sexta-feira, 29 de junho de 2012

EURO, #16: Aconteça o que acontecer, foi um prazer, Azzurra


Alemanha-Itália, 1-2

Há selecções que nasceram para estes jogos. A Itália é uma delas.

Claro que a Alemanha era favorita. Andava a acumular credenciais desde 2006, foi a melhor selecção na África do Sul, e chegou aqui a ser o único rival da Espanha, dita à boca pequena ser a grande favorita do torneio. Ganhou o grupo da morte, ia para ser a primeira selecção a ganhar isto só com vitórias. O problema é que a Azzurra tem a mania das grandezas e é muito pouco impressionável.

A Alemanha puxou dos galões, entrou melhor. Tinha a final marcada, queria despachar rápido isso das formalidades. E podia ter marcado de facto, teve dois ressaltos a provocarem a linha de golo, um torpedo de Khedira e toda a sua força bruta instalada no meio-campo azul. Chegou a parecer questão de tempo. Chegou a parecer que era só estrelinha da Itália, que ia quebrar. Quando os alemães se deram conta, contudo, já estava 0-2.

Naquela primeira meia-hora, viveu a velha Itália. A equipa de Prandelli ainda não mostrara que tinha isso; é verdade que voltou a ser perdulária na segunda-parte, e que manteve a presa perigosamente viva, mas a senhorial cultura de vitória dos seus antepassados fez meia-hora em Varsóvia, e sancionou a mais do que merecida final. Hoje, a Itália de Prandelli transcendeu-se, foi a fusão dos dois mundos: primeiro resolveu, sem pensar muito nisso: depois jogou, de acordo com a sua nova matriz, como uma equipa que dá gosto, que desfruta da bola, e que destila superioridade técnica, estratégica, criativa e moral.

Como em 2006, a Mannschaft volta a ser arrasada numas meias-finais pela sua besta negra. Quando Lineker disse que o futebol são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha, esqueceu-se imperdoavelmente dos italianos. A derrota não faz com que o Europeu da Alemanha deixe de ser bastante bom: um grupo da morte sem espinhas, 4 vitórias, futebol para mais na meia-final. É facto, porém, que não foi ao Leste a equipa incrível que deslumbrou na África do Sul. Se colectivamente a máquina não deixou de render, a nível individual notaram-se muitas baixas de forma, com consequências evidentes para a produção de jogo: Özil e Schweinsteiger chegaram estourados ao Europeu; Müller e Podolski, dois jokers importantíssimos, nem lá foram. Já Gómez, que à 2ª jornada tinha a Europa aos pés, é só um caso freudiano de desterro. A máquina mascarou bem, e Löw até começou a abrir a casa à gente nova com bons resultados. O problema da Alemanha é que a Itália estava em fato de gala, e, nesse caso, é sempre preciso ser muito melhor do que o normal.

Para mim, já é seguro dizer que a Itália foi a grande equipa deste Europeu. A Espanha que se cuide. Se nós esfolámos, a Azzurra vai para matar.

Itália - E da bruma, um monstro acordou. Tinha feito 4 jogos maus, falhou uma e outra vez, mais e menos escandalosamente, andou amarelado, andou no banco, era uma menos-valia para a equipa, um prejuízo. Prandelli, contudo, confiou sempre na brutalidade estapafúrdia do talento, e o talento entregou-lhe hoje uma final em bandeja de prata. Balotelli não tem meio termo: ou não presta, ou é genial. Não presta mais do que era recomendado. Quando é genial, não tem limites. O pontapé à Tsubasa no 2-0, a desolar no chão um gigante como Neuer, é uma das razões pelas quais o Europeu será lembrado. Num ápice, num jogo, super-Mario é o candidato número 1 a melhor marcador do Euro. É fantástico o futebol.

Ver Pirlo deixa-me com saudades. Com 33 anos, este será, muito provavelmente, o seu último grande torneio. Fico com pena de não ter visto todos os jogos do Milan, todos os jogos da Juve, todos os jogos da Itália. Nem consigo imaginar o que devo ter perdido. Pirlo é um génio, um poeta, um sobredotado. Cada toque na bola, cada decisão, cada compasso é um hino ao futebol. Pirlo podia ser catedrático, juiz do Supremo, supra-cirurgião. Devemos todos agradecer por ter sido jogador de futebol. É, possivelmente, o único futebolista que posso comparar em classe a Zidane, e é, aconteça o que acontecer, o melhor jogador do Euro-2012.

Da Azzurra, é justo destacar ainda a grande exibição da defesa. Portentoso Buffon, que terá provavelmente nas luvas o título Europeu; mas também Bonucci, com Pepe, os melhores centrais do torneio, e Chiellini, hoje a lateral-esquerdo. No meio, Montolivo não engana, é qualidade da cabeça aos pés. A abertura para o 2-0 é de génio. E no ataque, honra seja feita ao enorme Europeu de Cassano. Só marcou um golo, mas foi a vida daquele ataque os jogos todos.

Alemanha - Contra qualquer expectativa, Khedira foi o melhor alemão no Leste. Pareceu que estava a começar agora a época. Marcou, assistiu, carregou e contagiou a equipa. Já se sabia que era um jogador de força e de rendimento, se calhar não estava tão claro o que poderia fazer mais próximo do ataque. Fica à consideração de Mourinho.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Perdemos


Às vezes, o quase chega. Desta vez devia chegar. Até onde fomos, por deus. Da selecção de cacos que empatou 4-4 com Chipre, no início da qualificação, até àquela cruz verde e vermelha a luzir enquanto púnhamos o Campeão do Mundo a jogar a final do Europeu nos penalties. Até onde fomos. Houve o circo, a preparação-catástrofe, a derrota com a Alemanha e o milagre com a Dinamarca, houve o Paulo Bento dos casos, o Ronaldo dos falhanços, e os pseudo-intelectuais todos a explicar que, no fundo, não éramos bons o suficiente, para, no fim, estarmos a 10 minutos e a dois postes de aterrar na final maldita que falhámos pela 6ª vez. Paulo Bento fez um trabalho excepcional, e tivemos a honra de ver uma equipa notável concretizar-se aqui, uma equipa que nos deixou aterrados de tão perto que estivemos. A equipa com a qual era possível. Podíamos perder este jogo mais 10 vezes seguidas, que era possível. Podia ter caído nosso, no último contra-ataque ou no último penalty. Até onde fomos, por deus.

Mas às vezes, como hoje, o quase não chega. Não me levem a mal, eu tenho todo o orgulho neles. Mas hoje não posso só gostar de ser português, de ter feito tudo, de ter ido longe, não posso ter só orgulho neles. É que ficar conformado com esta derrota, um segundo que fosse, era insultar o que esta equipa pôs em campo. Tenho todo o orgulho neles, mas hoje não posso ficar feliz pelo que eles conseguiram. Hoje o quase não chegava, hoje não era o dia de sermos os campeões morais. Hoje precisávamos que fosse nosso, eles podiam tê-lo feito nosso; se perdemos, perdemos tanto quanto se podia perder. Hoje não estamos orgulhosos, porque não ganhamos; hoje, a nossa maior honra é estarmos frustrados e impotentes e desolados porque perdemos. É que só perde quem pode ganhar. Nós pudemos. Hoje não temos de estar orgulhosos. Um bom perdedor é perdedor a vida inteira.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Porque é que vamos ganhar à Espanha


Vamos ganhar porque isso é a nossa História. Em quase 900 anos de existência comum, não foi ontem que eles passaram a ser os maiores. A nossa vida toda foi ganhar aos espanhóis. Inclusive para deixarmos de ser uma espécie de espanhóis num tempo distante. Depois para lhes chaparmos a independência segunda vez, com uma padeira que era o Ronaldo de Aljubarrota. E para assinarmos Tordesilhas pelo meio, enquanto eles tossiam o nosso pó nos Descobrimentos. E, no fim, para irmos bater com a coisa da independência terceira vez, aos Filipes que eram o tiki-taka da época.

Vamos ganhar porque perder era muito fácil. E porque o Nuno Gomes já lhes mostrou como elas mordem antes deles serem alguém nesta coisa do futebol, e porque o mister em funções assinou de cruz no show-down da Luz há um ano e meio, quando eles já tinham as estrelas todas no equipamento. Vamos ganhar porque, este ano, parimos a nossa terceira Bola de Ouro do século, e eles não ganham uma há mais de 50 anos.

Vamos ganhar porque esta Selecção é diferente. O treinador é excelente, o talento é brutal, o futebol respira qualidade, e o nosso jogo é valorizado, é isso tudo, mas é diferente pela maneira de estar. Não é uma selecção que veio animar isto; é um grupo com uma resiliência à flor da pele, que marca nos últimos 10 minutos, que vence nos descontos, que sabe ganhar. É uma equipa que não está em campo à espera de ser a melhor, como sempre, mas de ganhar, como nunca. É uma Selecção que, de cada vez que respira, diz que, desta vez, é a sério.

Vamos ganhar porque o melhor jogador português de todos os tempos está no pináculo da sua prodigiosa carreira, e porque essas coisas acontecem. O futebol é sensível aos teoremas do Universo, e este Ronaldo é a força que ninguém pode parar, é o tipo que nasceu para nos dar a alegria internacional das nossas vidas, o nosso primeiro grande título. Se não for agora não é nunca, e que me venha algum espanhol dizer com certeza que não vai ser amanhã.

Vamos ganhar porque há um momento na vida de toda a gente em que está escrito. Roubaram-nos esse dia os ingleses em 66, os gregos em 2004, os franceses tantas vezes. Um dia só saberemos que era suposto termos falhado, mas, nesse dia, vai ser tudo nosso. Nesse dia o jogo vai acabar e não vamos estar só orgulhosos do que fizemos; vamos sentir que cada bocado daquele caneco já é nosso.

Vamos ganhar porque toda a gente é imbatível uma vez na vida. O nosso dia começa a escrever-se amanhã.

Californication, a redenção


A season 1 é monumento.

A 2 não se transcende, mas concretiza-se. Tem o melhor secundário (Callum Keith Rennie, o fantástico Lew Ashby), e o melhor episódio (arrepiante a tocar Pearl Jam, como segue abaixo).

A 3 e a 4, no entanto, desiludem. Perdem o rumo, são redundantes, param no tempo. Ficam pelo espectáculo, pelas mulheres, pela cabeça perdida e pelos círculos de sempre, como se a série já tivesse dado o que tinha a dar.

A 5 é redenção.

Não é que Hank tenha deixado de ser bigger than life, ou que Californication tenha deixado de se gostar, mas tornou-se penosa a falta de codícia para reinventar aquilo, e para dar um golpe de asa, e surpreender. Sobrou espectáculo comercial, e o que estávamos todos à espera de ver, uma e outra vez. Assim, o caminho para o esgotamento era inevitável.

A season 5 foi recuperar-lhe o coração. Não por ter sido perfeita - o início não fazia adivinhar -, mas por ter querido finalmente seguir em frente. E pudemos ver outro Hank, não o que se destrói sozinho, impotente face à falibilidade do amor, mas o que já bateu vezes suficientes para poder ter distância, o que cala, sacrifica, e se afasta, o que está disponível para fechar finalmente um ciclo. Não que o feche, ao fim e ao cabo, mas essa maturidade de ver e viver as coisas, essa adultez de se colocar em perspectiva e de se afastar, dá o toque que lhe faltava, e dá-lhe ainda mais tamanho.

