uma tábua rasa de proporções bíblicas. Nasceu, com certeza, numa noite bem passada de álcool, erva e pastilhas, e só é pena que também não tenha morrido aí. Consiste, basicamente, em 1h40 de um grupo de amigos que existe na realidade, provavelmente tão pedrado como na realidade, a fazer um daqueles vídeos caseiros asneirantes, cujo único desfrute está reservado para quem nele participa. Juntaram-se todos numa casa, derramaram uns milhares de dólares para os efeitos, realizaram uma bestialidade juntos e fizeram disso um filme de circuito.

Sinceramente, gabo que tenham todos uma carreira com liberdade suficiente para fazerem qualquer devaneio que lhes passe pela cabeça. As caricaturas de si próprios até são decentes e demonstram fair-play, e o texto tem piada de tempos a tempos, com uns pontos extra para Danny McBride e Michael Cera. Depois, é evidente que se sabia, à partida, que não era um filme para levar a sério e essa também devia ser a medida pela qual avaliá-lo. No entanto, a verdade é que, mesmo para quem faz esse esforço de pôr as coisas em perspectiva, no final, é impossível tolerar. This is the End só é um filme consumível se também estiverem alucinogénos por perto, jamais por tentativa e erro, ou porque até pode ser uma ideia ou uma surpresa engraçada. Não é.

4/10

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Elysium. Blomkamp perdeu-se no caminho


Há quatro anos atrás, um até então desconhecido Neill Blomkamp estreou-se no grande ecrã, a escrever e realizar uma obra tão marcante que o fez, de chofre, chegar a nada menos do que aos Óscares, nomeado, sem discussão, para Melhor Filme e Melhor Argumento: District 9 foi um daqueles de que se faz carreira, ficção científica do tipo em que a acção é secundária perante o texto, o contexto e as performances. Blomkamp foi encarado como um quase reinventor do género e a sua nova oportunidade para provar o toque de Midas foi razoavelmente antecipada. Elysium não é, porém, um filme da casta do seu antecessor.

Lembro-me de pensar em como era brilhante a ironia de District 9, o facto do filme ser tão capaz e intenso a nível visual, mas dos seus trunfos terem sido, no fim de contas, as ideias, a subtileza, a classe de propósito com que foi feito. O sci-fi era só um acessório, um embrulho para contar a verdadeira história, e isso é que o tornou tão bom como os melhores. Elysium padece, pelo contrário, de uma certa ilusão de grandeza. Como quando o poder sobe à cabeça, o que pareceu é que Blomkamp pôde usufruir de recursos que antes não estavam ao seu dispor e, com isso, perdeu rumo e identidade. Curiosamente, apesar dos luxos visuais, patentes, em particular, na estação espacial, o filme não é particularmente rico a esse nível. Chega, até, a ser um bocadinho grosseiro, prejudicado, também, por uma edição verdadeiramente lamentável, martelada a todas as horas e que o articula com a delicadeza de quem monta blocos. Elysium não é agradável de seguir e, em vez de ter um fio, de ter previsibilidade, surpresa e clímax, tem um amontoado grande e bruto de episódios rápidos, destrutivos e superficiais.

É pena porque, se a nível da acção propriamente dita, o texto de Blomkamp é incompetente, a nível das premissas da história, não é (excepção feita ao romance, que é outro tiro ao lado). A história do miúdo orfão deixado para morrer, mas que tinha alma para vir a fazer grandes coisas, tem apelo, e todos os repetidos enquadramentos com o passado são francamente bons. Isto nota-se, especialmente, na última sequência do filme, que rende um fim digno e o faz subir alguns pontos. Mesmo que, desta vez, toldado pelo resto, Blomkamp mantém o talento para filmar emotividade no género e a sua aplicação de cenas surdas e utilização da boa banda sonora é dos maiores talentos do filme. Igualmente, o seu mundo pós-apocalíptico, sujo e destruído, é bem mais cativante do que o Elysium, ou seja, a nave espacial para onde a população mundial rica se começou a mudar, assim que os recursos terrestres se tornaram decadentes.

Matt Damon, ainda que com altos e baixos, é um bom lead, que valoriza o filme. O tipo conformado e institucionalizado, cujo destino vai encaminhar, ainda que por linhas tortas, para a epopeia que lhe estava escrita, a sua gastura, a sua impessoalidade triste, o pragmatismo, primeiro, e o heroísmo, depois, valem a escolha. Diria mesmo que o que teve de fraco foi culpa da acção bruta e não da caracterização ou da sua performance. Foi, porém, a excepção, num cast em profundo subrendimento (Jodie Foster no pior), e que tinha gente da estirpe de Sharlto Copley ou Wagner Moura.

