sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O primeiro peso pesado


Já o era antes de ser, mas não deixou os créditos por mãos alheias: além de espantoso, Black Swan é mesmo um dos filmes do ano.

Confesso que não é um daqueles casos pelos quais nutro uma devoção instantânea, talvez porque é uma obra desprendida das coisas, e que se torna um tanto ou quanto distante, de imponente, perdendo alguma química no caminho, por assim dizer. Mas é, a nível estético e artístico, uma obra absolutamente extraordinária, que, com uma ou outra linha antecipável para a majestade do quadro final, consegue deslumbrar não só na percepção de obra finalizada, mas praticamente a tempo inteiro.

Black Swan é um filme sobre disputa, inveja e a doentia necessidade de conseguir, mas também sobre inocência perdida e afirmação, sobre medo, os nossos fantasmas e os sonhos dos outros, mas, sobretudo, sobre transcendência. E cruza tudo isto duma maneira sombria, e propositadamente violenta, para tecer a crueza que constitui o único caminho para a perfeição.

The Wrestler, o filme emotivo, fê-lo Aronofsky há dois anos. Este, por sua vez, é um tratado de realização, um exercício do mais puro devaneio genial à solta, que deixa no ar aquela sensação de que o realizador, mais do que assinar, inventa ali coisas, que dificilmente poderiam ser concebidas num argumento. Black Swan fala muito do saber expressar, do sentir, e do surpreender, e o realizador trata a tela como um palco, onde tudo é emocional, onde tudo é uma grande mancha de mensagem, repleta de significado, que nos abalroa e corta a respiração. Talvez mais até do que o próprio filme, Darren Aronofsky é um candidato gigante a Realizador do Ano.

Por fim, Natalie Portman. É, para mim, a maior da actualidade, e teve finalmente o seu momento. O desempenho é, tão simplesmente, perfeito. Não menos do que isso.

Black Swan é esmagador.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Good Will Hunting

Quo vadis?

Não sei se viram, não sei se não. No dia 26, a TVI pariu, no seu programa do Domingo à noite, um dos momentos mais horrivelmente maus que alguma vez vi na televisão portuguesa. Não vale a pena estar aqui a moralizar com dialécticas estúpidas nem com puritanismos, porque eu também vejo a Casa dos Segredos quando calha, e volta e meia aquilo até pode gerar uma curiosidade razoável, apesar de já se ter perdido há muito a pureza do impacto duma lenda como o Big Brother. Há naquilo muitas coisas muito más, mas acho que nunca se tinha violentado os mínimos do tolerável.

No Domingo, fez-se com que os concorrentes pudessem estar com pessoas que lhes são queridas , e com quem, no mínimo, já não estavam há 3 meses, no decurso do jogo e da pressão do jogo. O absurdo começou quando, por exigências dum directo que não tinha razão de existir, se fabricaram esses reencontros ali, no momento. Pessoas que no jogo têm de proteger segredos, ali a chorarem e a mendigarem por uma centelha de intimidade, ostensivamente negada por um directo esfomeado, para alimentar o povão curioso. Para cúmulo, numa conversa o mais sussurrada possível, num encarecida súplica muda por qualquer farrapo de privacidade concebível naquele momento, tivemos a apresentadora a dizer: "Fale mais alto, mais alto, no estúdio não conseguimos ouvir" [a puta da conversa com uma sobrinha longe da vista há meses].

É grotesco. Claro que quem lá está sabia ao que ia, mas haver 2 milhões de pessoas que garantem as audiências daquilo avidamente, a tempo inteiro, é quase assustador. Por acaso estava lá num intervalo e, no fio de dignidade que me sobrou, voltei à concorrência para ver publicidade. No dia em que se perder o nojo de vez, não sei o que será do entretenimento da nossa televisão generalista. Mas já estivemos mais longe.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A equipa do ano

Júlio César (Inter); Maicon (Inter), Lúcio (Inter), Piqué (Barcelona) e Zanetti (Inter); Müller (Bayern), Xavi (Barcelona), Sneijder (Inter) e Messi (Barcelona); Milito (Inter) e Forlán (Atlético)

Banco: Casillas (Real), Puyol (Barcelona), Lahm (Bayern), Schweinsteiger (Bayern), Iniesta (Barcelona), Robben (Bayern) e Villa (Valência/Barcelona)

Treinador: Mourinho (Inter/Real)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Os aposentados


Parece, durante boa parte do tempo, relativamente melhor do que é. Red é um filme de acção divertido, que nunca procura ser mais do que isso, mas, a dada altura, pareceu residir no seu devaneio uma certa criatividade, uma certa linha mais definida e uma piada mais genuína. No fim, não é essa a ideia que fica. Fica um filme muito porque sim, sem argumento e de risco zero nas bilheteiras, que não é intragável nem nada que se pareça, mas ao qual o elenco de consagrados dá e sobra para fazer os serviços mínimos.

Felizmente, ao contrário do que acontece muitas vezes nestes casos em que é tudo fácil, o elenco de absolutos nomes grandes segura efectivamente o filme, com a tremenda Helen Mirren à cabeça, bem secundada por um Malcovich lunático.

Era fácil ter sido pior, foi pena que, como mostrou ser possível, não tivesse sido bem melhor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Só uma ou duas coisas sobre a Bola de Ouro

Escrevi por cá há tempos que, logo no ano em que o Melhor do Ano FIFA se funde com a mítica Bola de Ouro da France Football, achava que era do interesse de toda a gente que o prémio fosse o mais credível possível, e estivesse colado à realidade. Desconsiderei, absolutamente, que, ao contrário do júri de especialistas e jornalistas que era o modus operandi da France Football, o prémio FIFA se decide consoante os votos dos seleccionadores e dos capitães das selecções desse Mundo. Não há poles, não há presenças obrigatórias e não tem de haver lógicas.

Vai daí, quando a Gazzetta dello Sport avançou o furo de que o trio candidato a Melhor do Ano era Xavi, Messi e Iniesta, com Forlán, Robben e, acima de todos, Sneijder de fora, o choque nem foi assim tão grande. Disse-se também que o vencedor será Iniesta, o mesmo que passou toda a 2ª metade da última época lesionado. Nem sequer deverá ir para Xavi, o único legítimo adversário do desterrado Sneijder, nem para Messi, o melhor do Mundo, há de ir para quem marcou o golo na final do Mundial, porque sim.

Hoje, contudo, a palhaçada engrossou ainda mais. Quem se prepara para ser considerado Treinador do Ano é Del Bosque, porque ganhou 6 jogos e foi Campeão do Mundo, com uma equipa feita por outro, e não Mourinho, que teve de fazer 58 jogos, sim, cinquenta e oito, e ganhou todas as competições que jogou: Campeão italiano, com Taça, e Campeão Europeu, num clube para quem não existia Europa há quase 60 anos.

Apesar do seu processo de eleição arcaico, a FIFA até tem seguido a escolher vencedores pouco contestáveis, adequados ao ano em causa. Se na época em que capa à Bola de Ouro a objectividade e a concorrência, a FIFA optar por uma palhaçada como esta, Blatter e companhia passarão a si próprios um redondo atestado de falta de honestidade intelectual, cuja única consequência palpável será o desprezo de qualquer pessoa com dois dedos de testa. Porque até a FIFA devia saber que, na sua cruzada intemporal por se vender o mais bonita possível, há limites para a falta de vergonha na cara.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A is for Awesome


Easy A é provavelmente das comédias-romance mais bem conseguidas do ano. Como quase sempre, porque é criativa. Tem o Secundário, o Liceu, os preconceitos, os boatos e tudo mais, mas também tem uma abordagem fresca e divertida, sem morais muito chatas e, especialmente, sem a sensação de que já vimos aquilo tudo nalgum lado. A juntar a isso, a estória romântica é francamente bem desenhada, e é das melhores que me lembro de ver neste género. É suave, delicada, e não é determinada à choramingas desde o minuto 1, como costuma ser tão insuportável.

Funciona também, porque a simbiose entre os protagonistas, Emma Stone e Penn Badgley, é excelente, quase genuína, o que está longe de ser fácil de conseguir. Emma Stone, ruiva de olhos verdes, é um deslumbre, e tem tanto mais interesse pelo carácter da sua personagem ser tão lúcido, provocador e bem-humorado. É um dos achados do ano. E como se não bastasse, nos secundários, grande show de um "casal" habituado a outras coisas, Patricia Clarkson e Stanley Tucci, que têm o texto mais delicioso de todo o filme.

Se a predisposição for um filme leve, divertido e bem inventado, vale a pena pegar em Easy A.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A cidade


De coisas mais ligeiras como os Oceans, até obras tremendas como Inside Man e Heat, tenho uma certa paixão pelo que podem ser descritos como filmes de ladrões. Não é preciso ir à psicologia para absorver a beleza e a romantização daquilo. Filmes de ladrões são sempre um obrigatório, e The Town fez-me salivar desde a primeira vez que o vi. Sem sequer falar do elenco colossal, e correndo o risco de me fiar em trailers exuberantes por definição, aquele gritava alto.

O primeiro apontamento que posso fazer sobre o filme tem exactamente a ver com isso: a cadência que deslumbra no trailer não é uma coisa desenhada para esses dois minutos e meio, mas antes o ritmo da própria película em si. Affleck, depois da aclamada estreia em Gone Baby Gone, investe aqui num filme muito ritmado, que abusa da edição para abanar uma acção que já seria sempre mexida. E funciona mal. Em muitos momentos das quase duas horas de filme, a ideia de atordoar tornou-se num atropelo, resultado dessa realização um tanto ou quanto turva.

Ao argumento, co-escrito pelo mesmo Ben Affleck, que já ganhou Oscar na modalidade (Good Will Hunting, 1997), também se exigia mais. Há muita coisa feita nisto dos filmes de ladrões, muitos lugares-comuns, e se um ou outro até pode ser tolerável, construir a narrativa sobre eles não é. E o pior foi a simplicidade constrangedora com que se inventou a óbvia história de amor, arrasadoramente a seco.