No fim, baralha-se e volta-se a dar - com caos, com impotência, com um nó no âmago -, mas já não houve a sensação de mais do mesmo. Californication mudou, mesmo que fique igual. Cresceu, como os protagonistas, fez jus ao seu potencial. Se a matriz continua a ser triste e o romance continua a escapar-se por entre os dedos, é porque não poderia ser de outra maneira.

A season 6 já foi confirmada. Não sei se há espaço para continuar a criar, mas a equipa ganhou, pelo menos, o benefício da dúvida. Para mim, contudo, a ter acabado agora, teria saído em grande. À sua altura.

P.S. - Apesar de um histórico infernal de mulheres - que inclui Addison Timlin, Eva Amurri Martino e Carla Gugino -, o jeito de Natascha McElhone continua a ser de um campeonato à parte.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Da grandeza


"Não gosto de falar de mim, desculpe. O futebol é a equipa, sempre foi. Eu fui feliz. Sou feliz, aliás. Era um jogador normal, vivi grandes emoções, partilhei a vitória e a derrota com colegas fantásticos." 

O imortal Di Stéfano, ao maisfutebol

EURO, #14: Ganhou a Espanha por falta de comparência


Espanha-França, 2-0

A Espanha não foi só infinitamente melhor. Ganhou porque, pura e simplesmente, o adversário esteve assustado demais para entrar em campo.

Os franceses vão para casa humilhados e feitos numa caricatura de si mesmos. Que tivessem estratégia era uma coisa; que abdicassem ostensivamente de jogar futebol é outra. Com alguns dos melhores jogadores do mundo, e com toda a sua experiência e passado internacional, a França foi uma equipa pequenina, em 5-4-1, que se derrotou muito antes de chegar ao estádio, que disse claramente que estar nos quartos-de-final, e ser passsada a ferro pela campeã do Mundo, era prémio mais do que suficiente. A França não foi a maior desilusão do Euro, até porque não se sabia ao certo o que esperar, mas fez o jogo mais deplorável que qualquer grande assinou na competição, e sai pela absoluta porta dos fundos, depois de uma fase de grupos onde, verdadeiramente, nunca chegou a jogar futebol.

O Europeu foi a continuação da travessia no deserto que começou em 2002, só interrompida pela despedida de um predestinado, em 2006. Benzema e Ribéry voltaram a não corresponder, e Blanc, não há volta a dar a isso, falhou em tudo o que se lhe poderia pedir. Mesmo que sem a gravidade do que aconteceu na África do Sul, também os casos não faltaram, com as discussões no balneário depois da derrota com a Suécia, ou Nasri a ofender jornalistas ontem à noite. A França sai mais pequena do que entrou, se é que isso era possível.

Para a Espanha foi tudo estapafurdiamente fácil. Gostava de saber o que pensou Del Bosque quando viu Blanc entrar com dois laterais direitos, três médios de contenção e sem Nasri. A Espanha, claro, não foi um fio menos do que se esperava, e, perante aquilo, seria sempre uma questão de tempo. Não que seja preciso dizer, mas Iniesta, Silva e Fabregas (também estranhei de início, mas tem de ser titular) foram magníficos, uma vez mais. Alba foi brilhante na assistência para o golo, e o bis do imperial Xabi Alonso no jogo 100 foi um bonito corolário.

Nas meias, toda a gente sabe a dimensão da equipa que vamos encontrar. São eles os favoritos, sem discussão possível. Só se pede uma coisa: que estejamos à altura de umas meias-finais do Europeu, e que honremos o nosso jogo. É que já todos vimos, e já sentimos na pele, em 2010, qual o resultado da ingenuidade de não querer jogar: a Espanha até pode demorar, mas acaba sempre por lá chegar.

EURO, #13: 5 minutos de graça, 85 de demolição


Alemanha-Grécia, 4-2

Prova bestial de força alemã.

No grupo da morte, a Mannschaft preferiu jogar pelo seguro. Certa sem acelerar, a pensar duas vezes, jogou quase só o que era preciso. Não é que tenha enganado alguém a respeito do seu potencial, mas sugeriu que, porventura, a sua carga ofensiva andasse por estes dias mais domada. Puro engano. Também é verdade que o adversário foi mais fraco do que qualquer outro do grupo B, mas os alemães entraram com sangue nos dentes, e arrancaram para um massacre mal ouviram o apito inicial. Deu para tudo, inclusive para Löw abdicar de todo o ataque titular, como se isso fosse uma coisa comum, sem perder um décimo de poderio. Foram quatro, poderia ter sido mais do dobro. A Alemanha deu um espectáculo ofensivo, e provou, se é que era preciso, que está no Europeu de corpo inteiro.

A Grécia guardará na memória aqueles 5 minutos depois do golo de Samaras, e até ao 2-1, em que pareceu ter sete vidas e desafiar todas as leis do universo. Nesses minutos, e pese o que a Alemanha estava a jogar, não terá havido nenhum alemão que não achasse ter sido apanhado num qualquer golpe de teatro, numa armadilha perversa, por parte de uma Grécia que já tinha escrito a história do jogo, e que se limitara, até ali, a entreter-se com a ilusão da presa alemã. Não foi mais do que Deus a jogar aos dados, claro, e Khedira fez questão de bombear as coisas de volta à realidade pouco depois, mas foram 5 minutos da magia metafísica que celebrizou os gregos. O 4-2 final foi altamente lisonjeiro - como disse Löw, a Grécia teve uma oportunidade e marcou dois golos -, mas traduziu a compostura que os gregos insistem em plasmar, independente às suas imensas limitações.

A Mannschaft segue com quatro vitórias, e salvo erro, pode ser a primeira selecção a ganhar todos os jogos de um Europeu. É evidentemente favorita nas meias-finais, mas a Itália será o seu maior teste até agora, e não haverá forma da derrota de 2006, no berço desta geração, não pairar na mente alemã.

Alemanha - O melhor jogo de Ozil até agora, e a confirmação de um Europeu magnífico para Khedira. Na retina ficou a estreia do entusiasmante Marco Reus (23 anos, que já custou 18M€ ao Borussia, para a próxima época), um extremo-direito que se percebe de alto nível, com um excelente remate. Na outra ala, na epopeia dos suplentes, também deixou marca Schürrle (21 anos, Leverkusen), um destro ainda verde, mas cheio de talento. Não bastava a Alemanha andar fortíssima há tantos anos, e está na calha outra geração de luxo.

Grécia - Numa equipa que só defende, destacar ironicamente dois avançados: Salpingidis (30 anos, PAOK), inventou na ala direita uma grande assistência e marcou o penalty, confirmando-se como o grego mais perigoso. Não é espectacular, mas é um extremo muito fiável e criterioso. Na ala-esquerda, mora, por sua vez, um tipo inestético, que parece tudo menos jogador de futebol, mas que, no seu jeito atípico, estica a equipa, deixa-a respirar, e ainda serve de referência: Samaras (27 anos, Celtic, e já andou pelo City).

domingo, 24 de junho de 2012

EURO, #15: A Itália teve de ganhar à Itália


Jogo bom, que o 0-0 não reflecte, e o mais competitivo dos quartos-de-final.

A Itália era favorita, e provou-o em campo. Não emulou o jogo de gala com que entrou no Europeu, mas é uma selecção atraente e positiva, à absoluta imagem de Prandelli. Falta-lhe o último terço dos velhos tempos, a vertigem do golo, mas o meio-campo italiano é um prato cheio de classe e qualidade. Não é só futebol sustentado, é criatividade a sair, muito bem suportada por grandes laterais. À equipa falta só intensidade e capacidade de concretizar: a Azzurra fez 25 remates à baliza (contra 8 ingleses...) e mesmo assim sujeitou-se a decidir as meias-finais na lotaria. Aí, felizmente, teve a compostura que se exigia para resolver, num contexto em que o benefício era todo dos ingleses. Uma das imagens maiores deste Euro será aquele penalty à Panenka de Pirlo. Pela classe e frieza extraterrestres com que o fez e, cabalisticamente, pelo momento em que acontece: Montolivo tinha falhado, a Itália estava com um pé fora, a pressão era máxima. Pirlo respondeu com aquela magistralidade ao universo, e o universo meteu respeitosamente a bola de Young na trave. E ganhou a Itália. Podem não acreditar, mas foi assim que aconteceu.

Por mais balofo que isto soe, a Inglaterra caiu de pé. Não brilhou hoje como, no fundo, não brilhou em nenhum dos jogos que fez, mas é uma das equipas deste Euro que guardarei com mais respeito e consideração. Sem estrelas, sem estatuto e com quase tudo contra, os homens de Sua Majestade fizeram um torneio de humildade, capacidade de sacrifício e vontade, que os levou à antecâmara das meias-finais, coisa que muito pouca gente imaginaria para eles. Era tudo menos provável que uma selecção tão egomaníaca e falível como a inglesa pudesse dar um pontapé na atitude, e viesse jogar com a velha disciplina italiana, mas aconteceu, e porque há talento e juventude no coração da equipa para muito mais, talvez tenha nascido aqui uma selecção para ter em conta nos próximos anos. Não sei se Hodgson seguirá ou não no comando técnico dos Três Leões, mas arrisco a dizer que foi ele o treinador-revelação do Euro: calou-me a mim e calou quase todos, e devolveu à Inglaterra a competitividade, a seriedade e o respeito próprio.

Esta Itália está onde merece. Aliás, nas meias-finais estarão as quatro melhores equipas do Euro-2012.

Itália - Grande jogo do miolo. Pirlo deu um passo atrás, e potenciou que os outros surgissem. De Rossi passou de líbero para jogar quase à frente de Pirlo, com toda aquela sua força em campo; Marchisio continua a deixar qualidade por onde passa; e o MVP foi Montolivo (27 anos, novo médio do Milan) que, na primeira titularidade, andou a destilar magia na casa do número 10. Jogo brilhante, quase ensanguentado por aquele penalty falhado. Abate, à direita, e Balzaretti, à esquerda, voltaram a fazer um jogo magnífico nas alas, eles que começaram ambos como laterais suplentes. Diamanti (29 anos, Bolonha), um avançado que chega muito tarde a estas andanças, foi um ás a saltar do banco: rápido, muito móvel, deu uma volta ao jogo, e quase marcou. No oposto, referir Balotelli: ao quarto jogo, continua a não mostrar nada. Passeia-se com toda aquela força no ataque, só para falhar golos e ser sempre inconsequente. É um dos flops maiores do Euro, e a equipa perde com a sua presença em campo.