O que fica de Elysium são os sinais de que Blomkamp não desaprendeu e de que continuam a haver ali ideias para cinema de outro quilate. Este foi só um rascunho.

6/10

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Drinking Buddies. Uma jóia fora do radar


É uma pérola no universo das comédias românticas, daquelas que só encontramos uma ou duas vezes a cada ano. Drinking Buddies é um retrato de alto quilate das inevitáveis zonas cinzentas de todas as relações, que fala do fruto proibido sem moralismos bacocos, com uma noção e uma maturidade que o tornam especial.

O filme centra-se na história de Luke (Jake Johnson) e Kate (Olivia Wilde), dois colegas de trabalho de extrema cumplicidade, e segue a forma como estes se aproximam perigosamente, enquanto as suas respectivas relações pessoais influem, omnipresentes. O trabalho de Joe Swanberg, que escreveu e realizou, é brilhante. Drinking Buddies plasma leitura, avaliação e sensibilidade, é excepcional nos silêncios e nos pormenores, nos toques e nas quebras de diálogo, terrivelmente realista na forma como ilustra o limbo entre amizade e romance, entre flirts e relações e, muito especialmente, fidedigno nas pequenas coisas que se fazem, que se vêem e que se sentem, mas que não se podem dizer. É um filme sobre química, com posse e ciúme, averso a mares de rosas e a falsos moralismos. Capta a essência da corte e do envolvimento entre duas pessoas com uma maturidade ímpar, sem tiradas sonantes, mas com reacções que falam muito mais do que elas, com dúvidas, mágoa e desejo, e muita coisa dita a medo, subentendida ou deixada por dizer, exactamente como na vida real.

O filme não tem propriamente um clímax ou um grande desenlace, mas se não ter uma estrutura rígida pode ser visto, por alguns, como uma fragilidade, acho que parte da sua chave está exactamente no facto deste ser uma colectânea de episódios que valem por si próprios, um retrato fidedigno das coisas como elas são, sem princípio-meio-fim, das coisas que não têm de "acontecer" para ser. A realização de Swanberg, por sua vez, ainda consegue engrandecer todo o produto. Tem delicadeza, movimento, cor, óptimos planos interiores e de pormenor, e uma grandíssima intimidade, porque perde todo o tempo necessário com as pessoas, com os seus jeitos e com os seus silêncios, e isso é basilar para o óptimo resultado final (completado por uma bela banda sonora).

O realizador é conhecido por pedir ao seu cast que improvise a tempo inteiro e o resultado não podia ter sido melhor. Neste registo, o grande Jake Johnson, o Nick Miller de New Girl, é um peixe na água. É o tipo engraçado, carismático e crianção que enche qualquer sala e de quem é impossível não gostar, e, extrapolado pela liberdade de diálogo, consegue criar uma simbiose incrível com Olivia Wilde, de uma naturalidade irresistível, difícil de criar em laboratório. A forma como a sua aura de todas as horas é, depois, perpassada por uma nuvem surda de ira e acidez, que ele não consegue remediar, é magnífica. Wilde abandona a capa de sex-symbol e surge, aqui, como a miúda normal em que a personalidade é que é profundamente sedutora, o que lhe rende, também, uma performance excelente. É vulnerável e é forçada a viver sempre numa fronteira, mas nunca deixa de ser concreta, e a sua última chamada à realidade é ouro cru em forma de cena. Anna Kendrick e Ron Livingston, finalmente, completam um elenco que funcionou realmente bem, fruto da fusão perfeita das suas características: ambos mais "velhos" na maneira de ser, ela absolutamente doce, ainda que ingénua, ele pragmático, terra-a-terra, sempre certo do que quer.

Como já disse, admito que nem toda a gente adore a narrativa flexível do filme mas, mesmo que aparentemente fora dos radares, Drinking Buddies é um dos imperdíveis do ano. Oxalá os Globos não o deixem passar em claro.

8/10

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Gravity. A experiência cinematográfica do ano


Era, assumidamente, o primeiro grande filme dos Óscares e andara, por estes dias, nas bocas do mundo, a receber elogios massivos da crítica e a reunir, do público, um consenso fora do comum. A forma justa de o introduzir é dizer que Gravity vive à altura dessa reputação. Não sei se é o melhor filme do ano, mas o estatuto de mais espectacular evento cinematográfico de 2013 ninguém lhe tira.