Ao nível do cast, as coisas melhoram. Jon Hamm parece directamente saído de Mad Men, e não funciona, e Rebecca Hall podia estar mais forte, porque é uma das melhores da actualidade, mas o elenco é tão farto em qualidade, que garante o sucesso. Jeremy Renner, acima de todos, é fantástico, e leva o filme às costas com uma interpretação crua e visceral, oposta a todo o romantismo que costuma estar associado a estas coisas. Affleck também faz coisas bastante boas, mas é prejudicado, ironicamente, pela sua manifesta pobreza nas cenas amorosas, onde nunca escapa às posturas-cliché de menino bonito. Uma última nota para os secundários, nada menos do que Chris Cooper e Pete Postlethwaite, e ainda a belíssima Blake Lively, uma agradável surpresa.

Passe tudo o que critiquei, The Town não deixa de ser um filme que vale a pena ver. Tinha potencial para ser bastante melhor, e é nessa óptica que lhe saliento as falhas, mas além da génese cativante e do óptimo elenco, tem um contexto muito bom (a herança intrínseca do crime em Charlestown, Boston), um fim com qualidade, pormenores de realização/fotografia muito bonitos, e uma simbiose de alto nível - a interacção entre Renner e Affleck - que garante cenas de grande qualidade, as melhores do filme.

As enormidades que este miúdo anda a crescer, no FM edição especial Wenger



Nasri, a bisar assombrosamente, e a dar a liderança da Premier League ao Arsenal (2-1 ao Fulham)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Claro que o Barça é que é romântico, e que foi injustiçado hoje, e que mesmo assim largou 3, mas sobrevivência foi noutro lado

Absurda a situação a que foi sujeito o Barça hoje, em Pamplona, e grande resposta da equipa em campo, a consumar o drama com final feliz.

Ainda assim, bem mais custosa a vitória do Real, depois dos eventos recentes. Num jogo duro, mais por incapacidade própria do que por obra dum Valência que até tem qualidade, valeu outro bis fantástico de Ronaldo, que, pese esses retumbantes 5-0 que vão assombrar cada dia do ano do Real, continua a fazer uma época assombrosa a nível individual. O Madrid precisará dele como nunca, nos próximos tempos, para acreditar que ainda é possível.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Scala & Kolacny Brothers

Este coro de meninas belgas, conduzido e acompanhado ao piano por dois manos de nome Kolacny, saltou para as bocas do mundo quando sonorizou o trailer do fresquíssimo The Social Network, com uma cover da lendária Creep, dos Radiohead. A coisa é tão poderosa, que ontem lá fui ver o que mais esta boa gente andou a fazer, e só tenho a dizer que o produto é bom. Muito, muito bom.



Um profissional

Mithrandir


Estou estupidamente deslumbrado com ele.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

So fluffy


Foi uma boa surpresa. Era muito fácil que o filme se ficasse nos bonecos fofinhos, e que se perdesse na mediania e na sombra que, por estes dias, é o lugar de quase toda a Animação que não é Pixar. É verdade que, a nível de narrativa, continua a não haver comparação com os gurus da Califórnia, e Despicable Me não é excepção. O mérito da produção da Universal é, contudo, perceber isso mesmo e fugir às comparações, e não tentar jogar de igual com a Pixar, como a Dreamworks tenta fazer tantas vezes (quase sempre sem sucesso).

Despicable Me é um filme desconcertante no bom sentido, colorido e enternecedor, e desenha uma acção onde tudo é permitido e possível. Não se prende a lógicas, e explora a dimensão onírica da banda desenhada mais tradicional, onde as quedas, os choques ou as explosões não têm sequer de fazer sentido. Tudo isto se tolera pelo facto do filme ser tão despretensioso, e o tom ternurento e puro, mais do que condescender, leva a um riso genuíno.

O filme tem pouco de Pixar, e se quisermos avaliar por essa bitola, é preciso reconhecer que a essência do conto em Despicable Me é linear, ou fácil. Para mim, porém, há espaço para muita coisa na Animação, e o filme de Pierre Coffin e Chris Renaud é uma ideia boa, inteligente e bem levada, que conquista o seu espaço com todo o merecimento. Foi uma boa surpresa.

Lugar aos novos

O primeiro Mundial transcontinental e no Leste, e o primeiro no Médio Oriente. Política, economia e conspirações à parte, fica bem entregue.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

370 anos a não precisar de esmolas

10 anos depois, estamos outra vez na corrida para organizar uma grande competição internacional.

Então como agora, a polémica não ficou à porta: em 2000, acreditava-se que organizar o Euro, quatro anos depois, era perfeitamente megalómano, que dez estádios novos não eram sustentáveis, e que estávamos a sonhar muito para lá das nossas possibilidades. Hoje, a falta de dinheiro, definitivamente mais grave do que nessa altura, está outra vez na ordem do dia, mas o maior dilema até é outro. Ao contrário de 2004, este não é um projecto só por nossa conta. Desta vez, ao contrário até de qualquer parceria normal, a ideia nem é que fique a meias. A ideia é termos 19 dos 64 jogos, termos 3 dos 12 estádios, e não termos nem abertura, nem final.

Em 2004, mesmo perante todos os caminhos sinuosos que se percorreram desde aí, provou-se que o sonho estava certo. E fizemos algo que a própria UEFA considerou não ter comparação.

A ganharmos amanhã, talvez em 2018 sintamos qualquer coisa parecida. Talvez reconheçamos que não fazia sentido admitir a falta de dinheiro e reclamar, ao mesmo tempo, de "estarmos" pouco, e percebamos que isto era injusto, e que existiam vantagens em metermos o nosso nome na candidatura como iguais, quando no fundo só lá estávamos a menos de 30%. Talvez o meu eu de 27 anos veja como hoje estava a pensar pequeno, tanto como os que quiseram impedir o marco que foi 2004, e como todos aqueles que desprezo por sonegarem o risco e a ousadia que nos pode fazer verdadeiramente grandes. Ainda por cima em tempos difíceis, quando só se lembram de nós pelas piores razões.

Amanhã, contudo, não vou estar a torcer. Irrita-me estar ao lado de espanhóis, e irrita-me ainda mais nós termos o crédito todo em organização, mas isto ir ser o Mundial deles, 70% deles, no qual estamos prontos para ser só o parente pobre, como tanto lhes apraz. Irrita-me que, nesta "união de povos", a chefia da candidatura seja a Federação Espanhola, e que nisto dos "hermanos", eles vão ter 8 ou 9 cidades envolvidas, e nós 2. Por mim, perdiam amanhã (eles, que isto tem pouco de nosso), e juntavam a derrota às lembranças do pós-1 de Dezembro, abaixo da Restauração que lhes enfiámos há quase 400 anos. Para consolo marcávamos mais um amigável, este em Madrid, para termos mais hermanos a ver, e íamos lambuzar-nos outra vez a humilhar o campeão do Mundo.

Depois de termos feito SOZINHOS "o melhor Euro de sempre", só posso desejar que amanhã o destino lhes meta as esmolas e as suas infinitas boas intenções onde melhor lhes convier.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ele também não sabia o que traria o amanhã

Não sou ninguém para falar de Pessoa. Dele só li excertos d'A Mensagem, excertos dos Heterónimos, e uma lista grande de pensamentos soltos, quase tudo por alturas do Secundário, em que a praxe era ter ódio aos autores que nos mandavam estudar. A maioria punha-se a jeito, digo eu. Camões, por exemplo. Mas nunca Pessoa. E claro que Os Lusíadas é que passaram à História, que o Eça é que saíu com Os Maias, e que Saramago, que muito respeito, é que foi Nobel. Mas Pessoa, percebia-se em quase tudo, era o outro campeonato. Pessoa era o maior de todos.

75 anos depois da sua morte, podia citá-lo com uma quase infinidade de linhas majestosas, da maneira como o mestre via a vida. Fá-lo-ei, contudo, com uma tirada à Lusíadas, que foi também o primeiro grande poema com que ele me esmagou.

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nunca tinha visto nada assim.

Nunca, em tantos anos de futebol.

O Real chegou à Catalunha num altar, com Messi ofuscado por Ronaldo, e com o mundo aos pés de Mourinho. Nunca o Madrid teria entrado tão favorito no Camp Nou, e tenho para mim que até os melhores barcelonistas sentiam o arrepio pelo monstro.

O que se viu foi, no entanto, avassalador. Os extraordinários 5-0 claro, mas sobretudo a violência da superioridade do Barça em todos os segundos do jogo. Não existiram 5 minutos do Real, sequer. Só um banho de proporções apocalípticas, com 80% ou mais de posse de bola, uma pressão assassina, bolas atrás de bolas de golo, e um toque e uma gestão tão insinuantes, tão fáceis, tão debochantes, que fizeram o Real parecer a equipa mais vulgar do universo. Foi a maior humilhação da vida futebolística de quase todos aqueles jogadores, e de Mourinho, acima de todos.

Claro que hoje não se perdeu um campeonato, e que o Madrid continua a ter oportunidades mais do que palpáveis de chegar ao título. Tal como não morreu o projecto-Mourinho, e tal como este Real ainda vai a tempo de fazer muitas coisas grandes. Destes 90 minutos ficou, contudo, uma demonstração de força que, pelo simbolismo e pelo contexto, não tem precedentes. E a certeza absoluta de que o Barça ainda é a melhor equipa do Mundo.

domingo, 28 de novembro de 2010

Oportunidades perdidas


Foi uma desilusão. Realizado por quem já fez coisas como Se7en, Fight Club e Benjamin Button, escrito pelo reputado Aaron Sorkin (Os Homens do Presidente), e centrado num tema tão extraordinariamente sumarento, era preciso ter feito muito mais. A sensação que fica é que, se calhar, ainda era cedo para fazer qualquer coisa sobre o Facebook. Com os 500 milhões de utilizadores e Mark Zuckerberg como o bilionário mais novo de sempre, The Social Network acaba por só acompanhar o hype que vive agora a rede, e não traz nada de novo.