Inglaterra - Brilhante a defesa. Hart provou-se como um dos maiores guarda-redes do continente, numa lacuna histórica inglesa, e é uma certeza para a próxima geração. Lescott foi o mais constante, e hoje foi ladeado por um Terry melhor em campo: imperial, como nos bons velhos tempos. Johnson e Cole foram chaves no desenho inglês: tanto impecáveis atrás, como os maiores desequilibradores da equipa no último terço. Saem ambos com um belíssimo Europeu. Mesmo que hoje menos em evidência do que no resto, não seria justo deixar de salientar que o eterno Gerrard foi o melhor inglês do torneio.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O nosso Euro #4: Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam


Meias 2000, final 2004, meias 2006, pelo menos meias 2012. Nos últimos 12 anos, só a Alemanha fez tanto como esta nesga de terra debruada de mar. Podemos ser pequenos, e pobres e pouco importantes em quase tudo, mas, dentro do campo, somos tão bons como os maiores. Chamem-lhe ópio das massas, mas aqui jogamos, aqui somos tidos e achados, aqui quase todos gostavam de ser como nós. Aqui, vamos dormir à noite com o brilho dos campeões. O nosso futebol não é estupidificação; é o nosso maior motivo de orgulho internacional, é o nosso maior exemplo. Viver este sucesso é a única forma de estar à altura do que esta equipa representa: que devemos parar de ter pena de nós próprios, e, simplesmente, irmos ser melhor do que as expectativas.

Fizemos mais um grande jogo, o jogo que se nos exigia, quando éramos nós quem tinha tudo a perder. Desta vez, até passámos impávidos à crueza da ampulheta, e selámos a coisa nos últimos dez minutos, a fase mais sensível do jogo, e onde tradicionalmente não temos a frieza que se quer. Não foi mais espectacular do que contra a Holanda mas, colectivamente, foi o nosso melhor jogo. A República Checa não foi nenhum adversário banal. É uma equipa pragmática, que soube sempre estar em campo, e que jogou tão bem como podia com as armas que tinha. Como avisou Paulo Bento, perdermos um fio de humildade que fosse, teria custado caro. Mas não perdemos, de facto. Sujeitámo-nos a jogar feio quando foi preciso, a ter paciência, a nunca ferver em pouca água, e a fechar com critério as asas donde poderia vir todo o perigo checo.

Fomos sempre maduros, até a soltar o talento. E, mesmo sem jogar em vertigem ofensiva, rematámos 20 vezes, duas no malfadado poste que nos persegue, e merecemos cada grão de ser felizes.

Dito de uma forma simples, acho que Ronaldo ganhou hoje a sua Bola de Ouro. Nos dois jogos em que jogávamos tudo, em que sonhávamos tudo, ele foi tudo o que podia ser. 3 golos, já o melhor marcador, umas impensáveis 4 bolas no poste, e uma verdadeira cavalgada por entre holandeses e checos, finalmente possuído, a ser maior do que eles todos. Desprezar Ronaldo é passatempo nacional, houve dúvidas e a Dinamarca pôs tudo em causa. Hoje, contudo, não há ninguém que possa dizer que estes 10 milhões da periferia da Europa estariam nas meias-finais se não fosse ele. Não há mais nada a provar.

Para nós, isto começa agora. Não era lógico que estivéssemos nos quatro melhores do continente, mas era isso que exigíamos, e mesmo que não faça sentido, este é o nosso lugar. Agora, o Campeão do Mundo ou a nossa besta negra terão de vir descobrir por eles próprios se são bons o suficiente.

Equipa - Coentrão e Moutinho assinaram de cruz a entrada para a equipa do Euro. Coentrão confiante é um lateral do outro mundo, capaz de tudo, e tudo inclui fintar um flanco de jogadores adversários. É o melhor lateral da competição e, a este nível, é melhor do que Marcelo. Moutinho já fez dele aquele meio-campo. Na segunda-parte deram-lhe mais uns palmos, e o nosso Pequeno Genial escreveu um tratado sobre como deveria ir jogar para a melhor liga do mundo. Que inteligência, que classe, que fiabilidade. Herda, com toda a altivez, a camisola de Deco e Rui Costa.

Veloso e, sobretudo, Meireles fizeram o seu melhor jogo na competição até agora. Foi preciso muita maturidade para segurar o jogo como segurámos, e ambos apareceram. Meireles até andou a abrir avenidas para Ronaldo e Nani. Como já escrevi, foi, acima de tudo, o nosso jogo mais completo como equipa. Nani não foi explosivo, mas foi muito inteligente, Pepe continua a ser aquilo tudo, João Pereira e Bruno Alves continuam a não comprometer. Custódio entrou bem, e até Hugo Almeida teve uma estreia feliz, e provou ser opção para o que falta.

Sonhemos.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Radio Days


"The scene is Rockaway. The time is my childhood. It's my old neighborhood, and forgive me if I tend to romanticize the past. I mean, it wasn't always as stormy and rainswept as this. But I remember it that way because that was it at its most beautiful. In those days the radio was constantly playing at our house."

terça-feira, 19 de junho de 2012

EURO, #12: Ibracadabra!


Suécia-França, 2-0

Dito de uma forma simples, é o seguinte: a Suécia foi a melhor equipa do grupo D. Não teve maturidade para segurar vantagens, sucumbiu à pressão, e é por isso que já entrou hoje em campo em último. Mas foi, sem sombra de dúvida, a equipa que jogou melhor futebol, e que o fez mais vezes, e a única que nunca mostrou um vazio de ideias. Nenhum jogo sueco foi tempo perdido.

Hoje, mesmo que já não houvesse nada a ganhar, os suecos vingaram-se finalmente, e saíram pela porta da frente, como mereciam, golpeando na asa a França sobranceira de sempre. E, mais importante, Ibrahimovic teve uma despedida à sua altura, com o golo do torneio. Já o disse aqui uma vez, e repito: numa selecção que é, apesar de tudo, de segunda linha europeia, é impressionante o que Ibra consegue render. É um avançado absolutamente excepcional. Hoje, aliás, a excelente linha avançada sueca voltou a dar cartas, acabando com o 2º ataque da fase de grupos. Larsson (27 anos, Sunderland) e Toivonen (25, PSV) foram outras boas notícias do Europeu.

A França fez a proeza de acabar a fase de grupos sem mostrar nada, a perder a liderança para uma equipa já eliminada, e a despencar aos pés do Campeão do Mundo nos quartos-de-final. Ver jogar os franceses é um exercício de tolerância, tal é a sobranceria bacoca da equipa, o regime de frete, e o ritmo lento. Os franceses não têm desequilíbrio nem criatividade, são pouco agressivos, e limitam-se a passear no campo à espera que um dos seus anéis invente alguma coisa. Só não digo que são favas contadas para a Espanha porque Nasri, Ribéry e Benzema podem inventar alguma coisa a qualquer momento, e porque me habituei a ver a França fazer de tudo, mas, até agora, a equipa de Blanc foi uma das selecções mais sofríveis do torneio. Lloris foi o melhor em campo hoje.


Inglaterra-Ucrânia, 1-0

O grupo D não foi, definitivamente, o mais bem jogado, mas acabou por ser o mais emocionante.

O grande vencedor tem um nome: Roy Hodgson. Desacreditado, e em fim de carreira, pegou numa equipa de miúdos, ceifada por uma Federação estranha e por uma perturbadora onda de lesões, e acaba a ganhar o seu grupo a uma França que tinha os trunfos todos, com a cereja no topo do bolo de despistar a Espanha nos quartos. A Inglaterra não brilhou, e diria mesmo que não foi a melhor equipa em campo em nenhum dos três jogos. Isso só torna, porém, mais notável o trabalho do seleccionador. Os ingleses não esbanjam talento, mas aprenderam a ser uma selecção humilde, esforçada e conscienciosa, que não tem vergonha das suas limitações. Com alguma estrelinha pelo caminho, fez até agora muito mais do que lhe seria de exigir, e dificilmente alguém faria melhor do que Hodgson. Nos quartos, a Itália é favorita, mas menosprezar esta Inglaterra seria um erro grande.

A Ucrânia quis muito seguir em frente, é verdade que teve um golo de Milevsky mal invalidado, mas, apesar de ter rematado muito, de ter subido muito, não teve engenho para fazer a diferença. Faltou frieza e experiência aos homens de Blokhin, sobretudo depois do golo de Rooney. Os ucranianos foram, ainda assim, um concorrente de mérito, que valorizou o espectáculo, e terão sempre aquele jogo inaugural de Sheva para contar.

Inglaterra - Gerrard é um dos jogadores do torneio. Numa Inglaterra diferente, que teve de baixar as expectativas, o lendário capitão do Liverpool é tudo o que a equipa podia pedir. Dá-lhe densidade, nível, agarra-a ao jogo, e, aos 33 anos, ainda vai partir pedra no último terço: 3 jogos, 3 assistências! Magnífico. Numa equipa onde "os miúdos" têm brilhado à vez, hoje foi o dia de Ashley Young: grande carrilhamento de jogo à esquerda. Rooney, claro, pagou o bilhete. E Hart continua a marcar a diferença, jogo após jogo.

Ucrânia - Konoplyanka é o nome a reter. Aos 22 anos, este deve ser o Verão em que abandona a Ucrânia. É o jogador mais talentoso da equipa, o mais entusiasta e o mais desequilibrador, fortíssimo a entrar da esquerda para o meio. O melhor em campo é provável que tenha sido Gusev (29 anos, Dínamo de Kyev) que, adaptado à lateral-direita, incendiou o flanco o jogo todo.

EURO, #11: O dia em que a Roja tremeu


Croácia-Espanha, 0-1

Poucos poderiam imaginar que a Espanha entrasse nos últimos minutos do seu jogo com o risco verdadeiro de personificar a maior hecatombe que o futebol europeu veria em muito tempo. A verdade é que os homens de Del Bosque menosprezaram a Croácia e acabaram a brincar com o fogo: no último quarto-de-hora, Rakitic teve na cabeça o golo de ouro, negado por um Casillas colossal, e Corluka sofreu um penalty que não foi marcado. A Espanha especulou excessivamente com o seu talento, foi passiva, perante um adversário totalmente disponível, que nunca levou a sério, e sujeitou-se a uma segunda-parte perturbada, assim que o onze de Bilic lhe perdeu o respeito. O golo da Croácia não teria chocado ninguém que estivesse a ver o jogo. Esta Espanha, contudo, já viveu muita coisa, e, apesar de ter tremido, pôde contar com as âncoras de sempre: depois de Casillas, Xavi fez a sua primeira obra de arte do Euro, e matou o sonho quadriculado. Como escreve a Marca, os espanhóis "sofreram como nunca, e ganharam como sempre", mas provaram ser falíveis, e essa é a nota a reter para o que falta.

A eliminação da Croácia é o mais ingrato do torneio até agora. Tanto futebol jogaram os homens de Bilic: capacidade física, qualidade técnica, futebol positivo, coração, atitude, competitividade, uma mescla magnífica entre experiência e novidade. Os croatas foram um nome grande do Euro, bateram-se de igual com os gigantes, e não mereciam ir embora assim. Era justo que tamanha qualidade fizesse parte das 8 melhores equipas do continente. Bilic, de saída para o Lokomotiv de Moscovo, confirmou-se como um treinador entusiasmante. Modric começará a época, com toda a certeza, no grande europeu que merece. Mandzukic também irá mais longe do que a Bundesliga, numa equipa de certezas, como Pletikosa, Corluka, Rakitic ou Srna, e de revelações, como Strinic e Jelavic. Os croatas fizeram do grupo C o outro grupo da morte.

