domingo, 14 de janeiro de 2018

Os loucos de Anfield


Mais que de qualquer outro, foi a vitória de Klopp.

O profeta do futebol rock&roll foi, como quase todos, à Premier League à procura do seu lugar no mundo. Bicampeão alemão e vice-campeão europeu no Borussia, chegou já bem passados esses anos de negro e ouro, a um santuário onde, desde há muito tempo, só se reza por uma coisa: milagres.

Nestes dois anos, nem tudo correu bem. Duas finais perdidas (Taça da Liga e UEFA) não contam para os zero títulos, o regresso à Champions pouco consola o absentismo da luta pelo título e os zero pódios. Chegou depois da última grande armadilha de Mourinho, viu Ranieri ser campeão contra todas as casas de apostas e, no ano passado, na primeira época completa, nem viu Conte passar por ele. Nestes dois anos, o Liverpool continuou a padecer de alguns problemas morais estruturais, desde logo, o hábito de ser fraco com os fracos, o que continua a dinamitar época sobre época, mais a falta de nervo para a equipa ser mentalmente resoluta e competitiva durante nove meses. Chegou a sentir-se que a dormência e o carácter errante talvez já estivessem tão enraízados, que não haveria mesmo nada a fazer. O falhanço era uma inevitabilidade, o Liverpool não era para levar a sério e estava condenado a um lancinante complexo de inferioridade para com os gigantes de Manchester, o Chelsea, o Arsenal e até o Tottenham.

Mas Klopp subsistiu. Fez a sua via sacra num e noutro dos infindáveis meses de Premier League, deu a face de todas as vezes, nunca se assustou e nunca se escusou com a sua própria sombra. Respondeu a todas as dúvidas, sobre a génese desfeita do Liverpool, e sobre os seus próprios anos áureos, com um foco e um fôlego flamejantes, como se fosse um artesão obstinado, perfeccionista e incansável, disposto a começar constantemente de novo, depois de cada derrota. Acredito que, nestes dois anos, tenha havido momentos em que mais ninguém acreditou, se não ele. Sempre com a fome de um viciado pelo jogo, a precisar da próxima partida como de uma próxima dose, como se os dias custassem mais a passar, como se a redenção e a perfeição estivessem sempre ao virar da próxima esquina. Klopp nunca duvidou do que queria e nunca duvidou de que lá chegaria, e é por causa disso que, mesmo que ainda falte muita coisa, este já é um Liverpool como ele. É por causa dessa coragem que, nos últimos dois anos, mesmo com tudo o que se foi perdendo, o Liverpool nunca se fartou de jogar futebol.

Este ano, o destino fez a partida de lhe colocar Guardiola no caminho e é muito por causa dele que esta é uma história provavelmente sem final feliz. É cruel pensar o que joga o Liverpool, e porque joga o Liverpool, e depois perceber que o título é para Mourinhos, Contes e Guardiolas. A vitória de hoje é tanto mais espectacularmente simbólica, por causa disso. Estamos em Janeiro, mas comentei ontem que Anfield era verdadeiramente uma das últimas paragens que podia prevenir que este City reeditasse uma impossibilidade histórica que era ser Campeão Invencível na Premier League. E foi. Mesmo contra o Campeão que vai ser, uma das três melhores equipas do mundo, mesmo a começar a semana a vender a jóia da coroa ao Barcelona e acabá-la a perder o defesa mais caro de sempre, foi, e Klopp superou-se a si próprio, como o treinador que mais vezes bateu Guardiola (6 em 12 jogos), lembrando-nos a todos porquê. Num jogo entre estilos superiores, numa liga superior, acabou por ser, afinal, o carácter extasiante e a pureza da sua imprevisibilidade futebolística a fazer o cheque-mate. Como numa obra-prima de inspiração e improviso, como rock&roll a altos berros, intangível, incontrolável, imparável. Foi um livre-arbítrio numa liga que já estava condenada. Foi uma overdose e foi tão bonito e tão libertador.