Numa palavra, o filme é superficial. Quanto mais exposta é uma estória, mais difícil tende a ser levá-la para o cinema, e aqui o falhanço foi evidente. O filme até arrisca alguma coisa, e imprime, desde o início, uma narrativa um tanto ou quanto dinâmica, que conta, simultaneamente, 3 momentos da vida de Zuckerberg: o cerne é o processo de nascimento do Facebook, e isso vai sendo intercalado com os diferendos judiciais que o protagonista manteve depois, com outros que foram parte integrante nesse processo. O resultado é, contudo, uma grande ligeireza de abordagem, com uma importância imponderada desses "inimigos" que anuncia a tagline, e uma tremenda ausência de criatividade, de surpresa ou até de interesse. Até a nuance romântica, desconsiderada quase todo o tempo, acaba a ser martelada no fim, num cliché doloroso.

A única mais valia do filme é o enquadramento do protagonista. Zuckerberg é mostrado como um "deus", um génio arrogante, mas profundamente corroído por egoísmos e por frustrações pessoais. Jesse Eisenberg era outro dos pontos de interesse do filme, e a sua interpretação pareceu limitada durante boa parte do tempo, mas cresceu no decorrer da acção, e materializou esse desenho que era bom de raiz. No resto, é quase um deserto. As personagens de Armie Hammer são caricaturadas, Andrew Garfield é fraco, e não deram importância suficiente a Rooney Mara. Até Timberlake, que costuma sair-se bem nestas coisas, passou ao lado desta vez.

Até valeu a intenção de não querer tornar a estória num conto de fadas, e de contornar a secura duma biografia com narrativas paralelas. Mas foram boas ideias que se esfumaram numa declarada falta de conteúdo e de criatividade, evidenciadas por um argumento fraco. Infelizmente pareceu só uma encomenda, para fazer render a moda.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

And it has begun


Acho sobretudo que David Yates tem feito um trabalho bastante bom. É facto que acompanha a lógica dos livros, mas ver um Harry Potter é hoje uma verdadeira experiência cinematográfica, depois de filmes infantilizados, que não se levavam muito a sério. 3 filmes depois, o britânico tem na mão uma franchise perfeitamente madura, que vale o bilhete. A negritude é o que salta à vista e, depois duma boa Ordem da Fénix e dum ainda melhor Príncipe Meio-Sangue (para mim, o melhor HP até agora), Yates teve o mérito de segurar muito bem os cavalos, num filme limitado, à partida, por não ser um fim em si mesmo.

Individualmente, Daniel Radcliffe teve todo o espaço para brilhar, num filme desenhado para ele, mas a verdade é que esteve muito bem. Foi a sua melhor prestação de sempre, e funcionou como derradeira afirmação, ao descolá-lo da inócua cara-paixoneta das adolescentes. Foi uma excelente surpresa, e abre bem melhores avenidas para o que lhe é exigido no último filme. Emma Watson mantém um registo interessante, e Bonham Carter é tão boa como sempre. Num filme que foi muito focado nos protagonistas, nota ainda para o grande Bill Nighty, senhor da frase mais retumbante do trailer, e que ainda que pouco presente, leva para outro nível o papel um tanto ou quanto banal que lhe foi reservado.

A banda sonora é óptima como sempre, mas desta vez salta mais à vista a fotografia, francamente bonita. E se a cena de Dumbledore na caverna (Príncipe Meio-Sangue) é a melhor de sempre dum HP, a da morte de Dobby entra no top dos momentos emocionais mais fortes, e é o ponto alto desta Parte I.

No mais, sentiu-se muito o medo, a vertigem, a caça e a fuga, e o filme nunca quis ser positivo ou condescendente. Este definiu-se como uma fatia enegrecida de Talismãs da Morte bastante bem conseguida, antes do twist-final-feliz que o 8º filme está forçado a assumir. No próximo Verão, o desafio que se coloca à realização é justamente ser capaz de contornar o óbvio, e engrandecer uma última linha de acção que, na minha opinião, já não é o ponto alto da estória.

É fácil fazer um final feliz, mas é redutor pensar na Parte II de Talismãs da Morte como tal. A saga só poderá fechar em grande com uma gestão muito boa do peso emocional do fim do livro, e acima de tudo, com sensibilidade para trabalhá-lo de forma ambígua, e evitar que ele se torne num linear conto de fadas. É preciso não só o sofrimento do caminho, mas sobretudo um final ferido, custoso e amargo. Essa é a essência, e é também a única grande leitura que se pode fazer de Talismãs da Morte Parte II, que é, em perspectiva, um desafio gigante para o realizador. Só assim teremos o verdadeiro "acontecimento cinematográfico duma geração".

Mobile Press (?)

Apercebi-me hoje de que "leio" o Público todos os dias no telemóvel. Talvez o jornalismo deixe de ser uma crise bem mais cedo do que se pensa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

É bom estar de volta

Poucas vezes me senti tão envergonhado com a Selecção Nacional do meu país como no dia 29 de Junho de 2010. Em pleno Mundial, contra o nosso rival eterno, depois da década mais gloriosa da História do nosso futebol, fomos eliminados porque morremos de medo, o medo bafiento de décadas a fio, que alimentou durante todos esses anos a nossa pequenez internacional, o nosso “eliminados de cabeça erguida”. Depois de 10 anos inesquecíveis, da impensável remontada contra a Inglaterra em 2000 ao golo de Nuno Gomes aos hermanos em 2004, dos penalties sem luvas de Ricardo, à Batalha de Nuremberga e aos 7 à Rússia, perdemos na África do Sul sem um mínimo de respeito para com tudo o que conseguimos. Não foi por São Casillas, pelo tiki-taka ou pelo Villa Maravilla, foi pelo mais puro medo. Antes perder uma final todos os dias para os gregos a acreditarmos que vamos conseguir, do que perder uns oitavos-de-final para o futuro campeão do Mundo, porque estamos simplesmente mortos de medo para tentar.

Os 4-0 de 4ª talvez nem contem para nada. Não dão pontos, não dão títulos, talvez não acontecessem se dessem, e talvez nem os ganhássemos se isto fosse o Mundial outra vez. Mas olhamos para a Selecção, e transbordamos orgulho. Eles até podem gozar dos nossos olés, que era coisa de deslumbrados por terem feito aquilo aos imponentes campeões do Mundo, ou dizerem que os amigáveis são de concentração difícil, mas em campo não esteve menos do que o 11 campeão do Mundo, e toda a gente viu Busquets a bater, Casillas a desesperar e Del Bosque a agonizar silenciosamente. Não dá pontos, não dá títulos, mas isto era um Portugal-Espanha. E num Portugal-Espanha ninguém brinca, ninguém não quer saber, e ninguém convive bem com um 4-0. Eles vão-se lembrar tanto dele como nós.

Fosse há uns meses, e tínhamos estarrecido outra vez. E tínhamos jogado com 6 médios, e Pepe a trinco, e laterais dentro da área, com o fantasma de Ronaldo e sem ponta-de-lança. E teríamos perdido, claro, por 1 ou 2, coisa normal perante o Campeão do Mundo. Na 4ª não entrámos em campo para ter sorte, entrámos para ganhar. Não foi só atitude, porque ninguém humilha assim a Espanha e tem tamanho caudal de jogo sem trabalho táctico, e ainda mais mérito do seleccionador por isso, mas foi sobretudo atitude. Confiança em nós próprios, no nosso jogo, no nosso contra-ataque, no nosso extraordinário talento individual, consciência de que era preciso anular a Espanha, sim, mas sempre pela força e pela qualidade do nosso próprio futebol. E essa mentalidade ressaltava mesmo que tivesse sido só 1, e estará com esta Selecção até à Polónia e à Ucrânia em 2012.

Escrevi, depois da nossa eliminação na África do Sul, que depois de 10 anos a nos tornarmos grandes, se voltássemos a perder a mentalidade, perdíamos tudo. É bom saber que ainda fomos a tempo, que recuperámos a nossa dignidade e que voltámos a fazer coisas deste nível. É bom saber que estamos de volta.

E depois não cito mais batidas no ceguinho

"rui santos termina a sua 'opinião', hoje no 'record' com o seguinte desabafo:

'A Seleção Nacional, com uma bela exibição, banalizou os campeões do Mundo. Quando os jogadores querem, até o treinador é "bestial'.

repeito a sua opinião mas eu remataria a avaliação que fez à selecção nacional, de uma outra maneira, mais consentânea com a realidade dos factos, recentes e menos recentes: 'quando o treinador não é uma 'besta', até os jogadores querem'."




"Será possível ao Carlos Queiroz não se sentir um imbecil quando vê a selecção jogar?"

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Claramente, este tipo não tem lugar na Roja, tirem daí a ideia


"Que se lixe a goleada. 1-0 com um golo destes era o bastante."

Sena Martins, no Arrastão

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Ah porque o Facebook até está a fazer isto com os bonecos

Claro que os Power Rangers foram os meus primeiros. Idolatrei durante anos o robô que tive no quarto, composto pelos animais mecânicos que cada um deles andava a guiar. O ranger branco foi o meu primeiro boneco de sempre. E lembram-se dos Motoratos? Lá está. Tive um sacana dum motorato que se dava corda e ele disparava, antes de ter falecido num balde com água. O Oliver veio mais tarde, com o Benji e os magos da bola, bem mais tarde do que o Dartacão, esse lendário que corria grandes perigos, e cuja música ainda me faz entrar num estado autómato de euforia. Ainda mais tarde foram os Pokémons, nos quatro cantos da Terra, e eu tinha a disquete amarela, só para que conste. O Recreio foi depois disso tudo, nas minhas manhãs transtornadas antes de ir para a catequese, na mesma altura que andei perto das Tartarugas Ninja, anos e anos depois de ter tido uma festa temática sobre elas, não devia ter mais do que 4 ou 5 primaveras. Cheguei a ver a Carrinha Mágica, e vi muito Inspector Gadjet, la-la-la-la-lá-la. Ah e revi vezes sem conta uma coisa que, descobri hoje, chama-se Pinky e o Cérebro. Muito bom material, devo dizer.