Itália-Irlanda, 2-0

No outro campo, a Azzurra não deslumbrou, mas fez o que lhe competia, e só não ganhou o grupo devido ao golo espanhol em cima da hora. Prandelli mexeu na equipa, mas os melhores foram os de sempre, Pirlo e Cassano, desembocando o fim do jogo na redenção acrobática de Balotelli. No imediato, não é claro até onde podem chegar os italianos: foram dos primeiros a deslumbrar, no jogaço contra a Espanha, mas envergonharam-se no resto. No provável encontro com a França, nos quartos, saberemos se a armada transalpina voltará a corresponder nos jogos grandes, ou se ainda lhe falta mesmo qualquer coisa.

A romântica Irlanda de Trap, por sua vez, começa hoje a sonhar com o Brasil-2014. Que tenha toda a sorte do mundo.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

EURO, #10: A Alemanha em velocidade cruzeiro, a Dinamarca a afundar-se de pé, e a Holanda rebocada para Amesterdão


Dinamarca-Alemanha, 1-2

E pensar que tínhamos medo de um arranjinho da Mannschaft. Claro que não. A equipa de Low é uma máquina que não se desvia um milímetro do seu objectivo, pelo que, com maior ou menor dificuldade, ganhou naturalmente ontem, tornando-se na única equipa que acaba os grupos com 3 vitórias. Sem grande esforço, os alemães passaram incólumes pelo grupo da morte, e até evitam (teoricamente) a Espanha antes da final. Tudo fácil. A única dúvida é saber como é que a equipa responderá a um cenário desfavorável, coisa que ainda não teve de enfrentar neste Europeu.

Nos quartos, teremos um apaixonante Alemanha-Grécia, como dizia ontem uma jornalista da TVI, possivelmente o jogo mais político desta geração. Uma coisa é certa: o jogo transcenderá o campo, e será mais do que uma final para os gregos, que morrerão antes de se darem por vencidos. Palpita-me que a Alemanha vá passar um mau bocado e, como sempre, terei de ser pelo underdog. 

A Dinamarca vai-se embora com 3 pontos, mas foi uma das boas equipas do torneio. Noutro grupo, teria provavelmente seguido em frente. Morten Olsen, ao fim de 12 anos no banco, construiu uma equipa adulta e disciplinada, segura de si, com uma defesa fiável, capaz de potenciar individualidades, e de se bater com os melhores. Marcou aos três grandes, o que é necessariamente de salientar. A figura foi Krohn-Deli, um avançado de primeira água, a jogar a partir da ala. É muito inteligente, tem finta e faro de golo. Aos 29 anos, não está a fazer nada no Brondby. Também Bendtner deve ter garantido no Euro um futuro próximo para a carreira. Se calhar não é jogador para o Arsenal, mas é um 9 imponente, que pode dar jeito a muito boas equipas europeias. 

A Holanda é, evidentemente, o escândalo do Europeu. Vice-campeã do mundo em título, e com a constelação de sempre de melhores do planeta, os holandeses saem de cena com umas impensáveis três derrotas, um futebol sofrível e um mar de casos. Perderam, e foram muito piores do que qualquer outra equipa do grupo. É o fim de ciclo para Bert Van Marwijk que, apesar da eficiência no Mundial, nunca esteve à altura do histórico futebol total da Laranja Mecânica.

domingo, 17 de junho de 2012

O nosso Euro #3: As saudades que eu já tinha


Sim, fomos aquilo tudo.

Jogámos, quisemos, corremos, marcámos, fomos futebol da cabeça aos pés, fomos a equipa de 2000 e de 2004 e de 2006 outra vez, e cavalgámos a Holanda e achincalhámos um grupo da morte outra vez. É isso que nós fazemos. Não somos só bons; temos talento e alma para sermos o que quisermos, e hoje, como no rastro desta década magnífica, quisemos ser muito melhores do que isso. O mostrengo até nos tentou, naquele pontapé fulminante de Van der Vaart, mas o homem do leme sabia que hoje era mais do que ele, hoje éramos todos, e só não marcou três vezes porque o poste quis fazer parte da festa.

Este jogo entra directamente para a galeria de ouro. Voltámos a ganhar a um grande 6 anos depois, passámos um grupo da morte, como sempre, brilhámos, enchemos o campo, e entusiasmá-mos tudo em que tocámos. Conseguimos, outra vez. Este é o meu Portugal, o Portugal com o qual cresci: uma equipa vertiginosa, alegre e corajosa, capaz de nos fazer acreditar que podemos realmente ganhar qualquer jogo. Sermos completos do capitão ao 23º, apitarem o fim do jogo, e sentirmo-nos os melhores do mundo. Tão bem que sabe, tão bom voltar a ser assim.

Sim, Ronaldo foi aquilo tudo.

Não porque hoje correu bem, mas porque responder assim está-lhe no sangue. Até podem haver jogos em que nos falhe, mas, como qualquer gigante, saber que ele está lá faz toda a diferença. Hoje foi o dia em que o Ferrari saiu finalmente da garagem, logo para ir atropelar o vice-campeão do mundo, um dream team de 6 avançados a quem ele roubou toda a luz, com duas no saco, duas no poste, duas em Stekelenburg, e outra com açúcar para Nani. O primeiro português a marcar em 5 fases finais, o 5º europeu da História a fazê-lo. Este é Ronaldo: não o que é maior do que os outros todos, mas o que, por estar lá, faz com que valha sempre a pena acreditar, mesmo que sejamos pequenos, e que isto não seja o Real. Este é o Ronaldo melhor do mundo.

Não fomos campeões hoje, é verdade, mas ganhámos uma equipa. É quanto baste. Agora, como diria Torres, deixem-nos sonhar.

Equipa - O 2º golo é como um espelho do diamante que segura o onze. Recuperou Pepe, isolou Moutinho, assistiu Nani, marcou Ronaldo. Jogaram os 4 a um nível estratosférico. Nani, mais um jogaço, mais uma assistência, todo o perfume de um dos melhores extremos do mundo. Como é bom tê-lo a corresponder ao estatuto, tê-los todos de uma vez. Que pena aquele golo falhado. Moutinho confirmou hoje o Europeu brilhante que está a fazer. Começou preso, mas à medida que a Holanda se descuidou, abriu um livro digno de um pequeno Deco. Magnífico. Do colosso chamado Pepe, terei de escrever aqui todos os jogos que é o melhor central do Europeu.

Ao núcleo, juntar hoje um elogio improvável: João Pereira foi o nosso Coentrão. Que grande jogo, agressivo atrás, a alimentar o ataque de forma constante e, como corolário, obviamente, aquela bola à Zidane para o 1-0. Muito bom.

É uma vitória especial para Paulo Bento também: para mim, e para muitos outros, não mudar a equipa era um problema; o onze, porém, foi o mesmo pela terceira vez, e ganhou ele a aposta. Ainda bem. Às vezes não tem a ver com quem joga, mas com o que se joga, e o espírito desta equipa é mesmo um dos seus maiores trunfos.

Venha a República Checa. Temos o fantasma do Poborsky para expurgar.

Haja Portugal


Os golos do Pauleta em Eindhoven. O penalty do Figo no último minuto nas Antas. O golo extraterreste do Maniche em Alvalade. A batalha de Nuremberga.

Nos últimos 10 anos, pusemos os holandeses fora de três competições internacionais. Não os deixámos ir ao Coreia-Japão, e ganhámos uns quartos e umas meias-finais nos quatro anos seguintes. A par do ingleses, não há coisa que nos corra melhor.

Eles são sempre gigantes, claro, vão tendo uma e outra constelação, mas nós temos química com os holandas. Não há nada que eles possam fazer. Hoje, só temos de honrar essa tradição.

O Euro não tem sido um paraíso. A preparação foi desconfortável, o arranque ingrato, e no fim do jogo com a Dinamarca estávamos com um pé fora. O melhor jogador do ano tem sido só humano, e sentimo-nos incertos, vulneráveis, sentimos que nos falta qualquer coisa. Está nas nossas mãos.

É que, ao contrário do próprio adversário, a Selecção não está partida emocionalmente. Temos um grupo muito bom e generoso, mérito de quem o orienta. Temos alguns dos melhores do mundo, temos espírito, nervo e talento para mais. Temos Ronaldo para mais, e precisamos dele. Precisamos de uma Selecção confirmada, ganha, plena e à altura das coisas maiores que estão para vir.

Nunca ficámos nos grupos de um Europeu, nunca falhámos num grupo da morte, e esta equipa é boa demais para essa cruz. Hoje está nas nossas mãos ser a Selecção que podemos ser.

Haja Portugal.


P.S. - Parte da bola está do lado de Paulo Bento. Depois de dois jogos com o mesmo onze, há que saber ler. Custódio, acima de todos, é uma opção lógica e necessária. Perante um ataque de luxo, é vital ter um trinco forte pelo ar, agressivo, que equilibre, e apoie os centrais.

Na lateral-direita, Miguel Lopes é mais duro e mais alto do que João Pereira, defende melhor, e é menos imprudente. Faria muito jeito.

Num jogo em que é previsível que não tenhamos bola durante bastante tempo, é inócuo ter Postiga numa lógica de apoios que não vão chegar, como se viu contra a Alemanha. Nélson Oliveira impõe-se: joga em profundidade, arrasta a equipa, dá-lhe dimensão.

Paulo Bento tem a palavra. Que acerte, seja como for. 

sábado, 16 de junho de 2012

EURO, #9: Os suspeitos do costume


Grécia-Rússia, 1-0

Caiu a Rússia.

Não vi o jogo, mas é necessariamente o primeiro marco do Euro. A eliminação da equipa de Advocaat é um daqueles imponderáveis do futebol. Era o plantel mais talentoso, com algumas das figuras do torneio até agora, foi, de longe, a melhor equipa do grupo, e uma das melhores do Euro, abriu com uma goleada, estava motivada, partia em primeiro, bastava-lhe um empate, e o adversário estava em último. Era tudo tão favorável, que se tornou perniciosamente perigoso; e o tudo na mão tornou-se em tudo a perder, quando Zhirkov pôs a bola nos pés de um velho caminhante chamado Karagounis. Não podia ser de outra maneira.

A Grécia tem 7 vidas, já todos devíamos saber. Mais ninguém seria capaz de voltar dos mortos para estragar a festa desta maneira. Os gregos chegaram à última jornada irrelevantes, e nem nos piores sonhos russos poderiam fazer uma coisa destas. Jogaram o pior futebol, é verdade, mas a sua qualificação não deixa de ser um prémio justo: primeiro porque foram gravemente prejudicados nos dois jogos anteriores; depois porque tamanho carácter não anda por aí normalmente.

No fim do dia, o talento perdeu para a capacidade de sacrifício. A Rússia, que já olhava vertiginosa para as eliminatórias, terá de ver a jogá-las o parente pobre do grupo. É assim o futebol. E ninguém pode dizer que o Euro está a ser monótono.