Klopp não será campeão este ano e, se calhar, nunca será campeão no chão sagrado de Anfield Road. Mas é uma bênção tê-lo por perto, a lembrar aos extraterrestres o que é ser humano, e a lembrar aos humanos que, numa ou noutra noite das nossas vidas, podemos ser todos extraterrestres, se quisermos jogar de cabeça erguida e se estivermos dispostos a ganhar e a perder, a entrar e a sair de cena, mas sempre pela porta grande. Talvez Klopp seja campeão um dia. Mas se não for, é a tipos como ele que devemos a essência sagrada da Premier League, onde os únicos invencíveis, são os loucos que nunca desistem.

sábado, 13 de janeiro de 2018

The Shape of Water: quando a fantasia nos distancia


Ponto prévio: tudo o que escrevo sobre The Shape of Water deve ser lido à luz de uma diferença criativa por vezes inultrapassável quando o tema são filmes de fantasia. Guillermo del Toro é um (o) fantasista por excelência e não tenho dúvidas de que quem faz o seu género, será naturalmente tocado pelo filme, pela sua decoração e pela maneira como ele o propõe.

Começo, contudo, por confessar o mais primário: The Shape of Water pode ser exemplar para o seu público-alvo, mas não demonstra capacidade para ir muito para além disso, nem engenho para quebrar determinadas barreiras de forma e de linguagem, que o tornassem numa peça mais subtil, dialogante e, quiçá, universal. O filme conta a história de uma contínua muda, a trabalhar em instalações classificadas do Governo americano na década de 60, e a forma inteiramente inortodoxa como se apaixona por uma das criaturas ali em cativeiro. Pese todo o secretismo, o filme não faz, contudo, segredo disto muito tempo. O que acontece é, aliás, o contrário, e o espectador não tem nem tempo, nem sequer estímulo para digerir a proposta, nem para tentar que ela vagamente nos seduza.

A acção precipita-se, desde cedo, de forma extemporânea, ao bel-prazer de Guillermo del Toro que, não tenho dúvida nenhuma, faz um filme verdadeiramente entusiasmado para si próprio, queimando as linhas entre criador e fã. Já li (como elogio) que The Shape of Water coloca o mexicano no auge da sua liberdade criativa, de forma quase inacompanhável, o que se percebe sucessivamente em cenas quase abstractas, que deformam a própria narrativa, ao jeito de uma miríade de pinceladas febris. Esse descomplexo só acaba, todavia, por aumentar a distância para o espectador, em vez de convidá-lo a aproximar-se, e de uma forma quase irremediável.

A própria humanização dos monstros, que lhe é tão querida, e que traduz o combate ao preconceito por parte de todos aqueles que são diferentes e marginais na sociedade, por mais que represente um propósito notável, fica presa numa narrativa que é muito mais romantizada, e científico-ficcionada, do aquilo que seria necessário. Porque a humanização de um filme é necessariamente a sua capacidade para contar uma história que possamos assimilar, onde possamos ser nós a unir os pontos e a decantar uma moral maior e que nos diga alguma coisa, seja qual for o grau da metáfora, e mesmo que lá estejam todos os monstros do mundo.

The Shape of Water é um filme visualmente bonito, bem realizado e com protagonistas a boa altura, neste caso Sally Hawkins, se calhar o único ponto em que o filme consegue ser eficaz de maneira inortodoxa, e Michael Shannon, na sua austeridade mecânica de sempre (o resto do elenco nem tanto). Só não é um filme onde seja possível entrarmos, darmos alguma coisa de volta, nem chegarmos juntos a lado nenhum, depois de duas horas a viajar num onirismo alheio, muito próprio e muito distante.

6/10

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri: um tratado de humanidade


Quem já a conhecia, tinha de ficar entusiasmado com o registo drasticamente cáustico que o filme anunciava. Tinha tudo para ser uma jóia talhada naquela sua crueza extraordinária e na ostensiva falta de paciência que lhe parece correr nas veias. Se não foi um papel escrito para ela, como é costume dizer, acabou por sê-lo, de uma forma ou de outra. Frances McDormand é tudo o que dela poderíamos esperar, em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. O carácter brutal e brutalmente irresistível define-lhe uma personagem icónica, que marca o nível da temporada e escreve mais uma página de ouro na sua fantástica carreira (já ganhou um Óscar, um Globo de Ouro, um Tony Award e um Emmy, mas façam um favor a vós próprios e vejam um tesouro de minissérie, chamada Olive Kitteridge).