Num monumental 3D, o seu poder visual é de cortar a respiração. Ao nível da recriação do espaço e dos efeitos especiais, Alfonso Cuáron realiza uma obra com que a esmagadora maioria dos directores apenas pode sonhar. A execução digital do universo profundo, as panorâmicas da Terra, a articulação com o Sol, as avenidas do espaço, a profusão dos acidentes e as digressões dos protagonistas no vazio esmagam-nos como se tivéssemos efectivamente o pescoço mergulhado naquele espaço sideral. A cinematografia incrível é de Emmanuel Lubezki, génio por detrás da perfeição de Tree of Life, e o luxo de envolvência que o filme proporciona consegue bater o que James Cameron alcançou em Avatar. Trabalho bestial de Cuáron, próprio da galeria de mestres, e que lhe estende, desde já, uma passadeira para a época dos prémios. Tudo ponteado com uma brilhante banda sonora, escrita e conduzida pelo britânico Steven Price.

Contudo, apesar de tamanho deslumbramento, seria um erro de palmatória reduzir Gravity ao seu espectáculo visual. O que Cuáron criou, ele que co-escreveu o argumento com o filho Jonás, é um glorioso thriller psicológico, que transforma, por hora e meia, a sala de cinema numa verdadeira câmara de pânico, fazendo-nos sentir a claustrofobia e a pulsação dos que estão dentro da tela, ao ponto de nos impingir uma agonia física. Dessa agressão permanente, o filme ainda comete a proeza de derivar para sequências verdadeiramente desconcertantes, que ilustram, de uma forma cândida, a fragilidade das pessoas, ao colocá-las, a nível emocional, tão pequenas como os seus corpos que vagueiam no vazio. A vulnerabilidade de ser pó no meio do vento, o instinto de sobrevivência, mesmo quando já não parece poder haver esperança, a solidão extrema e total, a vertigem de desistir e a forma como se sabe, ou não, agarrar a vida, dotam Gravity de uma humanidade verdadeiramente singular.

Sandra Bullock tem uma performance monstruosa que a atira, desde já, para a antecâmara do Óscar. É uma anti-heroína completa, a pessoa comum que subsiste, não por coragem, mas porque, contra todas as possibilidades e contra todas as motivações, decidiu que a sua única escolha era dobrar o medo e a sorte. As inúmeras vezes em que é posta a prova, a nível psicológico ou a nível físico, são sempre profundamente críveis, porque lhe parecem sempre sair da pele. Sofremos com ela e compreendemos o tamanho da sua provação, e isso é o mais alto a que uma interpretação pode chegar. Clooney, por seu lado, é um secundário importante, valioso, primeiro, por dar cor ao contexto, e, depois, por emprestar-lhe espírito, naquela que é, para mim, a mais notável sequência do filme, o momento em que ficam ambos suspensos no espaço, presos, apenas, por um cabo na perna de Bullock.

A única maneira possível de acabar uma crítica sobre Gravity é pedir que o vejam numa sala de cinema. Vão, sem pensar duas vezes. É que pagar bilhete para se deslumbrar é, definitivamente, uma das vezes em que vale a pena.

8.5/10

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fast & Furious 6. Ainda o melhor guilty pleasure do mercado


Há casos de militância em que uma crítica tende a ser redundante. Fast and Furious é uma dessas situações em que sou suspeito: a franchise tem química, tem carisma, tem história e continua a ser absolutamente competente a concretizar o core da sua acção. O tempo passa e continua a cravar legado e, acredito, a preservar a sua legião de fiéis. De Furious já se sabe o que esperar e só consome quem quer: a reunião do insubstituível velho gangue para cada nova jornada, um sem fim de sequências brutas de acção e uma trama romanticamente moral, seja no crime, num ajuste de contas ou, como agora, do lado da família e da lei. Admiro, muito especialmente, a capacidade da saga para continuar a manter os pés no chão e a ser pura na sua história, sem nunca descaracterizar o seu adn com ambições desmedidas. Hoje, usufrui de um carisma palpável e de uma identificação com os espectadores que é incontornável (um mimo os minutos de genérico, com a alusão a todos os velhos tempos).