Todas tiveram o seu papel, facto, mas este não é mais do que um post manhoso sobre elas, só para falar, na verdade, do que nenhuma foi capaz de fazer por si só: marcar, indelével e incomparavelmente, toda uma geração: a dos doirados anos 90 (doirados com i tem outro nível). Esse abismo existencial carrega-o uma e só uma, mítica e inimitável. Quem não se arrepia com esta música, não é filho de boa gente.

domingo, 14 de novembro de 2010

Há sempre alguém que diz não

"Mas, apesar do insistente aranzel intriguista para virar uns contra os outros, nesta fase negra da vida colectiva, a canga será derrotada. A Madeira teve um 'antes'. Quem sabe se em breve não raiará um 'depois', cheio de esplendor"


sobre a utilização do CS Marítimo como arma de arremesso do Governo Regional contra o DN Madeira, um texto notável de Luís Calisto, para todos quantos quiserem perceber a realidade contra a qual se luta todos os dias

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

E depois dos 5-0?

Jorge Jesus foi nada menos do que crucificado depois da derrota no Dragão. David Luiz a lateral, Saviola no banco, 5 médios, de repente Coentrão não era bom o suficiente para marcar Hulk, e Gaitán ou Peixoto nem a brincar. A primeira sensação quando se viu o onze do Benfica que subiu ao Dragão foi de facto só uma: medo. Ao invés do perfumado 4-4-2 losango, uma espécie de 4-5-1, com 3 centrais em campo. Era difícil o instinto da primeira impressão ser melhor. Ninguém gosta do receio, ninguém gosta das dúvidas, sobretudo nos grandes jogos.

Insistiu-se muito que, considerações tácticas à parte, Jesus falhou acima de tudo porque mandou a mensagem errada à equipa: que o Benfica normal não tinha argumentos para ganhar ao Porto. Restava, portanto, subjugar-se e rezar para ter sorte, o que feriria de morte fosse qual fosse a estratégia adoptada.

É retórico dizer que se Jesus tem ido ganhar ao Dragão com as trancas à porta, tinha passado a semana a ser o mestre da táctica. Quem o criticou acha que, mesmo que tivesse dado certo, Jesus estaria sempre mais próximo de perder, da maneira como entrou em campo. Eu acho precisamente o contrário. Reconhecer o extraordinário momento do Porto por oposição a um Benfica tão oscilante, ter em conta a confiança dum jogos daqueles no Dragão, e tentar pensar uma estratégia de condicionamento do jogo adversário só revela uma coisa: inteligência.

Claro que é mais bonito pensar que mesmo em losango e com o futebol-carrossel era possível anular o Porto, que o Benfica tinha de estar seguro de si, que tem um título a prová-lo, mas Jesus foi lúcido e pragmático. E a pensar o jogo estaria sempre mais próximo de ganhá-lo, não o contrário.

Durante a semana os jornais multiplicaram-se em listas de objectivos que Jesus não pode de maneira alguma falhar, se quiser continuar a ser treinador do Benfica. Diz-se que está a ser contestado, e um campeonato resolvido à 10ª jornada custa muito a engolir. Para o bem do Benfica, é bom que isto tenha mais de especulação do que de verdade. É claro que, época notável do Porto à parte, era exigível que o Benfica não estivesse, com 3 meses de época, a 10 pontos do primeiro. Era exigível outra regularidade, e um início de época menos conturbado, talvez outra estaleca na Liga dos Campeões. Mas é evidente que o lugar de Jorge Jesus não deve estar em risco.

Não porque supostamente não há campeões à 10ª jornada, ou porque ainda é possível. Isso já não existe e, a menos que haja uma surpresa mesmo muito grande, o campeonato é do Porto. Jesus deve continuar porque foi a única coisa realmente com sentido que passou pelo banco do Benfica em muitos anos, porque é um dos grandes treinadores portugueses da década, e porque, pela sua qualidade indiscutível, voltará invariavelmente a ser campeão. Fazer a sua continuidade depender da presença nuns oitavos-de-final seria bem mais do que ingratidão ou falta de visão. Seria o Benfica a deixar passar uma oportunidade tremenda para se reafirmar de vez como um campeão natural.

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

O dia em que o presidente do meu clube agrediu um jornalista

"Na manhã desta terça-feira, Carlos Pereira agrediu um jornalista do Diário de Notícias da Madeira, que acompanhava os trabalhos do plantel às ordens de Pedro Martins.

Ao Maisfutebol, o editor de desporto do periódico explicou tudo o que se passou com o jornalista Marco Freitas. «O presidente do Marítimo nem perguntou nada ao meu colega. Apareceu pelas costas, deu-lhe um murro na cabeça e arranhou-o no pescoço», descreve Edmar Fernandes.

«É uma situação lamentável e nada justifica este acto. O Marítimo cortou relações connosco porque não temos medo de dizer as coisas como elas são.»"



O Diário de Notícias da Madeira foi incorrecto para com o Marítimo recentemente. E já pediu desculpas também, apesar de continuar sem credenciais para os jogos nem para os treinos. A equipa está mal, a instabilidade dos últimos largos anos começa a tocar o insuportável, e Carlos Pereira tem sido bastante visado por todos, adeptos em primeiro lugar.

Se o DN foca mais ou não a situação pelo que aconteceu, não sei. Sei que tem veiculado um desagrado que está instalado. E sei, acima de tudo, que o Presidente duma das maiores instituições desportivas do país tem de ter estatura moral para o cargo que ocupa. Seja qual for a agressividade da relação que se criou, NUNCA será nem sequer remotamente aceitável, nem ao Presidente do Marítimo nem a ninguém, que se agrida um jornalista no exercício das suas funções. Porque isto não é a Coreia, nem o Irão, nem a Venezuela, e porque as acções de Carlos Pereira, são, antes de tudo, as acções do Presidente do Marítimo. Se não tem, ao fim destes anos todos, maturidade intelectual para aceitar as críticas e para ter consciência das suas responsabilidades, então o melhor que Carlos Pereira tem a fazer é pôr imediatamente o seu lugar à disposição. Mesmo que amanhã o Presidente do Governo Regional até lhe venha dizer que agredir e tentar calar jornalistas é normal.

"Pessoas que merecem"*


título e o resto copiados pela sua justiça cristalina d'A Causa Foi Modificada

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Há dias assim

Hulk a fazer o marcador especial David Luiz espalhar-se atrás dele no 1-0. 3-0 à meia hora, e com mais um calcanhar assombroso de Falcão. Hulk a fazer Coentrão, o único equiparável, abalroá-lo no 4-0. O Benfica humilhado e a 10 pontos do líder, quando só já foi um terço de campeonato. E uma Supertaça pelo caminho. O jogo de hoje foi tão incrível como tem sido a época do Porto, nada menos do que isso. Os números são extraordinários, mas o que mais salta à vista é a qualidade no campo e a personalidade que a equipa transborda. Disse, no início de época, que Vilas Boas era uma evidente aposta de risco, quiçá um tanto ou quanto desnecessária para um Porto vindo dum ano mau. Digo hoje que este é, sem grande sombra de dúvida, o Porto mais entusiasmante do pós-Mourinho.

Amanhã dir-se-á que Jesus duvidou, hesitou e que os 3 centrais e os 5 médios foram o princípio moral dum resultado que envergonhará o Benfica durante muito tempo. Digo que foi um jogo ingrato, e que é injusto julgar o treinador do Benfica. Jesus não foi orgulhoso e foi inteligente o suficiente para reconhecer a superioridade do Porto. A ser lúcido ao pensar o jogo, estaria sempre mais próximo de ganhar. Perdeu, por 5 dadas as condicionantes dum jogo perfeito para o adversário, há deles assim, como teria perdido com Peixoto, Saviola e o mesmo esquema em campo. Os adversários não gostarão de ouvir, e este campeonato ainda poderá dar muitas voltas, mas a realidade é só uma: este Porto, o de hoje como dos últimos 3 meses, não tem adversário na Liga Portuguesa.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

E eu a cagar se só descobri esta preciosidade por causa da Calzedonia

O meu querido pé esquerdo

Entre os três enormes pés esquerdos que chegaram aos grandes a partir de 2007, devo dizer que era em Vukcevic quem sempre apostei as minhas fichas. Di María chegou mais novo do que os outros, mas, mesmo com a técnica transbordante, pareceu durante demasiado tempo um miúdo que não queria crescer, descomprometido com o jogo, para quem o que conseguia fazer num ou noutro grande movimento, mesmo que inconsequente, dava e sobrava.

Hulk foi o último a chegar e, sinceramente, era aquele que menos me impressionava. A potência esteve sempre lá, mas Hulk passou muito tempo a não saber pensar, e essa condição de máquina sem cérebro, que se assumia como inequívoca fragilidade emocional nos grandes jogos, chegou a fazer parecer que o super-herói resgatado às profundezas da segunda divisão japonesa nunca chegaria a sê-lo verdadeiramente.

Vukcevic era diferente. Era uma espécie de médio-ofensivo ou interior esquerdo ou direito, que jogava sem doer a ponta-de-lança e que finalizava com a mesma facilidade com que pensava jogo e com que, com o seu iluminado pé esquerdo, não parava de criar futebol. Acima de tudo, Vukcevic tinha algo de impagável, ainda por cima num jovem que chegou com 21 anos: classe. O enorme potencial bruto de Vukcevic acabou no entanto por esbarrar no seu próprio feitio, e o assomo dos primeiros tempos, que o puseram aos olhos da Europa, acabou por se eclipsar.

Num Sporting tão predisposto a casos, foi a pior coisa que lhe podia ter acontecido. O montenegrino passou os últimos dois anos e meio e três treinadores entre o castigo e as pequenas oportunidades, entre o brilho que carrega nas botas e a intermitência a que é condenado cronicamente. Continua a ser hoje, para mim, o maior jogador do Sporting, mas a jogar a 4.ª época em Portugal, uma coisa já parece inevitável: a sua confirmação, se algum dia chegar, nunca o será em Alvalade.