McDormand é, evidentemente, a reserva estilística e moral de um filme que, à sua imagem e semelhança, se escuda na própria rudeza para afastar todos quantos não sejam de confiança, e não queiram perder o tempo suficiente com ele. A olho nu, é uma excelente alegoria negra sobre crime, mas se formos capazes de ver para além disso, é um drama brilhante, uma história abnegada e singela de quem tem de sobreviver de alguma maneira, depois de já ter morrido na morte de outros. A sua incansável travessia no deserto e a inevitabilidade do seu falhanço, mais a maneira como ela se dá a essa derrota de forma tão sonante e espectacular, acabam por ser comoventes e contagiam-nos na mesma medida em que compadecem os que, de forma mais ou menos improvável, acabam por gravitar à sua volta.

Porque se Frances McDormand é a melhor notícia do filme, a segunda melhor notícia é o filme ser ainda maior do que ela. Pelo argumento ambicioso, cru e provocador e pelo que Martin McDonagh (do maravilhoso In Brugges) consegue dar às suas personagens, sem fazer muito caso disso, sem alarido e sem quase chamar à atenção. Three Billboards é um enorme filme, também pela generosidade da narrativa do sempre notável Woody Harrelson e, sobretudo, por aquele que para mim é a revelação do ano e, desde já, o meu favorito ao Óscar de Melhor Actor Secundário. Sam Rockwell faz, garantidamente, a performance da carreira, depois de demasiadas promessas durante demasiado tempo, uma que eu jamais viria chegar, e que a própria acção faz magistralmente questão de guardar.

O filme com o melhor título do ano é um oásis de humor de insulto, é agressivo, às vezes até gratuito, mas jamais presunçoso. É um filme que sabe falar de pessoas, da maneira difícil como são as pessoas, com atos em vez de palavras, com complacência e, acima de tudo, com redenção. É um trago forte, mas é um bálsamo para a alma.

8.5/10

sábado, 6 de janeiro de 2018

Molly's Game: o Mestre voltou para ficar


Um dos filmes mais cativantes da temporada, mais interessantes, eléctricos e curiosos de seguir.

Evidente que a isso não é estranho o facto de ter sido escrito pelo mago surpremo do diálogo televisivo, naquela que marcou, igualmente, a sua estreia absoluta na realização. Aaron Sorkin regressa dois anos depois, novamente com uma biografia em mãos, já com os tempos sombrios de Social Network completamente para trás. Molly's Game reflecte, não um crescimento sustentado, mas a afirmação cinéfila definitiva de Sorkin, depois de duas obras tão substanciais como Money Ball e Steve Jobs: o mestre está finalmente de volta ao palco, em grande forma, a jogar e a fazer jogar. Mesmo sem aparecer, é ele a maior estrela do filme, reclamando o estatuto enquanto um dos contadores de histórias mais brilhantes do nosso tempo, num regresso por demais saudado. Um regresso do melhor, depois de todas as partidas que a vida já lhe pregou, com uma candidatura assumida ao seu segundo Óscar.

No estilo falsamente ligeiro em que se sente mais confortável, a queimar linhas dramáticas com escapes de humor e fôlegos de ação, Sorkin faz-nos correr 2h30 atrás de puro perfume, num ecrã que nos mantém seduzidos pela sua história e pela sua protagonista, reiterando a capacidade para escrever personagens femininas que sempre o notabilizou. Jessica Chastain, apesar duma sensualidade impressionante, e mais do que nunca à flor da pele, acaba, contudo, por ficar à margem do que poderia ter feito, num filme que lhe estendia a passadeira e lhe dava um Óscar em bandeja de prata. Mais uma vez, é ela própria, porém, que demonstra falta de agressividade sobre o papel e uma incontornável incapacidade para explodir. Ficamos sempre à espera que chegue o seu momento, mas ela desvanece-se sem chegar a cumprir inteiramente o potencial da personagem, e é o próprio filme que perde estrutura com essa falta de intensidade. É um caso de estudo de uma actriz que tinha tudo para funcionar, mas que não consegue lá chegar.

Idris Elba, pelo contrário, numa rara oportunidade na época dos prémios, prova a personalidade e o rasgo que se lhe reconhecem, num filme que serviu até para ressuscitar Kevin Costner, com uma cena que começa por ser temivelmente forçada, mas que serve de invejável remate. Molly's Game é entretenimento a sério, uma maravilha na sala de cinema e um dos melhores bilhetes do ano.