Rep. Checa-Polónia, 1-0

Nem de perto com a mesma dimensão, mas igualmente surpreendente.

A República Checa saía na frente, de facto, mas não se sabia até que ponto era fiável a vitória frente à Grécia; os polacos, pelo contrário, mesmo que ainda sem triunfos, tinham entusiasmado nos dois primeiros jogos, e tinham o mar de gente a seu lado para o forcing final.

O resultado, contudo, não oferece discussão. É verdade que a Polónia foi melhor na primeira-parte, naquele seu registo reactivo. Chegou à frente, rematou, podia ter ido para o intervalo a ganhar, mas nunca foi capaz de causar um desconforto continuado aos checos. Estes nem precisaram de rematar à baliza na primeira-parte; o empate era favorável, e tudo o que fizeram foi travar o ritmo e especular com o jogo.

Acontece que, no outro campo, a Grécia marcou nos descontos, e o nulo, de repente, já não servia. Foi o mote para os checos, que viriam a dar um autêntico festival de maioridade na segunda-parte. Assim que a isso foram obrigados, sufocaram a Polónia, que não voltaria a aparecer na partida, demonstrando uma capacidade admirável para fazer vingar a sua estratégia. O golo surgiu com toda a naturalidade do mundo.

A verdade é que a goleada inicial desvalorizou muito injustamente a equipa de Bílek: podem não ter uma proposta de jogo apaixonante, mas os checos são uma equipa profundamente adulta, que gere o jogo como poucos, e que ainda pode causar problemas a muito boa gente. Os polacos entusiasmaram, mas ainda são novos para estas coisas.

Rep. Checa - Václav Pilar, decore-se este nome. Tem 23 anos, e já foi contratado pelo Wolfsburgo ao Viktoria Plzen checo. Andava nas bocas do mundo pelos dois golos que marcou, mas ainda não o tinha visto. Devo dizer que, por si só, é o jogador mais entusiasmante que descobri neste Euro. Destro, a partir da extrema-esquerda, é um baixinho eléctrico que dura o jogo todo: recupera bolas, corre, cruza, remata, nunca vai ao chão. Não é um portento técnico, mas é um tormento permanente para qualquer defesa. Absolutamente impressionante.

A outra estrela foi um canhoto na extrema-direita, também ele recém-contratado pelo Wolfsburgo ao Plzen: Jirácek (26 anos) voltou a marcar, e voltou a ser decisivo. Grande pé esquerdo. É um jogador diferente do colega de ala, mais requintado, mais técnico a rematar e a meter a bola. Também os laterais fizeram um grande jogo: Selassie é sensacional na direita, e, na minha opinião, o melhor do Euro até agora; Limbersky (28 anos, também do Plzen), vingou sobretudo pela força no lado oposto. No coração do ataque, Baros ainda é instrumental, mesmo que já não seja o sensacional ponta que deslumbrou no Euro-2004.

Polónia - Lewandowski e Błaszczykowski chegaram a iludir que a Polónia podia lá chegar, mas não mais do que isso. Apesar de tudo, o Euro foi uma confirmação para os avançados do Borussia. A canhota de Obraniak (27 anos, Bordéus) também apareceu. Finalmente, Tyton, o guardião de recurso que ganhou a baliza na primeira jornada, provou qualidade.

EURO, #8: A (surpreendente) lei do mais forte


Suécia-Inglaterra, 2-3

Vi a 2ª parte. Sem ser jogado com especial estratégia de parte a parte, será justamente lembrado como uma das partidas mais emocionantes do Euro.

Confesso que toda a prestação da Inglaterra foi uma surpresa. Desde logo marcar 3 golos, o que parecia impossível depois do primeiro jogo. 2 golaços (mais um grande pontapé feliz), de bola corrida, fruto de puro talento individual. Depois, o acerto de Hodgson: Carroll a titular, a solucionar uma pecha incontornável do primeiro jogo, e a entrada-bilhete-de-loteria de Walcott. Finalmente, a prodigiosa capacidade de reacção de uma equipa desmaiada frente à França, a ir virar a reviravolta sueca. A Inglaterra acertou tanto hoje, que estava quase condenada a ganhar. E quem sabe não ganhou também uma equipa.

A Suécia é a segunda equipa eliminada do torneio, o que destoa absolutamente da sua valia. Tal como frente à Ucrânia, os suecos mostraram uma grande capacidade para estarem ligados ao jogo, e não é à toa que conseguiram dar a volta ao golo de Carroll. O problema é que essa electricidade em campo foi tanto a sua grande virtude, como o seu maior defeito: hoje, como no primeiro jogo, não tiveram maturidade para desacelerar o ritmo, e controlar a partida; hoje, como no primeiro jogo, perderam depois de estar a ganhar, e assim não há nada que valha.

Suécia - Menos exuberante hoje do que na estreia, faltou a Ibrahimovic o golo que teria feito a Suécia viver. Mesmo assim, houve nele futebol e vontade para muito mais do que a eliminação precoce. Notáveis os dois golos de Mellberg. Na esquerda, Martin Olsson (24 anos, Blackburn) despede-se como um dos melhores laterais da competição.

Inglaterra - Walcott, necessariamente. Nunca fui fã, mas não há como negar que entrou e ganhou o jogo. Mais até do que o pontapé no escuro, o trabalho perfeito no 3-2. Grandes golos tem tido o Euro, mas o de Welbeck vai lá bem para o topo: uma majestade aquele calcanhar a matar o jogo. Crucial a presença de Carroll, glorificada com aquela grande cabeçada: há espaço para o gigante-maravilha. Mais uma grande assistência para Gerrard, que, na sombra, vai escrevendo a história inglesa neste Euro. E Hart, novamente lá quando foi preciso.

Ucrânia-França, 0-2

A nível individual, era possivelmente um dos jogos mais desequilibrados da competição. A Ucrânia, no entanto, brilhara no jogo inaugural e saía na liderança do grupo, pelo que a dúvida era saber se esse estatuto era suficiente para condicionar uma França que ainda não tinha mostrado brilho nenhum. Não foi. Não vi o jogo, mas saliento o dedo de Blanc na vitória: tirou do miolo um erro de casting chamado Malouda, recuou Nasri recuou e estreou Ménez, que acabaria por fazer o 1-0. Nota, também, para as duas assistências de Benzema: fica a faltar o golo. Les Bleus já não devem deixar fugir a liderança do grupo que se antecipava ser sua desde o início; a Ucrânia jogará a última jornada só a depender de si.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Daqui a muitos anos vamo-nos lembrar deste 4-0. E ainda vai arrepiar

EURO, #7: A avalanche espanhola, o coração irlandês e um joker chamado Croácia


Espanha-Irlanda, 4-0

Ópera espanhola.

Não há muito a dizer da Roja para além da vénia aos homens de Del Bosque: perante uma Irlanda humilde, a Espanha não perdoou e ofereceu o primeiro festival da competição, num desfrute contínuo do seu próprio talento, que rendeu o privilégio de durar até ao último minuto. A Espanha toca e toca e toca com a arte dos predestinados, como num magnífico concerto a solo, e podia ficar a fazê-lo por dias. O empate com a Itália não tinha posto nada em causa, mas se dúvidas havia, os Campeões em título são, uma vez mais, a melhor selecção do torneio.

A Irlanda foi impotente no campo, perante tão grande futebol, mas acredito que será lembrada por muito tempo pelo que fez fora dele: com a equipa a ser esmagada, os adeptos fizeram questão de cantar de pé, e incessantemente, durante os últimos 10 minutos, num dos espectáculos mais arrepiantes que me lembro de ver em alta competição. Fair-play, dignidade, e orgulho, o futebol tão bonito quanto pode ser. A Irlanda é a selecção mais modesta do Euro, mas tamanha alma merece cada minuto de competição.

O Espanha-Irlanda conjugou o melhor dos dois mundos. Foi um hino ao futebol.

Espanha - Avaliar a equipa era como ir avaliar o Louvre. Fique a nota ao despertar do grande ponta-de-lança que é Fernando Torres, e ao golo extraterreste de David Silva.

Irlanda - A equipa de Trapattoni pode ser a pior defesa da competição, mas é justo que tenha um gigante na baliza. Muito bem Shay Given, do alto dos seus 36 anos.

Itália-Croácia, 1-1

Outro grande jogo, num Euro que tem tido futebol a rodos, mérito da "segunda liga" do continente.

Apesar da valia croata, não esperava que a Itália falhasse. Depois do jogaço frente aos espanhóis, este era o momento de confirmação da Azzurra, e o empate final deixa-a numa situação bastante desconfortável para a última jornada, ingrata para o que a equipa vale. Os homens de Prandelli não foram tão exuberantes como no jogo inaugural, porque tiveram muita dificuldade em contrariar o jogo musculado dos croatas, mas estiveram muito longe de jogar mal. Liderados por um mago chamado Pirlo, e com Marchisio e Cassano muito fortes no último terço, os italianos estiveram sempre ao nível do jogo e, apesar da óptima réplica croata, o 1-0 fez crer que o jogo tinha sido selado com a típica maturidade transalpina.

A Croácia, contudo, não esteve sequer perto de desistir da partida. Ainda não tinha visto a equipa de Bilic, e subscrevo mais esta excelente surpresa: em 4-4-2, a Croácia enche o campo. É um portento físico temperado de forma sublime pelo talento de Modric entre linhas, que usufrui de grandes laterais, e de uma dupla de avançados duríssima. Os italianos foram vítimas de um desgaste massivo, e a verdade é que nunca conseguiram controlar o jogo. Os croatas tanto sacudiram que marcaram mesmo (cruzamento do lateral, 3º golo do imenso Mandzukic) e, mais do que isso, chegaram ao ponto de, já nos descontos, contra-atacarem a Itália com violência. Selecção intensíssima esta Croácia, que enfrentará a toda-poderosa Espanha com aspirações legítimas de seguir em frente.

Itália - Pirlo, excepcional uma vez mais. Pelo golo perfeito, mas, sobretudo, pela forma tão superior como se mexe no coração do campo, a manipular a seu bel-prazer os ritmos do jogo. Não merece, acima de todos, ir para casa nos grupos. Cassano voltou a perdoar, mas voltou a ser o melhor do ataque transalpino: sempre em jogo, sempre perigoso, de um extremo ao outro. Hoje, também surgiu Marchisio, a aparecer muito bem na cabeça da área croata. Pletikosa negou-lhe duas vezes um golo certo. Finalmente, Bonucci: eficiência e classe, na linha dos grandes centrais italianos.

Croácia - Que grande jogador é Mandzukic (26 anos, Wolfsburgo): um 9 clássico, grande, duro, dos que maltrata a defesa o jogo todo, e que não perdoa. Modric não é novidade, mas equilibra o esquema de Bilic como se tivesse sido feito a pedido. Talento puro, a dar propósito ao poderio físico dos colegas. Muito bons Srna (direita) e Strinic (esquerda, 24 anos, Dnipro): não sei se haverá selecção com melhor dupla de laterais. Para acabar, Pletikosa, em pré-reforma, mas a provar que ainda é um tremendo guarda-redes.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

EURO, #6: A Mannschaft nem teve de acelerar


Holanda-Alemanha, 1-2

Tudo fácil para a Alemanha.