Haverá muito de problema estrutural, num clube invulgar a criar talentos como o Sporting, mas que é incapaz de potenciar durante tempo que se veja o que cria ou o que contrata. Foi essa a grande diferença para os outros dois. Di María e Hulk puderam crescer. O argentino beneficiou duma conjuntura fortíssima no Benfica, o brasileiro da estrutura do Porto. Ambos da exposição, da boa orientação, da confiança e da mecânica de vitória. Ao ver Di María, pleno de confiança, deixar para trás jogadores do Milan e fazer assistências de golo no São Siro, ou Hulk a ser muito maior do que a Liga Portuguesa, e a pôr pé e meio nos grandes da Europa, não deixa de dar que pensar. Num Sporting pouco menos sombrio do que no ano passado, um talento continua a morrer aos poucos.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pippo


O futebol europeu na minha adolescência era pouco da Premier League, da Serie A ou de La Liga. O futebol europeu da minha adolescência eram os jogos da Champions de 3ª e 4ª à noite, os jogos grandes, inapeláveis, os jogos que criam lendas. Duma geração que produziu alguns dos nomes maiores da histórias dos golos das competições europeias, de Raúl a Henry e Shevchenko, os meus maiores eram dois inimitáveis dentro da área: Van Nistelrooy e Inzaghi. O holandês era mais comercial, do assombro de Old Trafford ao luxo do Bernabéu, Inzaghi era diferente. Menos indiscutível, mais na sombra, ligado para a vida ao calcio e ao San Siro rossonero. Foi durante muito mais do que merecia o jogador para a última meia-hora, a solução de recurso para safar jogos desfavoráveis. Nunca teve pinta de estrela, e em campo era um caso à parte na coisa dos avançados: pouca finta, pouco sprint, poucos golos espectaculares. Era uma ave de rapina, como me lembro de lhe chamar Freitas Lobo, sempre na sombra das defesas em linha adversárias, ou, como disse um dia Ferguson, que já nascera em fora-de-jogo.

Sempre o adorei. Ver Inzaghi em campo sempre foi um desafio ao próprio jogo, uma insinuação de caos capaz de virar qualquer resultado a qualquer altura. Ronaldo ganhava melhor do Mundo, Sheva ia às Bolas de Ouro, Raúl e Henry exalavam classe, mas ninguém desmanchava jogos como Inzaghi, ninguém inventava impossíveis como ele. Num misto de piada e respeito, a saber a profecia, Mourinho disse que neste duelo com o Milan para a Liga dos Campeões, Allegri podia usar quantos dos seus avançados quisesse, fosse Ronaldinho, Pato, Robinho ou Ibra, desde que não usasse Inzaghi. Nos dias em que, com 34 anos, Nistelrooy já mal sobrevive ao ocaso em Hamburgo, ver como Pippo, aos 37, explodiu nas mãos do Real um jogo do qual o Milan já respeitosamente desistira, continua a ser tão impressionante como há 10 anos. As noites europeias de Milão lembrar-se-ão das corridas loucas depois de um golo, quando as suas botas finalmente se pendurarem. Daqui a muitos muitos anos, claro.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mitos dum tipo que, no fundo, viu muito pouca coisa

Como já terei partilhado, a minha obsessão-compulsão ocasional manifesta-se muito grandemente na elaboração de listas, tendencialmente tops no geral. Vai daí, e porque no fundo não tenho muito trabalho, resolvo partilhar com vós qualquer coisa como os meus grandes protagonistas da última década de televisão, aka os humildes senhores das poucas e humildes grandes séries que eu tive o prazer de ver nestes meus curtos e verdes anos de ficção. Talvez não sejam ícones de facto, pelo menos a maior parte deles, mas são os vultos que caminham comigo, neste work in progress que sou eu até ganhar um Globo de Ouro para melhor argumento. Sentai-vos:

10 - Aaron Hotch (Thomas Gibson), Criminal Minds
O Reid tem piada e o Gideon era de grande campeonato, mas o general silencioso do BAU é a personagem mais poderosa da equipa. O extraordinário foco que lhe foi dado entre a 4ª e a 5ª temporada contribui bastante para isso.

09 - Alan Shore (James Spader), Boston Legal
No espectro quase imperturbado que foi o meu crescimento a querer ser jornalista, só duas coisas terão feito abalar esta jovem consciência: os anúncios da Nike, que me fariam publicitário, e os discursos deste senhor, que me poderiam ter levado a uma carreira de sucesso na advocacia. Aos textos, Spader juntou sempre a eloquência e a força persuasiva, numa personagem toda ela muito pouco by the book.

08 - House (Hugh Laurie), House MD
É nada menos do que um mito, e sempre foi tanto mais cativante por percebermos que havia ali muito espírito do próprio Laurie. House e toda a dimensão que já teve perdurará por muitos e muitos anos. Está hoje para mim deste lado da lista porque, apesar de todo o tempo de auge, falhou num aspecto que é uma absoluta pedra de toque: saber sair. É pena as últimas duas temporadas.

07 - Desmond Hume (Henry Ian Cusick), Lost
I'll see you in another life, brotha. Claro. O escocês, um secundário sempre ali a modos de protagonista, foi das personagens mais perturbadoramente sedutoras do imenso Lost, e teve a capacidade de, durante os anos dessa grande obra, nunca ter perdido o interesse, recriando-se uma e outra vez. Mereceu o protagonismo a que teve direito na season finale.

06 - Johnny Drama (Kevin Dillon), Entourage
Nem o E, nem o Turtle, nem o sex symbol Vinnie Chase. Do bando, do alto da 7ª temporada, é o extraordinário Johnny Drama a verdadeira estrela, o Drama genuíno, bom coração e do seu profundo e bromanceado sentido de humor. Sem falar de que cresce gigantemente desde a certa discrição que o envolvia na 1ª temporada.

05 - Marshall Eriksen (Jason Segel), How I Met Your Mother
É daqueles que se entranha. Numa série que o afasta da ribalta por várias razões, o Marshall grandão, nórdico, puro e animalesco, na sua incontornável team-up com a Alyson Hannigan, é uma personagem de quem, mais do que deslumbrar, se passa a gostar.

04 - Barney Stinson (Neil Patrick Harris), How I Met Your Mother
Uma lenda, tão chocantemente gay como um tipo chamado Albus Percival Wulfrico Brian Dumbledore. Uma lenda.

03 - Sawyer (Josh Holloway), Lost
Não era o Jack, nem o Locke, nem o bem, nem o mal. O nome maior do Lost era o assombrado James Ford, retinto, dorido e crente. Os twists and turns, os fantasmas, o sentido de humor negro e refinado, o pragmatismo e a sua alma de caminhante tortuoso, tornam-no numa das maiores personagens que já segui.

02 - Ari Gold (Jeremy Piven), Entourage
3 Emmys e 1 Globo de Ouro falarão por ele. É impossível falar do irascível Ari Gold, da sua falta de escrúpulos com bom fundo, no que isso possa significar, do seu fulgor, da sua pujança e, absolutamente, da sua inigualável violência verbal, sem ter o prazer de ver o autêntico show que deu nos quase 10 anos de Entourage. No próximo Verão, estaremos cá para a despedida.

01 - Denny Crane (William Shatner), Boston Legal
Terá sido o primeiro grande ícone da minha juventude seriísta, e é extraordinário como continua a ser, ao fim destes bons anos, um personagem único e inimitável, conjugador de quase todas as vertentes conjugáveis nestas coisas da ficção, do drama à comédia, da confusão à eloquência ,tudo ao mesmo tempo. É ele o exemplo da fusão homem-personagem, e é isso que sempre exalou. Um quarto de século antes de andar por cá, já o gigante William Shatner andava a ser estrela em Star Treks. Às portas dos 80 anos, ainda é vê-lo aí a estrear séries. É um mito, o maior de todos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Em memória de todos os que já pereceram à espera duma sessão tranquila

Tenho saudades de ir a uma sala de cinema. Saca-se tudo da internet, sejam versões screeners ou DVD rip, mas não é a mesma coisa. Proliferam agora as versões HD, mas o som não é o mesmo, o ambiente não é o mesmo, e o deslumbre também não. Não se confundam, eu até sou um indivíduo francamente caseiro, que por regra vê pouca beleza em despender tempo livre em locais apinhados antes da meia-noite, o que me torna num misto de antisocial e ser ininteligivelmente superior, mas o cinema sempre foi uma saudável excepção.

Não se confundam novamente. Eu gosto muito do Porto, mas o Porto não é a minha casa, e sobretudo não tem o sol do Funchal, a falta de vento do Funchal, e o aconchegante calor perene do Funchal, associado à proximidade do mar e a centros comerciais perto de passadiços quentinhos e bons de passear. No Funchal, eu até sou socialmente de excepções. Já no Porto tenho menos hipóteses, dado o problema gravíssimo de haver um bocado de gente a mais. Rusticamente, deverei ser um tipo de cidade pequena, suponho. No Funchal, eu posso ir ao cinema duas vezes por dia, todos os dias da semana (isto numa equação metafórica que desconsidera os preços pornográficos dos bilhetes), e ter um aproveitamento de satisfação na ordem dos 90%. Claro que na sala pode estar só mais uma pessoa, e eu tenho a certeza à partida que essa pessoa vai ficar religiosamente sentada ao meu lado, mas a experiência diz-me que isso são regras secretas que todos os cinemas do mundo têm de respeitar, em nome da inter-relação e do calor humano.

No Funchal, eu posso ir ao cinema com evidentes probabilidades de não ter gente com os pés em cima da minha cadeira, gente a cuspir pipocas, a guinchar, a rir, a falar alto, a avacalhar, a apalhaçar, a não perceber o filme em voz alta (e pensem um bocado na beleza deste conceito) ou a tentar, através de métodos estupidificadores, cortejar jovens donzelas cortejáveis através dos mesmos. Por tudo isso, passo à porta dum cinema no Porto, mas já nunca páro. Antes ver lojas (não exageremos, mas ilustrativamente é uma contraposição gira).

Acho que tenho pena de quem nunca viu uma sessão descansado. Ou quase nunca. E, como sou egoísta, tenho pena de mim próprio nesta minha espécie de desterro cinematográfico. Tenho saudades de ir ao cinema, repito. Também as terei do Funchal, provavelmente.

domingo, 31 de outubro de 2010

Veetle plugin


Isto de consumir canais pagos de graça via net é tudo muito injusto. A SportTv paga a sério pelo exclusivo dos jogos, tem qualidades, tem os melhores comentadores, os melhores programas, a melhor cobertura e a maior dedicação, pelo que a realidade é que eu roubo, e irrita-me reconhecer a minha idiossincrasia de português chico-esperto, que reclama de tudo e pede justiça, mas só até poder tirar proveito e enganar e ser porcalhão, estejam garantidas as facilidades e atropelados os privilégios dos outros.