7.5/10

The Last Jedi: a Força deu um passo atrás


Melhor que parte substancial das críticas, pior do que, apesar de tudo, me convenci a esperar.

D'Os Últimos Jedi ninguém poderá dizer que não se arriscou, depois das acusações do excesso de revivalismo d'O Despertar da Força, num esforço assumido para encontrar uma identidade própria, enquanto nova saga. Mais do que discutir a capacidade para fazê-lo, o que relevaria as diversas falências do filme, o que se questiona é, realmente, a necessidade de o fazer. Para mim, o que O Despertar da Força provou é que era possível viver não duas, mas três vezes, fazendo crescer novas personagens, a partir dessa reencarnação do que nos fazia mais fortes. Porque este não é, definitivamente, um legado qualquer. Em Os Últimos Jedi, mesmo por entre todo aquele carisma e aquela envolvência universais, cai-se no erro de pensar que é fácil reinventar universos e inventar tempos a histórias intemporais. E vai-se por esse caminho atalhado, prometendo muito e concedendo pouco, trocando a coesão do ideário pela gratuitidade da novidade e da acção, tentando cair em graça, sem ser engraçado, e cometendo, por fim, a lesa-majestade de desbaratar alguns personagens de luxo pelo caminho.

Manterei sempre a máxima de que é difícil falhar uma Guerra das Estrelas e assumo que, do ponto da vista da militância, são 3h de avidez, muitas vezes competentes, algumas vezes comoventes e umas poucas imemoriais e encorajadoras, e que isso já seria quanto baste. Todo o regresso já seria quanto baste. Será, contudo, fácil concordar que Os Últimos Jedi é inferior ao reinício da saga, que se precipita a coser uma narrativa à altura do que está em causa, e que desperdiça tempo precioso para o desenvolvimento das novas personagens, algumas delas activos verdadeiramente grandes. Feito o preço justo, foi pena. Ao tentar dar dois passos em frente, a Força deu um para trás. Que as experiências se corrijam.

6.5/10

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O que é que queres ser quando fores grande?


"Em 25 anos como futebolista, levei estas cores o mais alto que pude. Espero que vos tenha feito sentir orgulhosos. Este clube e esta cidade foram a minha vida." 
Francesco Totti

Há um ano estava a jantar em Trastevere. Enleados naquela delícia de ruelas e pracetas, seguimos o plano e acabámos por ir tocar à pizzaria do Ivo, porventura a mais estimada de todo o bairro. Como em qualquer boa casa romana, estavam cheios, mas como em qualquer boa casa romana, havia lugar para nós. Lembro-me de ter entrado na sala e de ter instantaneamente rasgado um sorriso, ainda muito antes de ter à frente a minha fina massa de finíssimo recorte: ali estava ele, emoldurado no meio da sala, com honras de Chefe de Estado ou de Imperador. Sem qualquer outra personalidade por perto, sem nenhum Papa, nenhum Presidente, nenhum actor famoso, nem nenhuma estrela de rock. Apenas ele, sem nenhuma outra sombra, como quase sempre, mesmo que porventura tivesse um pouco de todos eles. Só publiquei quatro ou cinco fotografias da viagem enquanto lá estive, mas essa foi uma delas. Uma fotografia da parede de um restaurante, numa das cidades-Mãe de toda a Cultura Ocidental. Lembro-me da Catarina me perguntar porquê aquela, mas lembro-me ainda melhor da cara do nosso adorável anfitrião quando lhe apontei o quadro antes de pedir o jantar. Haveria quem desse tudo o que tem na vida para instigar aquela gratidão e aquele orgulho. "Il nostro Franscesco, Re di Roma."