Se, contra Portugal, os homens de Low pareceram regrados, hoje deram a ideia de estarem meramente a especular com o jogo. A sensação que fica é que a Alemanha se dá ao luxo de liderar o grupo sem ter mostrado ainda os trunfos todos, e hoje não foi preciso. Frente a uma Holanda que começou com vontade, mas foi inofensiva, os alemães acabaram por marcar uma e outra vez com uma naturalidade bestial. Depois, com toda a paz do mundo, no desconsolo laranja, a Mannschaft pôs em campo o seu jogo de transições e tabelas rápidas, e chegou a fazer da partida muito penosa para os holandeses.

A Holanda é o grande falhado até agora. Mais do que as derrotas, dá que pensar o desencanto: a equipa não consegue inventar, nem sequer mascarar a frustração, parece envelhecida, e sem disposição. Os homens de Van Marwijk foram manietados pelos alemães durante muito tempo, aqui e ali com ares de humilhação, e nunca mostraram ganas de reagir. Só não foi pior porque Van Persie marcou e, na parte final, isso lá permitiu recuperar alguma dignidade, deslocando o jogo para o meio-campo alemão, mesmo que sem perigo declarado. A saída de Robben, directamente para os balneários e a tirar a camisola, é o espelho da equipa: falta de espírito, falta de atitude, e, como lhe chamou Sneijder, "egos patéticos". Por conspirações da matemática, os holandeses jogarão connosco ainda na corrida. Saibamos aproveitar o seu mau estado.

Holanda - Sneijder é o marinheiro solitário, numa equipa que não faz jus à sua altivez competitiva. Se a Holanda ainda tem um fio de esperança, esse vive nas suas botas. Van Persie, por sua vez, não se ia embora sem um tiro à sua imagem.

Alemanha - Que luxo descomunal é ter um 9 como Mario Goméz. A maneira como recebe no 1-0, e como coloca no 2-0, é um verdadeiro manual. Já não havia dúvidas de que Goméz é um dos nomes maiores da actualidade; hoje confirmou que este é capaz de ser o seu Europeu. Depois da entrada discreta, Schweinsteiger abriu o livro, com duas grandes assistências. Com Ozil e Muller, esteve nas fases de construção mais notáveis da Alemanha. Hummels impressionou outra vez: ágil e inultrapassável atrás, é magnífica a forma como sai a jogar. Não estará no Borussia no início da próxima época.

O nosso Euro #2: O abismo a olhar para nós


Dinamarca-Portugal, 2-3

Foi dramático, mantém-nos vivos e, hoje, é só isso que interessa. Mas não há como ficar satisfeito com esta quase tragédia.

Fizemos uma segunda-parte absolutamente pavorosa que, com uma das outras duas selecções do grupo, teria rendido uma colecção de golos a Patrício. A defender, parecemos amadores. João Pereira e Coentrão foram um desastre, e Veloso não pode jogar na cabeça da área: não tem jogo aéreo, não apoia os centrais, e não tem um pingo de agressividade. Perante uma Dinamarca que não tem propriamente um talento farto, parecíamos juvenis a zelar por um milagre inconcretizável. Só não foi pior, porque Pepe fez um jogo de outro mundo, e foi adiando o inevitável. Bento não pode ver a equipa de joelhos e querer jogar aos dados: Custódio tinha forçosamente de ter entrado, e Ricardo Costa teria sido uma opção lúcida para as laterais. Antes de precisar do terceiro golo, Viana também já devia estar em campo, porque Meireles não anda pela Ucrânia. A pressão não justifica nada: pela 2ª parte, Portugal não mereceu ganhar, e se o fez deve agradecer a todos os deuses. A jogar assim, não acontecerá muito mais vezes.

Depois, toda a gente sabe a opinião que tenho de Ronaldo. Mas a sua exibição hoje não é admissível sob nenhuma circunstância. Falhar, todos falham; dias maus, todos têm; Ronaldo, no entanto, é quem é por alguma razão, e tem obrigatoriamente de estar à altura. Não pode ser constantemente inconsequente, não pode olhar para os colegas como se lhe devessem alguma coisa, e não pode, nunca, falhar dois golos isolado num jogo de vida ou morte. A realidade crua é que, hoje, Ronaldo esteve a uma unha negra de eliminar Portugal. A exigência é maior com ele porque tem de ser; e Ronaldo tem de viver com isso, e tem de viver para corresponder. O melhor do mundo não pode ser o que Ronaldo foi hoje.

Sinceramente, esta vitória desmoralizou mais do que a derrota com a Alemanha. Que tenhamos aprendido alguma coisa. Que Paulo Bento actue na equipa, que Ronaldo seja o que tem de ser, e que estejamos à nossa altura de uma vez por todas. Contra à Holanda não teremos outra opção, e milagres não acontecem todos os dias.

Portugal - Pepe fez um jogo inenarrável, absolutamente monumental. Foi melhor, sozinho, do que toda a defesa junta, deu para tudo o que foi possível, e ainda foi marcar o primeiro. Além de carismático, é um jogador de rendimento brutal, quase infalível. É um privilégio tê-lo por cá.

Nani também foi admirável. Solidariedade fantástica na defesa, e o mais consequente do ataque. Sabe estar nestes jogos, o que é impagável.

Se esteve catatónico na contenção, Paulo Bento acertou no ataque. Nélson Oliveira provou hoje que merece a titularidade: é um jogador fiável para jogar em 50 metros de campo, fortíssimo, rápido e com toque de bola, que dá dimensão ao ataque. E abençoado seja Varela por aquele pontapé fenomenal.

Moutinho voltou a ser o melhor do miolo, mas teve de jogar a solo: Veloso não é suficiente, e Meireles está irreconhecível. Coentrão foi o que se pede no ataque, mas péssimo a defender. Postiga merece o crédito pelo golo, mas não chega.

Dinamarca - Bendtner é um daqueles casos de macumba. Um tipo relativamente mal-sucedido, dispensado pelo Arsenal, mas que nos marca golos aos bis. Independentemente disso, foi tudo o que os dinamarqueses poderiam querer de um 9: o 2-2 é excelente. Krohn-Dheli voltou a evidenciar talento no último terço: grande bola para o 1-2. Lars Jacobsen (32 anos, Copenhaga, depois dos anos na Premier League) e o desequilibrador Mikkelsen (25 anos, Nordsjaelland), pela ala direita, deram muito trabalho.

terça-feira, 12 de junho de 2012

EURO, #5: Rússia e Polónia, duas certezas


Polónia-Rússia, 1-1

Grande jogo, a confirmar mais duas belas selecções no torneio.

Os polacos foram uma excelente surpresa. Não os tinha visto na abertura, e esse jogo ficou manchado por uma série de casos, pelo que não contava ver uma equipa tão atraente. À semelhança da Ucrânia, por exemplo, a Polónia é uma selecção discreta, mas bastante fiável, de ideias claras, e que respira saúde. Assente numa defesa muito forte, é, depois, no momento de transição que a equipa se transcende: poucos toques, muita velocidade, e está o ataque a fazer mossa. Apesar da Rússia ter outro nível, e aspirações e qualidade para mais, os polacos foram mais perigosos, e o remate sensacional de Błaszczykowski trouxe a justiça que o jogo merecia. Num grupo que ficou hoje aberto, a Polónia merece alimentar aspirações de fazer a surpresa.

A Rússia não teve o deslumbre da goleada inaugural, mas não engana: a equipa de Advocaat é verdadeiramente senhorial em posse, e consegue monopolizar o jogo durante muito tempo. Depois, tem uma vasta elasticidade táctica, que a torna capaz de ser quase tão competente no contra-ataque como em ataque continuado. Hoje, os russos não foram perfeitos - foram mais susceptíveis do que seria de esperar ao ataque polaco, e não tiveram inspiração suficiente para abrir a defesa do adversário -, mas o recorte e a naturalidade do seu jogo chegou a impressionar. O grupo está baralhado, mas a Rússia está num patamar acima dos adversários, e será uma grande surpresa se não estiver nos quartos-de-final.

Polónia - Lewandowski (23 anos, Borussia) é um ponta-de-lança impressionante. Tem físico, mobilidade, e o remate fácil dos grandes avançados, além de que é forte a jogar de costas. Muitas vezes sozinho, foi suficiente para ter a defesa russa sempre em esforço. Polanski (26 anos, Mainz) é um box-to-box com uma facilidade brutal para chegar ao ataque. Teve um golo anulado e outra grande oportunidade. Błaszczykowski (26 anos, Borussia) materializou o contra-ataque polaco, com o seu pique impressionante, e ainda marcou um golo de levantar o estádio. Finalmente, numa defesa muito dura, Perquis (28 anos, Sochaux) mostrou ser um central fortíssimo, com um talento especial para cortes tecnicamente difíceis.

Rússia - O experiente meio-campo do Zenit deixa água na boca. Denisov (28 anos), Shirokov (30) e Zyryanov (34) são um tiki-taka em miniatura: toque curto, paciência e critério. São a matriz do futebol da equipa, os seus guardiães e grandes intérpretes. Aos 28 anos, Zhirkov provou, na lateral-esquerda, o crime que é andar pelo Anzhi. Continua a ser quase um extremo, e foi o mais repentista dos russos. Nem sempre feliz nem bem acompanhado, Arshavin continua a fazer a diferença no último terço.

Grécia-Rep. Checa, 1-2
Grande surpresa, em prejuízo da Grécia. Os homens de Fernando Santos tiveram mais um jogo atípico, com dois golos sofridos nos primeiros 6 minutos!, e nova arbitragem penalizadora (golo mal anulado), e ficam agora obrigados a ganhar à equipa mais forte do grupo para seguir em frente. Só vi parte do jogo, e nem checos nem gregos impressionaram. A equipa de Bílek tem todo o mérito pela maneira como entrou em campo, e como se aguentou depois do frango de Cech, mas mostrou pouco. Na retina, o lateral-direito Selassie (25 anos, Slovan Liberec), muito ofensivo, e que faz a assistência para o 0-2. A Grécia não foi feliz, e teve o tal golo mal anulado, mas, no global, nunca mostrou engenho que lhe valesse muito mais. Pela amostra de hoje, as duas melhores equipas do grupo estiveram no outro jogo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

EURO, #4: A candidatura não mora aqui

França - Inglaterra, 1-1

O derby da Mancha foi desolador.

O ónus, sinceramente, fica do lado francês. Não que se estivesse à espera da selecção senhorial que se despediu a meio da década passada, mas, depois das campanhas deploráveis na Áustria e na África do Sul, pareciam reunidas finalmente condições para recuperar algum orgulho: Blanc no banco, após o legado em Bordéus, Ribéry e Benzema no fim de um ano que os cimentou de novo entre a nata do continente. O que se viu, contudo, foi uma França alheada do jogo desde o início, pachorrenta, feia, sem criatividade e sem um pingo de vontade em fazer melhor. O regime de frete só foi interrompido depois de estar a perder, com o talento a lembrar-se que existia, mas não foi para durar. Na segunda-parte, a passividade de ambos os lados chegou a ser vergonhosa.