Agora agora isso também não interessa grandemente. Idiossincrasia é uma palavra muito bonita, e isto de ser latino tem toda uma poesia envolvente, que nunca poderemos renegar verdadeiramente. É assim que nós somos. Além de que o facto de eu fazer mea culpa abona a favor da minha integridade existencial, e também é facto que, no pré-faculdade e sobre a asa paternal, eu paguei durante anos o serviço da TV dos Oliveirinhas bem caro, e para não o ter usado assim tanto. Isto tudo para falar do estupendo mundo dos streamings. Só lhes toquei quando cheguei à Universidade, ainda que, sendo justo, deva dizer que só os descobri à gente grande há pouco mais dum ano, andava eu ingénuo e menosprezado nas JustinTvs desse mundo. O cerne de toda a minha felicidade chama-se Veetle plugin, e é, como o próprio nome indica, um plugin que é como que um ad-on ou uma espécie de acrescento em português mais mastigado, e que permite que eu veja futebol não com cortes sucessivos e imagem tremida e comentários eslovacos, mas em qualidade HD, emissão ininterrupta e comentários no mais divinalmente matizado português (isto para a nossa ZON Sagres, que não me negam a boa da Sky ou da ESPN quando sucede).

A par dos senhores que fazem as legendas de graça, e alimentam a minha preguiça eterna tendente a bloquear mentalmente a aprendizagem progressiva do inglês falado, este pessoal que se lembrou de inventar o Veetle, mesmo apesar do nome sonante a produtos de higiene feminina, residirá durante muito tempo no meu coração.

sábado, 30 de outubro de 2010

Reis são para os mortais


50 anos neste mundo, por D10S.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quoteando Boston Legal #1


Alan Shore: Remember when we went skeet shooting together?
Denny Crane: I do.
AS: I barely remember you heading a single skeet.
DC: I'm a game player.

(...)
AS: Tara told me that once she almost died and she thought of those who loved her. But I found in that moment it wasn't who loved me but rather who I loved. You know whose face I saw, Denny?
DC: Mine.
AS: Liza Minnelli's.
DC: Crazy son of a bitch.

(James Spader e William Shatner no eternamente assombroso Boston Legal, Temporada 1, Episódio 10)

Desta vez não é entre Ronaldo e Messi

Pela primeira vez, a Bola de Ouro da France Football e o troféu de Melhor do Ano da FIFA juntaram-se para eleger o melhor futebolista do planeta. Fazia confusão há bastante tempo que assim não fosse. A FIFA criou o seu galardão em 1991 e criou-lhe progressivamente impacto e respeito, mas a France Football andava nestas coisas desde os anos 50, e mantinha o seu prestígio muito tranquilamente inabalado. Dada a dimensão dos dois, era cada vez mais pertubador (e raro) a Bola ser dada a um e o Melhor do Ano a outro, pelo que, nos últimos anos, a Bola, entregue poucos meses antes, cada vez mais servia para anunciar o vencedor FIFA, em Dezembro.

Curiosamente a fusão surge num ano em que os dois melhores e mais determinantes do mundo, Messi e Ronaldo, não merecem absolutamente ganhar. Apesar dos naturais anos fortíssimos a nível pessoal, tanto um como outro falharam a Liga dos Campeões e o Mundial (menos Messi sim, mas também), pelo que uma eleição que caísse num dos dois representaria uma descredibilização pública, que acredito nenhuma das entidades deseja desde o ano um. Sobrará por isso uma boa dose de indefinição, e pelo menos uma mão cheia de grandes temporadas a premiar. É um ano invulgar e entusiasmante nesse sentido, já que o provável vencedor será um nome “menor”, depois de Messi, Ronaldo e Kaká.

Antes de aprofundar os que estão, é imperioso, no entanto, falar de quem foi esquecido, e do nome em particular que suscitou polémica desde o anúncio da lista, na minha opinião mais do que justificada: Diego Milito. O trintão que Mourinho descobriu em Génova, então já quase condenado para sempre ao ocaso dos grandes palcos, só não cabe numa lista destas para quem não tiver visto futebol na última época. Logo Milito, o homem do golo que valeu o campeonato ao Inter, do golo que valeu a Taça de Itália e do bis no Bernabéu que valeu a final da Liga dos Campeões. Logo ele, quando estão Dani Alves, Eto’o ou Klose. Milito não ganharia de facto, mas se são nomeados 23 é porque isto tem muito de simbólico, e trocá-lo pelos nomes mais importantes é tão só cair no ridículo. E é pena.

Dos candidatos, acredito que a justiça determinaria um quinteto desenhado entre Xavi, Sneijder, Robben, Forlán e Müller. O alemão foi a suprema revelação da época, e espantou do Bayern que foi à final da Liga dos Campeões à Alemanha caída nas meias-finais da África do Sul. Robben foi o jogador mais determinante desse extraordinário Bayern, e a segunda força motriz da Holanda finalista do Mundial. E Forlán, aos 31 anos, ganhou a Liga Europa e bateu toda a gente como o Melhor Jogador do Campeonato do Mundo.

No entanto, a verdadeira discussão residirá no duelo entre dois baixinhos de 1,70m. Xavi é extraordinário, toda a gente sabe disso, e além de tudo o que já tinha ganho nos últimos dois anos, fez questão de ser o jogador mais determinante da Espanha dona e senhora do Mundo. Seria um vencedor natural. Ainda assim, o meu prémio seria holandês. Das botas de Wesley Sneijder, o Pequeno Genial, proscrito em Madrid e ressuscitado a preço de saldo por um feiticeiro português, saíu uma triplete em Milão, a consagração como Melhor Jogador da Liga dos Campeões e a incrível caminhada da Holanda mecânica até à final de Joanesburgo, na qual muito poucas almas acreditariam. Perdeu, é verdade, mas nem por isso a época de Sneijder é menos perfeita. No ano dos underdogs, não haverá melhor vencedor para a Bola de Ouro FIFA.
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Em que situação se encontraria o país sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?

Cavaco anunciou a recandidatura esperada. E em grande, tanto que até deu para anunciar que o país estaria muito pior sem ele nesta crise. É que hoje, ao contrário de há um ano atrás, o cenário parece bem menos difuso, e Cavaco já nem tem de omitir o insuflado auto-elogio. O que se escreve é que Manuel Alegre tomou quase todas as más opções, e ficou perdido algures a meio caminho, entre o suporte institucional quase obrigado do seu próprio partido e o apoio declarado dum Bloco de Esquerda que já o cortejava há muito tempo. Hoje, ao contrário de há um ano atrás, diz-se que Manuel Alegre está esgotado, na cabeça e no discurso, e as sondagens pendem quase inevitavelmente para Cavaco. O mesmo Cavaco titubeante de sempre, o mesmo Cavaco na sombra, que só na sua cabeça teve uma acção impagável que evitou que Portugal estivesse hoje ainda mais fundo no poço.

O Cavaco "discreto", que nunca diz verdadeiramente, nem afirma, nem pensa nada, e que se vende como entidade superior, acima da sujidade que é a política actual, logo ele, senhor de 10 anos como Primeiro-Ministro e de 4 como Presidente da República, nos últimos 25. O mesmo Cavaco assustadoramente anti-carismático, ou, como escrevia Daniel Oliveira ontem, o Cavaco que "é a política em tudo o que ela falhou", que é "o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos".

Para mim, não importa se Manuel Alegre geriu mal os apoios do BE ou do PS. Não importa se falou mais do que devia, ou se soou demagógico, ou se foi exagerado, ou se se colou a posições aqui ou ali esquerdistas de mais. Hoje, como há um ano, continua a interessar-me somente uma coisa: quando olho para ele, ou quando o oiço, sinto a atitude, o mote, a genuinidade e a vontade de fazer alguma coisa. Vejo a vontade de mudar. E vejo, acima de tudo, um líder. O líder que Cavaco nunca vai ser.

sábado, 23 de outubro de 2010

Era só para dizer que vos amo a todos,

E que o Ronaldo vai com 11 golos nos últimos 6 jogos.

E que o Real de Mourinho passou da fase "estamos a crescer sustentadamente" para a fase "isto é a puta da loucura".

Nada a acrescentar.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ainda o duelo

Pelé faz amanhã 70 anos. Para muitos o Melhor Jogador da História, FIFA incluída, o brasileiro fez por começar uma semana tão especial, e na qual teria sempre a atenção mediática de que tanto gosta, bem cedo: veio insistir que Maradona, além de não jogar de cabeça nem de pé direito, é um drogado, e que drogados nem são exemplo, nem deviam ter trabalho. Ou seja, os anos passam, mas a obsessão continua a mesma: Pelé não existe sem Maradona, não é falado sem Maradona, e cúmulo, nem sequer é notícia sem ele, mesmo às portas dos seus jubilosos 70 anos.

Com 20 anos, é evidente que não vi nenhum dos dois jogar. Nunca lhes poderei julgar o talento, mas poderei sempre absorver o mito, e, sobretudo, ver o que, tantos anos depois, os dois representam. António Boronha escreveu uma vez que, entre os dois, o maior seria sempre Maradona, porque um viciado em droga merece mais respeito do que um viciado em dinheiro. Devo dizer que, para mim, Pelé sempre foi isso: um viciado em dinheiro. Da publicidade ao discurso, do politicamente correcto ao carácter, sempre o vi obcecado por aparecer e doente por atenção. Só o concebo nessa sua construção eterna de homem-modelo, a imagem que idealizou para se associar às multinacionais e fazer render.

No processo, contudo, nunca conseguiu disfarçar a sua profunda falta de carisma, e é por isso que, por milhares de votações que o elejam o maior seja do que for, Pelé vai ser sempre um personagem secundário na visão da grande maioria dos seguidores do futebol como desporto-paixão. Porque qualquer um pode construir uma imagem, mas ninguém pode construir empatia. E Maradona é exactamente isso.