Foi o filme número 4 da conta de Justin Lin e o taiwanês voltou a dar bela conta de si. FF continua a valer o bilhete pelo poderio de cada grande sequência - mesmo que não resista a exagerar aqui ou ali -, coisa que conjuga com a sua sempre aprazível corrida pelo globo, cheia de lugares ricos, a fazer a jornada da sua trama. Chris Morgan, no argumento, faz parceria com Lin desde Tokyo Drift e, se é  verdade que a génese da saga não dá espaço para quaisquer refundações, é justo enaltecer a excelente forma como o texto concretizou a linha mais identificativa da história de Furious 6, e aquela que ameaçava ser a sua grande vulnerabilidade: a "ressurreição" da personagem de Michelle Rodriguez. O tratamento dessa narrativa acabou por ser, não só simples e elegante, como uma efectiva mais-valia para a história, numa injecção de química que rendeu, por exemplo, a melhor cena do filme (Letty e Toretto no fim da corrida de rua).

O regresso de Michelle Rodriguez foi, aliás, um aumento de capital exponencial no cast. Mesmo que, agora, num contexto que a forçou a ser mais impessoal, a latina voltou a ser uma verdadeira chapa e é inevitável ficar rendido ao poder que empresta a cada cena. Se a partição da ribalta com Paul Walker foi quase sempre a regra, desta vez, este é, assumidamente, um filme de Vin Diesel, que o aproveita tanto quanto possível. É a sua história, a sua família e a sua saga e, em FF6, Diesel enche a casa, mais plenamente patriarca do que nunca. No resto, é um cast que preserva o je ne sais quoi de sempre e que, realmente, continua a brilhar como um todo.

Como o provou uma vez mais, Fast and Furious continua a resistir ao teste do tempo e, por mérito próprio, a recusar etiquetas de validade. No próximo Verão, com novo realizador e reforços do peso de Jason Statham, Djimon Hounson ou Kurt Russel, aí continuará para as curvas.

7/10

Now You See Me. A magia só enganou até onde pôde


2006 terá sido um ano que converteu muito bom cinéfilo à magia. Eu, pelo menos, fiquei fã: The Illusionist foi pejado de qualidade e The Prestige conseguiu, simplesmente, ser um dos meus melhores de sempre. A magia dava, afinal, para autênticas avenidas de coisas bem reais e essa dualidade sedutora vinha para ficar, mesmo que nos anos subsequentes não fosse voltar a ser alimentada. Now You See Me foi a primeira oportunidade para voltar ao género, desde aí. Como um truque mau, contudo, se é verdade que até nos engana durante boa parte do tempo e insinua ser bem maior do que é, o desfecho é tão raso que faz com que todo o filme desabe com ele.

Now You See Me conta a história de quatro talentosos mágicos de pequena monta que, num dado momento, são convocados por alguém que desconhecem para um endereço misterioso, onde lhes é apresentado um ambicioso plano de carreira. Um ano depois, eles são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, um glorificado quarteto de magia que, no píncaro da sua digressão por Las Vegas, vai começar, aparentemente, a concretizar assaltos a bancos, no decurso do seus espectáculos. O filme tem bons traços de argumento, sobretudo na forma reverente como trata a magia, a sua história, os seus princípios e a arte em si. É forte a nível dessa recriação de contexto, interessante nos seus sucessivos truques e tem bons diálogos e boa interacção entre as personagens, sendo colmatado por um realização capaz de Louis Leterrier (Transporter ou Hulk). Numa avaliação global, contudo, a verdade é que deixa uma infinidade de questões por esclarecer, mercê de uma negligência quase total à sua própria sustentação. O filme vai acumulando camadas sem nunca responder a perguntas e é quando chega a hora de o fazer, no último acto... que se dá o seu espectacular falhanço. A parte "mística" é má e o mistério revelado é de thriller de 5ª categoria, colado a cuspo sem sentido e sem uma gota de génio.

Ao contrário do que se poderia supor, o cast (5 nomeados ao Óscar, 2 vencedores!) responde bem e merecia melhor. Jesse Eisenberg, acima de todos, é excelente, e continua a sua travessia no deserto à procura de um grande filme que finalmente lhe faça jus. A arrogância, a sagacidade e o seu ritmo paranóico já são uma imagem de marca e continuam a projectar as suas personagens. Woody Harrelson é o outro destaque, num registo de veterano de outros tempos, provocante e gozão, mas incisivo e carismático. No seu infindável rol de secundários, Morgan Freeman encontrou igualmente aqui um dos que melhor lhe assentou nos últimos anos. Já Mark Ruffalo e Sir Michael Caine estiveram na mó de baixo, parecendo sempre pouco confortáveis nos respectivos papéis.