A Inglaterra jogou até onde pôde, que se sabia que não era muito. No 4-4-2 clássico que lhe fez história, limitou-se a ser rigorosa e disciplinada sem bola, o que foi quase sempre mais do que suficiente para conter o enfartado jogo francês. Com os raides de Chamberlain e Welbeck, a única chama da equipa, a renderem pouco de material, o golo surgiu da única forma possível, num livre com conta, peso e medida do capitão Gerrard. Não deu para segurar a vitória, mas, apesar de Hart ter estado mais em jogo do que Lloris, o ponto nunca pareceu estar em causa.

Restará saber se franceses e ingleses são isto, ou se hoje foram só conservadores.

França - Na retina, Debuchy e Cabaye. O primeiro (26 anos) é lateral-direito do Lille desde sempre, e foi, possivelmente, a maior fonte de entusiasmo do ataque francês; o segundo (também 26 anos, e também com a vida feita em Lille, até ter-se mudado para Newcastle este ano), é um interior-direito de passada curta, sempre à procura de jogo, e com um excelente remate. Alou Diarra também impõe respeito, como âncora do meio-campo, mas fica a faltar talento no miolo, e Malouda não é solução. Note-se também, obviamente, o golaço de Nasri.

Inglaterra - Muito importante a boa presença de Hart. Numa equipa de soluções parcas, Oxlade-Chamberlain e Welbeck são uma certeza, mas se não existir criatividade no miolo nem peso no ataque, vai ser difícil.

EURO, #4: Sheva, almost too easy


 Ucrânia-Suécia, 2-1

Ao quarto dia, o Euro selou o seu primeiro mito.

Como nas grandes histórias, estava tudo contra o mais pequeno: a Ucrânia, que se estreou hoje num Campeonato da Europa, era pior no papel, e viu-se a perder; foi quando, com a multidão a seu lado, se ergueu um velho gigante, para dar duas cabeçadas no jogo, e fazer com que no fim ganhasse mesmo o herói. Extraordinária a performance de um Shevchenko com 35 anos, que passou a época lesionado, e que há muito enfrenta o ocaso. Mas não hoje. Com a equipa de joelhos, perante um grande adversário, não havia mais ninguém capaz de ir buscá-la ao fundo do poço. Então, mesmo que só por uma noite, Sheva foi Sheva novamente.

Grandíssimo jogo este Ucrânia-Suécia, a muitas milhas melhor do que o outro jogo do grupo. Ambas as equipas surpreenderam pela tremenda qualidade posta em campo. Os ucranianos não esbanjam fluidez, têm recursos mais ou menos limitados, mas isso não lhes cortou a ambição: investiram num plano de jogo atraente, absolutamente positivo, com muita disponibilidade para chegar ao ataque, e sempre com muita gente. Os suecos, com outro tipo de cultura, de opções, e de consagração, foram mais adultos e objectivos, beneficiando de uma saída de bola perfeitamente agilizada pelo talento de Ibrahimovic em posse, e facilitada pelo quadro de avançados.

A Ucrânia pareceu estar mais perto do golo inaugural, com todo o peso emocional que esse tem, mas mesmo antes de Ibra ter marcado, já o jogo parecia insinuar-se para a mão sueca. Nos entretantos, foi sempre cativante e aberto, cheio de oportunidades. Com 1-0, não pareceu crível o que estava para vir, e até ao fim é honesto dizer que os suecos mereceram o empate. Hoje, contudo, o futebol já tinha escrito a sua história.

Ucrânia - Além do óbvio, impressionou o jogo de um miúdo de 22 anos do Dnipro: Konoplyanka. Numa equipa atraente mas de pouco rasgo, foi ele o escape criativo. A jogar na extrema-esquerda, brilhou nas diagonais, quer a rematar, quer a endossar a bola. Também o veterano Nazarenko esteve em evidência: na sua paz de alma, foi muito importante a dar a bola no meio-campo sueco.

Suécia -  Jogaço de Ibrahimovic, que as crónicas não lembrarão. Ibracadabra foi um pivot extraordinário, que possibilitou que toda a máquina sueca funcionasse. Todo o jogo assentou nele, precisava dele para funcionar, e haveriam poucos que o tivessem feito tão bem. E ainda marcou, claro. Larsson, na extrema-direita, e Rosenberg, à frente de Ibra, foram quem melhor soube aproveitar essas dinâmicas.

EURO, #3: Azzurra, uma velha senhora

Espanha-Itália, 1-1

A Itália é como a antiga nobreza: talvez já tenha tido melhores dias, talvez se vá perder em revoltas da plebe, mas, nos dias grandes, continua a ser uma senhora, que nunca deve ser menosprezada. Mesmo com dois avançados, quando a Espanha não pôs nenhum de raiz, os italianos tiveram a altivez das grandes equipas. Imperturbáveis pelo toque espanhol, com a defesa de sempre e uma saída facílima para o ataque, é justo dizer que foram melhores do que o Campeão do Mundo, ironicamente, até terem chegado ao golo.

Não é que a Espanha não tenha estado lá. Esteve, e é por isso este foi até agora o melhor jogo do torneio. Não fez nada necessariamente mal, jogou de renda e jogou rápido, só não devia estar à espera que a equipa de Prandelli tivesse entrado tão pouco impressionável. A Espanha também criava, mas era San Iker quem safava uma e outra vez o profético contra-golpe transalpino, até que o eterno Di Natale resolveu entrar, pentear a bola com toda a classe do mundo, e fazer Balotelli corar de vergonha.

Nos insondáveis caminhos do futebol, o outrora assassino golo inaugural da Azzurra veio envenenado. Se calhar os homens de Prandelli nunca esperaram que o jogo lhes pudesse vir a dar tanto, e envergonharam-se; foi a deixa para que a Roja, hoje em dia um poço de experiência, cavalgasse sanguinária sobre a presa. Se tivesse dado reviravolta na última meia-hora não haveria nada a dizer, mas como Torres chega ao Euro com o pé frio que o tem celebrizado, não deu. E ainda bem que não.

Espanha - Silva (genial a bola de golo)-Xavi (a jogar em tantos metros, não é necessário duplo-pivot)-Iniesta (sem Messi é o figurão) a um nível altíssimo. Que luxo ver jogar assim. Mais Casillas, que não tem dias mais ou menos.

Itália - Aos 33 anos, Pirlo continua a jogar rios de futebol. Parece ver quadriculado à frente, ter sempre tudo planeado, mesmo quando está do outro lado uma legião de espanhóis. Que colosso a assistência para Di Natale. O capitão da Udinese continua como sempre, a marcar golos como se fosse fácil. Balotelli que vá pensar para o banco. Buffon quando foi preciso, Maggio muito forte na lateral direita, como Chiellini no centro, mais Cassano lá na frente sempre com os dentes de fora. Boas sensações na Azzurra.

Irlanda-Croácia, 1-3

No outro jogo do grupo, vingou a lei do mais forte, mas por linhas tortas. A vitória croata é natural, fruto da sua superioridade clara, mas os dois cabeceamentos de Mandzukic não acontecem muitas vezes, e o golo de Jelavic é um fora-de-jogo claro. Jogo ingrato demais para uma Irlanda humilde - é, provavelmente, a selecção mais pobre do torneio -, mas extraordinariamente entusiasta que, mesmo que não tenha sido melhor, não merecia tamanha falta de estrela. Para a memória, ficará a resposta verdadeiramente espectacular dos homens de Trapattoni nos últimos minutos, que, com o jogo perdido (dois golos de diferença), fizeram-se à área adversária como se a sua vida dependesse disso.

Grande coração, grande dignidade competitiva, e grande reverência por andar em palcos destes. Oxalá ainda tenham o seu momento.

domingo, 10 de junho de 2012

EURO, #2: A Laranja gripou


Holanda-Dinamarca, 0-1

E a primeira queda com estrondo assinou-a uma das selecções mais unânimes da prova.

Seriam poucos, de facto, os que apostariam na derrota holandesa frente ao joker do grupo. Os dinamarqueses tiveram sorte, é verdade, podiam perfeitamente ter perdido, mas é justo que tenham vingado, e a sua vitória não deve ser menosprezada. A equipa de Morten Olsen deu a entender que estava ali envergonhada, a olhar para um dos palácios do grupo da morte, até fazer provar aos holandeses o que custa a sobranceria. Honestidade competitiva, solidariedade, compostura, uma grande defesa, um grande critério com bola e um avançado inspirado, e assim se dobrou a venerável Laranja Mecânica.

Como é natural nestes casos, a Holanda também perdeu por culpa própria. Não está em causa que é melhor, e que teve 10 vezes mais oportunidades, mas a realidade é que os homens de Van Marwijk entraram sobranceiros, e foram passivos durante muito tempo, como se o jogo fosse uma formalidade qualquer, e os golos fossem aparecer mais tarde ou mais cedo. Na primeira parte não houve meio-campo, e ninguém pareceu muito preocupado com uma equipa tão cheia de si. Na segunda, já não era uma brincadeira, mas a bomba já tinha explodido.

Holanda - Na segunda-parte, Sneijder foi buscar a capa e a batuta, e o futebol da Laranja iluminou-se autenticamente. O talento do Pequeno Genial é uma verdadeira dádiva; infelizmente, para a Holanda, hoje é capaz de ter surgido tarde de mais. Van Persie esteve em quase todos os momentos bons, mas foi irreconhecível à frente da baliza. Afellay, depois de um ano lesionado, foi uma boa surpresa na extrema-esquerda.

Dinamarca - Golo brilhante de Krohn-Dehli que, no resto, também foi sempre o avançado dinamarquês mais inteligente e mais perigoso. Depois, uma grande vénia a toda a defesa: Andersen fez esquecer Sorensen, na baliza; Agger foi um capitão imperial; Kjaer tem pés para um grande futuro; e Poulsen é uma locomotiva na lateral-esquerda. A estes, acrescentar ainda Zimling, um trinco duro, mas impagável nos equilíbrios, e que sabe dar a bola.

O nosso Euro #1: Só não fomos melhores do que o nosso fado


Alemanha-Portugal, 1-0

Derrota estúpida, e que não merecemos absolutamente.

Não há pior do que perder assim. Estivemos ao nível, quando havia tantas dúvidas, fizemos tanto pela vida, merecemos tanto ser felizes. Perder com a crueza de sempre é desolador.

Não estou a dizer que fizemos uma exibição perfeita. Podíamos ter querido mais do jogo na primeira parte, faltou fluidez ao miolo, e falhou o ataque. Poder-se-á sempre dizer que foi preciso precisarmos para ir atrás. Mas veja-se o respeito que a Alemanha pôs em campo: não vimos a equipa vertiginosa e elástica da África do Sul, mas um adversário avisado e despretensioso, que nunca caiu no erro de nos experimentar. Mérito deles. Nesse respeito mútuo, que se calhar surpreendeu muita boa gente por cá, acho indiscutível dizer que soubemos estar, e que merecíamos necessariamente mais.