Foi consumido pela cocaína, dopou-se, aproximou-se da Máfia, falhou e voltou a falhar, desiludiu, perdeu, agrediu e ofendeu mas foi sempre, sempre, genuíno. Maradona exala o que sente, mobiliza e apaixona, e continua a ser, em tudo o que faz, maior do que a própria vida que foi tão ingrata para com o seu talento. Maradona é daqueles de seguir até à morte, porque temos a certeza que existe convicção até no seu gesto mais pequeno. Isso não se compra nem se constrói. E sim, talvez ele nunca vá ser um exemplo. Mas, para mim como para muitos outros, será sempre uma inspiração.

É por isso que, mesmo com os tais 30 anos a cimentar o mito, se compreende facilmente o porquê de, ao auto-intitulado Rei, continuarem a não bastar os mil golos, os três Campeonatos do Mundo, a adoração do seu país, o endeusamento da própria FIFA, o patrocínio da Mastercard ou os 15 milhões de euros que alegadamente faz por ano em direitos de imagem. Infelizmente para ele, Pelé só queria verdadeiramente o que nunca vai poder ter: devoção da parte de quem o segue. A mesma devoção que fará perdurar um baixote gordo que se drogava e que, para o Rei, não sabia jogar de pé direito nem de cabeça.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Lá está

"Teixeira dos Santos foi apanhado desprevenido. Nunca pensou que o governo chegaria até Outubro."

e

"Como se isto, em matéria de erros, não fosse o suficiente, a Ascendi - da Mota-Engil - alertou para que "só nos são devidos 150 milhões de euros, relativos a 2010", correspondentes a alterações nos contratos das SCUT (auto-estradas sem custo para o utilizador) concretizadas no ano passado.

Os 587 milhões de euros inscritos como "Reposição do equilíbrio financeiro - Ascendi" nas Despesas Excepcionais de 2011 do Ministério das Finanças, são "um lapso, que já pedimos ao Ministério para corrigir".

Ou seja, há 400 milhões que foram colocados a mais
[no Orçamento do Estado].


Podemos ter o leite com chocolate de volta, sff?"

no sempre bom espírito do 31 da Armada, aqui e aqui

A realidade é dura, mas é a realidade

"O Orçamento do Estado que vai ser votado, a 29 de Outubro, no Parlamento, é mau. Todos os portugueses sabem isso, porque todos (ou quase todos) vão sofrer as consequências. Vai provocar uma significativa contracção do consumo e do investimento e provocar recessão? É natural; podia ser mais contido na procura de receitas e mais ousado na diminuição da despesa? É provável; tem incongruências, como a aplicação da taxa do IVA a 23% ao leite com chocolate e a taxa de 13% ao vinho? É evidente; vai provocar protestos sociais, nomeadamente nos segmentos mais protegidos e com maior capacidade sindical, como os juízes e os funcionários públicos? É inevitável; é possível reduzir o deficit orçamental para 4,6 %, em 2011, de maneira substancialmente diferente? Duvido."

Belo belo belo


Voltei ao Boston Legal.

domingo, 17 de outubro de 2010

Eleanor

Já vi muitos filmes muito bons. Já vi alguns dos melhores de sempre, e tenho consciência do que são os melhores que alguma vez vi. Tenho-os da minha lista pessoal do IMDB à minha estante do quarto, e tenho-lhes, sobretudo, devoção. É por eles que o cinema me apaixona. Ainda assim, essas interpretações, essas estórias e essas músicas não são dos filmes da minha vida. Os filmes da minha vida são os que eu já vi 10 vezes, e que, sobretudo, cresci a ver, vez sobre vez, naquelas tardes eternas da SIC para que eles foram feitos. Os filmes da minha vida são os filmes imperfeitos, que têm clichés e exageros e que nunca poderiam ser reconhecidos ou ganhar alguma coisa. Os filmes da minha vida são dois: o Armageddon e o 60 Segundos. Curiosamente, não via nenhum dos dois há muito tempo. Hoje revi a última meia hora do 60 Segundos e, até para um mancebo como eu, que cresceu alérgico a carros, o deslumbramento continua a ser inevitável: se um dia eu for um gajo muito rico, vou continuar a ser alheio a carros. Mas também vou ter a Eleanor na garagem.


Quando o Teatro dos Sonhos é assombrado

Liga Inglesa, 8ª Jornada

Manchester United - WBA, 2-2

Para quem só viu a 1ª parte, o 2-2 é um desfecho chocante. Curiosamente, para quem viu tudo também. Depois de 2 empates seguidos, o United entrou determinado a afastar fantasmas, e aos 25 minutos até já ganhava por 2-0, mercê do seu melhor futebol, o típico jogo de transições rapidíssimas em que a equipa de Ferguson se sente tão bem. E isto sempre perante um West Bromwich absolutamente inofensivo e cinzento, que antes ou depois dos golos, nunca jogou nada que se visse. Acontece que, depois do 2-0 e do intervalo, a equipa de Di Matteo marcou mesmo 2 golos. Logo no reatamento, do nada, um livre absurdo resultou num auto-golo e no 2-1, e esse é o momento que decide o jogo: o coração do United caíu-lhe aos pés, e a equipa de Ferguson ficou aterrorizada perante um adversário tão inofensivo como o West Bromwich. Tanto que os baggies tiveram mesmo de explorar tamanhas fragilidades emocionais. O WBA aí sim carregou, e conseguiu empatar naturalmente nem 10 minutos depois, num exemplo perfeito do desnorte do United, um frango imenso de Van der Sar. No 3º jogo seguido a empatar, e com 5 empates em 8 jogos, o United precisa de resolver a sua cabeça com urgência.

Para o desfecho muito terá contribuído a saída de Giggs por lesão, aos 40 minutos, num jogo em que andava a fazer enormidades, do alto dos seus 36 anos. Quebrou o capitão, com a sua sobriedade e capacidade de gerir o jogo, e viu-se a falta que fez no início da 2ª parte. Nani está no momento brutal que se sabe, e foi o melhor em campo, com um golo, uma assistência e a jogada mais perigosa do United em toda a 2ª parte. Pena que que, depois do 2-2, também se tenha eclipsado. Nota ainda para Berbatov, finalmente com espaço e confiança a titular, a demonstrar, além de tudo o resto, a qualidade que tem a jogar de costas para a baliza.

A Van der Sar começa a faltar pujança, e não é só coincidência que o United tenha a pior defesa entre os 5 primeiros. Naquela que deverá ser, aos 39 anos, a última época do holandês, Ferguson terá de saber gerir muito bem a situação. Chicharito continua a marcar como gente grande, mas na altura emocionalmente mais difícil do jogo foi um a menos. Gibson é uma piada, e Anderson não admira que queira voltar a Portugal, tão distante anda do que já prometeu: sem rasgo, distante do jogo e donde gostava de jogar, acabou por comprometer muito mais do que ajudar.

Vai hallando o Madrid

Liga Espanhola, 7ª Jornada

Barcelona - Valência, 1-1

Só vi a última meia-hora do Barça - Valência. Pese o início de época um tanto ou quanto irregular, e num jogo de risco com o líder, que estava empatado nessa altura, não se viu nada menos do que o Barça de sempre. A equipa de Guardiola pôs em campo a confiança inabalável nas suas capacidades, no toque, no desiquilíbrio e na classe, e, com um Valência completamente anulado, tenha sido por mérito catalão ou demérito próprio, o Barça só precisou de rondar e insistir normalmente para desfazer o empate. Mais do que Messi e Villa (que falhou bem mais do que devia, ao contrário do que é da praxe), jogo para Xavi, Iniesta e Pedrito, que está melhor de cada vez que o vejo.

Málaga - Real Madrid, 1-4

O Real entrou na época das goleadas: depois dos 6 ao Deportivo, 4 ao Málaga de Jesualdo. Insisto que o 11 de Mourinho ainda está distante do que pode jogar, e que a melhoria dos resultados não está necessariamente associada a uma maior produção consistente de jogo. Esta é resultado, e isso foi evidente na Rosaleda, dum grande crescimento emocional da equipa. Mesmo sem entupir de jogo a área adversária, e mesmo a comprometer alguma coisa atrás, o Real tem agora uma facilidade quase perturbadora em materializar a maior qualidade individual dos seus jogadores. Num jogo que nem estava interessante, as duas primeiras oportunidades tinham sido logo duas bolas aos postes, antes de Ronaldo ter isolado Higuaín e marcado ele próprio. O Real ainda não é uma máquina de jogar futebol, mas está a evoluir de maneira indiscutível, e sustentadamente. E, para já, é líder e única equipa sem derrotas, com a melhor defesa, o melhor ataque e o melhor marcador.

Mais um jogo fantástico de Ronaldo. 2 golos e 2 assistências, e está mais do que regressado o colosso, que até já é o melhor marcador do campeonato. Higuaín segue para o pecúlio do costume, e agora é Ozil, mais do que Di María, quem anda a dar nas vistas: grande trabalho no 2-0 e um penalty ganho. Apesar de tudo, mantém-se a sensação de ainda faltar "peso" ao ataque do Real: Kaká, claro. A defender, duas notas: acredito que Lass pode dar bem mais à equipa do que Khedira; e Arbeloa e Pepe não dão garantias suficientes.

sábado, 16 de outubro de 2010

Um rei que nunca vai ser

«Eles [argentinos] passam o tempo a tentar encontrar alguém que possam comparar a Pelé. Na época áurea do Santos e do Real Madrid, na década de 1960, diziam que Di Stéfano era melhor que Pelé – e Di Stéfano fintava com a direita e com a esquerda e cabeceava bem. Maradona só jogava com a esquerda e não cabeceava bem. Por isso, quando vou à Argentina, digo-lhes: discutam primeiro quem é o melhor da Argentina e depois tentem ver quem é o melhor do Mundo».

(...)
«[Maradona] teve muita sorte porque, apesar de tudo o que lhe aconteceu de errado na vida, como as drogas, há pessoas que ainda lhe oferecem emprego. (...) Se essas pessoas fossem conscientes, dir-lhe-iam que ou se reciclava ou não teria trabalho. Não há maneira de apresentar como um exemplo alguém que faz coisas erradas.»