Em dado momento, Now You See Me foi o tipo de truque com predicados e charme suficientes para querermos realmente acreditar nele. No fim, porém, o seu gigantesco nada capou pela raiz o que de bom houve no resto.

5/10

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

World War Z. Faltou identidade ao potencial


Com o livro homónimo, Max Brooks tornou-se, em 2006, num renomado best-seller e num dos mais admirados autores pós-apocalípticos do mercado. Apelidado de inadaptável ao cinema, World War Z foi mesmo considerado um reinventor do género. Numa época de profunda reminiscência da ficção zombie, o filme de Marc Forster, cuja produção atravessou um sem-número de percalços, reuniu, por isso, uma expectativa grande, mesmo que mais ou menos diluída pelo caminho, nesses contratempos. WWZ é, de facto, um filme capaz, com uma história que tem o mérito de não se limitar a ser vulgar, mesmo que acabe por revelar-se deficitário e fique longe de fazer escola como a sua obra-mãe.

O americano Matthew Michael Carnahan (autor de The Kingdom ou do excelente State of Play) assinou a adaptação do argumento, num processo verdadeiramente traumático, que implicou mais de um ano de atraso, a reescrita completa da primeira adaptação e uma terceira reinvenção do último acto, já escrita por Damon Lindelof e Drew Goddard, mítica dupla de Lost. No caminho, WWZ passou a ser um filme de acção no presente, abandonando parte substancial da premissa do livro, ao ponto do criador Max Brooks ter dito que este deixara de ter qualquer ligação à sua obra, à parte o título. O livro é uma colecção de relatos individuais elaborada dez anos depois da guerra desesperada contra a praga zombie, onde o narrador é um antigo quadro das Nações Unidas; Carnahan tornou-o, por sua vez, na jornada desse agente pelo mundo a partir da explosão do contágio, para tentar identificar a génese da epidemia e conceber uma forma de a conter, enquanto tem, ele próprio, de manter a família a salvo.

O filme é cativante durante boa parte do tempo. Fazer uma investigação à volta do mundo, em pleno pós-apocalipse, funciona porque mais ninguém o fez. Da Coreia do Sul a Israel e a Gales, acumula boa fotografia e é um filme puro, no sentido em que enaltece o carácter "científico" da epidemia por si, o efeito de ir investigar para resolver, e foge ao usual estado de sítio entre humanos. Mesmo assim, o filme falha na temporização. Não é corajoso o suficiente para fazer poucas coisas e perder mais tempo com elas, para deixar pontas soltas ou para fazer sacrifícios, tentando, ao invés, condensar toda uma temporada feliz de Walking Dead em 2 horas, o que o torna superficial e difícil de levar a sério. O desfecho, depois, o tal que foi reescrito três vezes, é manifestamente infeliz. A sequela está omnipresente, mas isso não justifica tão grosseira falta de suspense. O suposto zénite do filme acaba por não ser mais do que um piloto automático absolutamente sem sal.

Marc Forster - que dirigiu, por exemplo, o pior 007 de Craig - não faz uma grande realização. Ao tratamento das cenas de zombies em massa faltou classe e sobrou mau gosto. Faltou tensão e individualidade aos momentos de nervos e o filme não chegou a estar perto de convencer nesse campo. Faltou perder mais tempo nas cenas, ser menos ambicioso e ter mais tacto. Em geral, a verdade é que WWZ padece sempre de uma clara falta de alma. Brad Pitt devia ter estado melhor. Tem duas horas de palco para brilhar a solo e nunca chega aos níveis exibicionais que o celebrizaram. Pareceu, também ele, contagiado pelo défice de profundidade do filme e incapaz de ser mais convincente. À excelente Mireille Enos não deram qualquer espaço. A boa surpresa veio de Daniella Kertesz, israelita de 24 anos em estreia a este nível, que, apesar de ser uma secundária com importância nula para a trama, acaba por emergir, mercê da intensidade perturbante que emprestou ao papel.

World War Z não deixa de ser um filme competente no género, com potencial nas ideias próprias, bons ambientes e boas influências, que se vê com disposição. A crítica que fica é construtiva no sentido de que parece existir um potencial subjacente que, claramente, não foi capitalizado desta vez. O filme não foi capaz de achar a sua identidade, de se particularizar e de ter uma pincelada de génio quando chegou a hora. Quem sabe a sequela ainda é capaz de se reencontrar.

6.5/10