Podia ter caído para qualquer lado. O problema foi um ressalto cair primeiro em Goméz, e duas bolas nossas caírem na trave, e outras duas na pequena-área caírem num muro alemão. Não foi só azar, como nunca é; mas para ganhar também é preciso estrela, e essa hoje não quis nada connosco.

Devemos orgulhar-nos do que provámos poder fazer, mas que fique a lição de que não chega. Temos de ser melhores do que a sorte, melhores do que o nosso próprio jogo. Temos de saber ganhar. Precisamos de nervo suficiente para que uma oportunidade seja o bastante para ganhar um jogo, precisamos de cultura de vitória à flor da pele, e precisamos dela já.

Em 2000 banalizámos a sorte e o azar, e deixámos de ser uma selecção de vitórias morais. Agora, precisamos de ganhar à Dinamarca e à Holanda, simplesmente porque não temos alternativa. Simplesmente porque não o podemos voltar a ser.

Portugal - Sinceramente, Ronaldo foi o melhor. É normal dizermos que na Selecção não rende, que não quer nada com isto, que está sempre à margem de si próprio. Hoje até pode não ter tido a produção mais alta, mas foi o farol que alumiou o caminho, e quase tudo o que fez, fê-lo bem, o que é dizer muito num jogo destes. A rematar, a assistir, a arrastar a equipa. Foi o que precisávamos que ele fosse, e provou que podemos contar com ele.

No "modo-Mundial", Coentrão voltou a ser excepcional. Mordeu quem lhe apareceu à frente, e depois pareceu possuído a descer aquele franco, capaz de tudo. Pepe, enfim... é um gigante, hoje, como na última época, um dos 2 ou 3 melhores centrais do mundo.

De um meio-campo a espaços dormente, sobressaiu Moutinho na 2ª parte, a pôr a bola no chão e a dar a cara pelo jogo. Mas pede-se mais ao miolo, e a Meireles em particular. Também Nani foi de menos, e a equipa ressentiu-se. Postiga revelou-se má opção para um jogo de força e profundidade. Nota para Nélson Oliveira: pouco tempo, mas um nó cego que por milagre não deu o golo de Varela. Merece mais minutos.

Alemanha - Aquele cabeceamento de Goméz valia o bilhete. Execução fantástica de um ponta-de-lança fantástico, a ser o pormenor de talento que decide os jogos grandes. Depois a disponibilidade de um Khedira todo-o-terreno, a parecer que começou a época agora, e o abre-latas Ozil, numa exibição de menos dos outros médios-ofensivos. Atrás, Neuer é um seguro de vida, o tipo de guarda-redes que defende aquela única bola que pode mudar o destino do jogo. Fê-lo hoje, uma vez mais. Também Hummels provou o que de bem se diz dele na Bundesliga. Grande central.

sábado, 9 de junho de 2012

One of them


Nunca vi nenhuma série capaz de ser tão extraordinariamente magistral durante tanto tempo.

Vou a meio da 4ª temporada, e o nível continua a ser tão alto que não posso situar. Há séries que nos apaixonam na estreia, outras que se transcendem na segunda ou na terceira temporada, outras que se eternizam, mesmo com altos e baixos, por terem um indiscutível brilho natural. West Wing é isso tudo, mas sem os azares de caminho. É um continuum, que para mim já passou dos 70 episódios, que nos esmaga de todas as vezes.

É um banho de política que se entranha na pele, que inspira, descarga adrenalina, e faz querer estar lá. Querer ter o virtuosismo do Presidente Bartlet, a venerabilidade do Leo, o talento do Sam, o vulto do Toby, a naturalidade do Josh. Querer ser bom o suficiente para estar lá, viver aquilo, contribuir, fazer a diferença.

O argumento de Aaron Sorkin é uma monumentalidade. Já não se escreve assim. Já não se fazem séries assim.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

EURO, #1: Mãe Rússia


Falhei infelizmente os jogos de abertura, mas cumpriram-se as sensações antecipáveis: uma grande Rússia e uma Grécia fiável.

Polónia 1-1 Grécia
Resultado muito bom para os gregos, que voltaram a sobreviver ao sempre impactante jogo de abertura com um anfitrião, e, neste caso, a uma grosseira arbitragem caseira, que lhes custou uma expulsão injusta e um penalty por marcar. Pelo resumo, a Polónia entrou com a disposição que se exigia, marcando primeiro e ficando em superioridade numérica; com tudo a perder, a equipa de Fernando Santos deu uma demonstração de compostura, e acabou por só não dar a volta devido a um penalty falhado por Karagounis. Como em 2004, os gregos estragaram a festa, e parecem favoritos a seguir em frente.

Rússia 4-1 Rep. Checa
Verdadeiro festival russo, a confirmar as melhores expectativas que a preparação já fazia adivinhar. É verdade que o adversário foi o mais confortável do grupo, mas a equipa de Advocaat não fez por menos, com Dzagoev a assumir-se como primeira figura da competição, e Pavlyuchenko a assinar um dos golos da jornada. Mais do que estar à altura do que se lhes exigia, os russos brilharam, e deram um grande passo pontual e emocional rumo à vitória no grupo. Contra a Polónia, é normal que garantam a passagem aos quartos.

Let the show begin

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Platini, o Robin dos Bosques do nosso tempo


"Espero que não apareçam 52 selecções a jogar o Europeu de 2020" 
Wolfgang Niersbach, director executivo da federação alemã, a comentar o alargamento do Campeonato da Europa de 2016 para 24 equipas

Depois de maltratar a Liga dos Campeões com a entrada obrigatória de 1/3 de equipas que ninguém sabe bem o que lá estão a fazer, Platini também conseguiu selar o alargamento do Campeonato da Europa para umas incompreensíveis 24 selecções. Não interessa o mérito, a competitividade, o nível ou a integridade do torneio; interessa é que lá estejam quantos mais melhor, e que, sob a capa da democratização, toda a gente possa encher os bolsos só mais um bocadinho. Sorte a nossa por o presidente da UEFA não se ter lembrado que se fizéssemos como a Copa América, e lá metêssemos todas as equipas do continente, o pão e o circo ainda eram maiores.

Será que, quando chegar a presidente da FIFA, como é inevitável, Platini ainda nos arranja um Mundial jogado em formato de campeonato, o ano todo, e com três divisões? A expectativa é difícil de conter, sei bem.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Europhoria


Espanha como candidato natural, obviamente. La Roja pode ser a primeira selecção da História a fazer um triplete (Euro-Mundial-Euro), e, quatro anos depois, mantém-se em estado de graça. Faltam dois figurões como Puyol e Villa, e a equipa teve alguma ressaca no pós-África do Sul (goleadas nossa, da Argentina, etc), mas arrancou para uma qualificação de 8 vitórias, não perdeu um metro nos amigáveis, e chega com um grupo que, mais ou menos beliscado pela rivalidade Barça-Madrid, garante uma rotação altíssima. Por alguma razão nunca ninguém ganhou a tal tríade de títulos, mas esta selecção espanhola não parece definitivamente em fim de ciclo, e a presença nas meias-finais será quase uma formalidade. Depois há muito mais a ter em conta, mas a equipa de Del Bosque é o favorito número 1, sem qualquer dúvida.

Depois, a Alemanha. Parece-me, isoladamente, a segunda selecção mais forte do torneio. Vice-campeã em título, 3ª no Mundial, tem uma geração extraordinária de futebolistas, muitos deles novos, que ainda não ganharam nada, e que estão consumidos por isso. Se na Espanha pode pesar o que já se fez, para a Alemanha não há nada que chegue. Junte-se isso à sua histórica mentalidade, e temos, se calhar, o único candidato que pode realmente pôr os espanhóis em cheque. Para mim, além de tudo mais, jogam o melhor futebol do continente.

Em terceiro, a Holanda de Van Marwijk, depois do estrondo de campanha na África do Sul, e de uma qualificação quase imaculada de vitórias. Não sei se será exagero dizê-lo, mas, do meio-campo para a frente, é provável que os holandeses sejam o grupo mais talentoso da competição. A esse talento, juntaram, no último Mundial, um cinismo resultadista que só parou na final. Será uma equipa sempre temível, mas que, ao contrário de Espanha e Alemanha, já me deixa algumas dúvidas: não sei até que ponto o jogo pragmático e seco de Van Marwijk pode resultar tão efectivamente como há dois anos. Para nós, talvez até seja mais "fácil" jogar com a Alemanha, de peito aberto, mas a nossa porta para os quartos é ser melhores do que o jogo holandês.

Os favoritos reais acabam aqui. O Euro pode dar em muitas coisas, mas se nenhum destes três for campeão europeu, então teremos passado por uma hecatombe qualquer. Quanto aos outros históricos: França e Itália não fazem um bom torneio desde 2006 (como nós, curiosamente), desde a final que jogaram ambas no Olímpico de Berlim. Sem espectacularidades, a França surge melhor. Fez uma qualificação modesta, está muito longe da pujança do início da década, mas tem um treinador jovem e de qualidade, e chega com algumas figuras vindas de uma época excelente (Ribéry, Benzema). É o favorito claro do seu grupo, e a sua presença nas meias-finais seria natural, ainda que não seja nenhum dado adquirido. Mais do que isso, era surpreendente.

Com Prandelli, a Itália também parecia refazer-se, a pouco e pouco, da catástrofe na África do Sul, mas a bomba de um novo Calciocaos, que explodiu nas últimas semanas, põe tudo em causa. O onze apoia-se na época notável da Juve (a defesa, mais Pirlo e Marchisio), tem o laivo de génio de Balotelli, que pode dar para tudo, mas, com tamanha pressão, a Azzurra não é mais do que uma grande incógnita, e tem o 2º pior grupo da competição. Irónica, ou misticamente, da última vez que houve um escândalo de corrupção no Calcio... o resultado foi um título mundial.

Finalmente, a Inglaterra, a tragédia que não acaba. É, de todos os grandes, quem chega ao Euro em pior estado: 4 titulares lesionados, Rooney suspenso 2 jogos e, sobretudo, Capello despedido estapafurdiamente há meia dúzia de meses, com o veterano Roy Hodgson a ser o que se arranjou. Para surpreender, a única esperança para a selecção dos Três Leões residirá na surpreendente nova geração de futebolistas que se afirmou este ano: Young, Chamberlain, Carroll, Phil Jones, Welbeck. Sinceramente, porém, é de esperar o pior, e se der para bater a Suécia e chegar aos quartos, a campanha já não terá sido mal sucedida.

No resto, a Rússia volta a surgir muito promissora num Europeu, como há quatro anos, e pode voltar a surpreender, depois de ter falhado o último Mundial. A Grécia de Fernando Santos parece-me o segundo melhor outsider, e é quem deverá acompanhar os russos para os quartos. No grupo de espanhóis e italianos, também merecem atenção o futebol sempre perfumado dos croatas, e a manha da Irlanda de Trapattoni.

Como não podia deixar de ser, ficam aqui as apostas:
Meias-finais: Portugal-Espanha e Alemanha-França.
Final: Espanha-Alemanha, e a Mannschaft é campeã da Europa.

Acima de tudo, que o Euro valha a pena.