Pelé é ridículo. Continua a só ser notícia quando fala dum Maradona que nunca fala dele, como um velho senil a quem já ninguém dá crédito, e a quem ninguém pergunta nada, mas que insiste em gritar aos ventos que ele é que é o Rei, o maior de todos, e, sobretudo, que ele, o viciado em dinheiro e o doente por atenção, é que é o exemplo de homem modelo. Ao absurdo Pelé continua a não bastar a vénia do seu país, o endeusamento da FIFA e o patrocínio da Mastercard. Infelizmente para ele, Pelé só queria verdadeiramente o que nunca vai poder ter: o respeito e a devoção do povo. Os tais que farão perdurar o baixote gordo drogado, que não sabia jogar de pé direito nem de cabeça.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A impotência do Benfica

Luís Filipe Vieira voltou a vir a público esta semana desencorajar a ida de adeptos do Benfica aos jogos fora de casa. Na semana passada, teve a honra de ser recebido por um ministro, para exigir que o autocarro do Benfica não seja apedrejado quando for ao Porto. E garantiu que o Benfica não joga no Dragão, se tal acontecer. Antes disso, já tinha vindo dizer que, em virtude da perseguição que está a ser movida ao Benfica pela Arbitragem, o clube estava a ponderar o boicote à Taça da Liga, para passar uma mensagem de força à organização que gere o futebol profissional em Portugal.

Ou seja, depois de perder a Supertaça, de perder 3 das 4 primeiras jornadas, e de perder em Gelsenkirchen para a Liga dos Campeões, o presidente do maior clube português acha que a melhor forma de se justificar perante os seus adeptos, é fazer a promessa absurda de desistir duma competição oficial. Ao mesmo tempo, Vieira bate-se para que a equipa não tenha apoio fora da Luz, numa tentativa orgulhosa de atacar as já mais do que depauperadas receitas do clube-médio da 1ª Divisão, porque isso era ser justiceiro e estar à altura da sua dimensão.

Ainda houve tempo para consumar mais um épico choro público, graças à conivência dum ministro que, aparentemente, não terá grande coisa para fazer, nos dias calmos que o país atravessa. E claro, a cereja no topo do bolo foi ameaçar o boicote ao próprio campeonato, porque a Liga precisa do Benfica, mas o Benfica não precisa da Liga.

Toda esta odisseia de Filipe Vieira para branquear o falhanço que foi o início de época do clube a que preside, e a sua tentativa desesperada para condicionar as arbitragens e inculcar a opinião pública, já passaram do absurdo. Além de associar o maior clube português a este manual de dirigismo terceiro-mundista, Vieira passa, na verdade, noções bastante evidentes: o Benfica actual sente que é inferior ao Porto, sente que não vai ser Campeão, e, no futuro imediato, está aterrorizado por ter de ir ao Dragão daqui a menos de um mês.

Em vez de defender os meios e a força do seu clube, Vieira escolheu o caminho mais fácil, e tentou estupidificar a opinião pública e os seus próprios adeptos. Como há de perceber mais cedo ou mais tarde, raramente o caminho mais fácil dá bom resultado.
também aqui

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Porque será que o ambiente era mau e era casos em todo o lado?

"é claro para todos - para todos, não! ainda há alguns 'observadores' que insistem em não querer observar o óbvio - de que se respira um novo ambiente, incomparavelmente muito mais saudável, em torno e no seio da 'selecção nacional'.

(...)
a título de exemplo: uma das primeiras decisões do actual seleccionador foi a de acabar com as salas de jantar separadas.

(...)
comentário de joão abreu recebido no 'facebook':

«É verdade. No tempo de Queiroz havia uma sala separada para os técnicos que não integravam o grupo do seleccionador (os que falavam ingles até à mesa de refeições) que ficou conhecida por RDA. Essa questão foi a causa de um quase levantamento de rancho dos jogadores, da primeira vez que estiveram em Port Elisabeth. Os responsáveis do hotel desconhecendo essas bizarrias de Queiroz tinham posto as mesas de jantar todas na mesma sala e Queiroz decidiu que enquanto ele não acabasse de jantar os ditos técnicos não se poderiam sentar à mesa. A cena acabou com C. Ronaldo, perfilado à frente da mesa de Queiroz, onde também se encontrava Madail, a dizer que os jogadores também não jantariam se a cena se voltasse a repetir. Queiroz, como é seu timbre, levantou-se intempestivamente e largou para o quarto a mandar àquela parte todos os que lhe apareceram pela frente...»"

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ah mãe!, ah mãe!, AH MÃE!

Acabaram de adivinhar que a palavra é recibo!! RECIBO!, nunca pensei!

Uns orgulhosos 18 anos de televisão privada, que estimulam a criatividade, e, sobretudo, põem a qualidade lá em cima

O novo programa da Fátima Lopes é assustador. Não que os outros fossem bons, mas este, por ser o primeiro depois da luxuosa transferência à la Figo de Carnaxide para Queluz, é um transtorno tanto maior. Não que a SIC os faça melhores, mas estou só a analisar uma merda de cada vez. A Fátima Lopes, provavelmente a mulher com mais audiências da tv portuguesa, o que diz muito sobre a nossa televisão diária, ainda mais sobre a nossa matriz sócio-cultural, e nos faz desejar ver novelas o dia todo, passou os últimos 20 minutos a gongar uma merda chamada "nanana", à média de 3 vezes por minuto, para se referir à palavra secreta "RECIB_", que tem a ver com trabalho e é verde!, só para, requintadamente, não desvendar em directo a mítica palavra. Entretanto, ela como que paga contas de supermercado às pessoas, mediante estas se abrutalharem à vista do mundo, ora a rodarem dentro de frigoríficos, ora a levarem com bolas bombeadas na tromba. Ah, e aproveita para, no meio disto tudo, contar as estórias de quem se vem prostituir, num tom bués fofo e brincalhão.


Querido FMI, prometes que se entrares cá, aproveitas e também acabas com esta merda?

Growin up


The Boys Are Back é um filme sobre família. Não a família perfeita, a dos filmes, mas a família da vida real, uma que foi talhada, e que teve de se reerguer, e, sobretudo, de reaprender a viver. É um filme necessariamente sobre amadurecimento, e sobre as dores de crescimento não só dos filhos que já não têm a mãe, mas dum próprio pai, que, do nada, passa a ter o mundo às costas.

Um dos trunfos mais curiosos do filme é a contenção e a continuidade da acção. Não há surpresas, nem nada chocantemente cinematográfico, mas sim a permanente preocupação em manter uma âncora para com a vida a sério, numa tentativa de nunca poetizar a acção, e de humanizá-la o mais possível. E é um filme que, mesmo sem esses twists, produz momentos emocionalmente fortes.

A fotografia é muito cuidada, e a banda sonora é bonita. Clive Owen cumpre, como lhe é costume, e o pequeno Nicholas McAnulty (8 anos!) é um nome a reter para o futuro. Recomendado.

domingo, 10 de outubro de 2010

Quando uma comédia acerta


Get Him to the Greek é uma das melhores comédias do ano, ao que não será alheia a sua aura britânica (realizador/argumentista e protagonista). A estória mergulha no mundo do rock, nos dias imediatamente antes do possível comeback duma lenda desacreditada, e contrapõe o esforço dum novato numa produtora musical, que tem de garantir que o mito cumpre os planos e faz o concerto, com todo o universo de exagero e luxúria que esse continua a alimentar à sua volta. É um filme todo ele de abuso e de perversão, com um texto de calão agressivo mas sempre divertido (nunca ofensivo), que recria superiormente a transição do tipo normal, para o mundo do sexo, do álcool, das drogas e da ausência de quaisquer limites. Mais do que ter piada, é um filme que, por toda a sua provocação e despudor, faz-nos rir sinceramente, e não estamos a falar só de piadas circunstanciais, mas da base das próprias cenas, ou seja, das pequenas estórias que constroem e fazem avançar o filme.

Os ambientes são muito bons, e a realização de Nicholas Stoller (Forgetting Sarah Marshall) é excelente (músicas, slow-motions, cortes rápidos de cenas), pois, além de "pintar" o filme muito bem, dá dinâmica, o que é sempre determinante, ainda mais numa comédia um pouco maior do que o normal (1h50). Jonah Hill (Superbad) sai-se muito melhor num papel mais de constrangido do que de funny man, como é costume fazer, mas a estrela é o imparável Aldous Snow, interpretado por um Russel Brand que transborda realmente toda a essência duma lenda de rock, dos fantasmas à redenção, e do sucesso à vida "total", à queda e ao regresso.

Get Him to the Greek acaba por ter romance sem ser romance, por ter drama sem ser drama e, muito especialmente, por ter comédia sem termos a sensação de que já vimos aquilo tudo em qualquer lado.

sábado, 9 de outubro de 2010

Estamos de volta


Sobre a equipa, não haverá muito a dizer. Jogo fantástico de Nani, segunda parte assombrosa de Ronaldo (e é mais do que justo notar isso), Moutinho como o mais indispensável durante todo o jogo, mais dois laterais determinantes no processo ofensivo. As soluções do 11 mostraram-se, quiseram, puderam e gostaram de jogar, e quanto isso acontece, fica à vista o que podemos ser.

O jogo teve, portanto, pouco de táctico ou de técnico. Na essência, foi todo ele emocional. Paulo Bento não será nenhum deus da psicologia, mas se os curtos 3 dias de treinos pouco poderiam fazer pela mecânica da equipa, o que seria um pesadelo para outros, certo é que foram determinantes para a cabeça desta Selecção. Portugal fez o jogo que fez, e na minha opinião, o melhor de qualificação pós Euro-2008, porque finalmente sentíu que não era preciso complicar. Não era preciso condicionar o nosso jogo pelo do adversário, não era preciso um respeito desmedido que se tornava invariavelmente em medo, não era preciso ter receio de atacar e de jogar bonito e, sobretudo, de atacar e de jogar bonito quando já está 2-0 e, ainda mais, quando está 2-1 e o jogo até nos pode fugir das mãos. Deixámos de pensar pequeno, e isso voltou a ser a chave de tudo.

Talvez nem fosse tão difícil assim, e é provável que, em especial depois da catástrofe que foi o pós-Mundial, uma boa mão de treinadores entrasse e tivesse um efeito destes sobre a equipa. Para já, ficámos com a certeza de que Paulo Bento é um deles. Depois, a noção do que deve ser esta Selecção fez o resto.