Haverá futebolistas maiores do que um país, mas Totti fez ainda mais difícil: foi do tamanho que a cidade onde nasceu precisou que ele fosse. E isso bastou-lhe sempre. Para ele, o Olímpico foi o maior estádio do mundo, porque foi o único onde ele quis jogar. Totti viveu no tempo em que era impossível fazer tudo o que ele fez. No eurofutebol das fronteiras escancaradas pela Lei Bosman, dos negócios hiperbólicos, das estatísticas estratosféricas, do melhor campeonato do Mundo em Inglaterra, dos maiores gigantes do mundo em Espanha, das Bolas de Ouro e da Liga dos Campeões. No tempo que não espera por ninguém, da lealdade condescendente de quem beija o escudo, mas tem de seguir a sua vida, ele desafiou-nos a todos. Sacrificou tudo, mas não foi a lugar nenhum. Ele, o enorme Francesco Totti, a maior estrela do Calcio, um galã de cinema, o homem que todos queriam ser, nunca jogou uma final da Champions. Foi campeão uma vez em 25 anos de carreira. Como os maiores de todos, foi o campeão que escolheu ser. No Verão de 2004, confessou uma vez ter pensado mesmo em seguir para Madrid. O assédio estava montado, o contrato estava em branco em cima da mesa e ele era a única coisa que sobrava entre si próprio e o maior clube do mundo. "No fim, a conversa que tive com a minha família lembrou-me de que é que a vida é feita. A tua casa é tudo o que tens." Haveria milhares de maneiras da sua gente despedir-se dele hoje. Lembraram-no de tudo o que ele ganhou. "25 anos com essa camisola. Ganhaste a maior batalha de todas. Ganhaste ao Futebol Moderno."

É impossível escrever o que é que Totti representa para Roma. É impossível não querer ter estado lá hoje. Imagino o silêncio tumular nas ruas, qual cidade abandonada, unificada em vigília, não enquanto sede da Cristandade, mas de algo tão pessoal e intransmissível como a sua própria identidade. Nunca se sabe bem o que é o espelho da alma. Pois em Roma, a alma tinha nome próprio. "As pessoas perguntam-me, porquê passares toda a vida em Roma? Roma é a minha família, os meus amigos, todas as pessoas que amo. Roma é o mar, as montanhas, os monumentos. Roma são os romanos, como nós. Roma é o amarelo e o vermelho. Roma, para mim, é o mundo. Este clube e esta cidade foram a minha vida." Gostava de lá ter estado hoje, a ver os autocarros mudarem os destinos para "Grazie Capitano", nem que fosse a ouvir o rumor do lado de fora do Olímpico, ou os velhinhos na rádio, ou os miúdos e os pais que não conseguiram entrar, mas que querem ser como ele, a ver nos cafés a última vez em campo do seu filho mais querido, na despedida mais antecipada e mais dura que ninguém nunca estaria preparado para fazer. Com os ultras da Lazio a dedicarem-lhe uma última tarja para dizer que "Os inimigos de uma vida saúdam-te, Francesco Totti." E a chorarmos como homens por sabermos que nunca o tornaremos a ver.

"Quando tinha 13 anos, bateram à porta do nosso apartamento em San Giovanni. A minha mãe, Fiorella, foi abrir e um grupo de homens apresentou-se então como directores desportivos. Mas não eram da Roma. Vestiam de vermelho e negro. Eram do Milan e queriam levar-me com eles. A qualquer preço. Teria sido muito dinheiro para a nossa família. A minha mãe recusou. Sabem o que é que lhes disse? Que quando és um miúdo em Roma, só tens duas opções. Ou és vermelho ou és azul. Roma ou Lazio. Mas que na nossa família não tinhas realmente duas opções. Nesse dia, ela ensinou-me a minha maior lição: que a tua casa é o mais importante na vida." No futebol globalizado, é difícil seres fiel àquilo em que acreditas. No futebol local, é ainda mais difícil estares à altura do clube da tua terra. Totti foi o melhor futebolista de um dos países mais importantes do mundo, sem nunca ter jogado nos seus maiores clubes. Por causa dessa escolha, perdeu a vida quase toda. Por causa dessa escolha, ganhámos nós. Ganharam todos aqueles que acreditam que não há futebol sem auto-estima regional, sem brio pelo clube dos nossos pais, com o qual crescemos à porta de casa, sem encarnação, proximidade e militância. "A Roma sempre foi mais do que um clube. A Roma era parte da nossa família, do nosso sangue, da nossa alma." 

Por causa dele, ganharam todos aqueles que acreditam que o futebol é pessoal, tem de ser. Que o futebol não se vê, nem se ouve falar; o futebol é para viver olhos nos olhos e para vestir a camisola, que o futebol só é futebol se pertencermos a alguma coisa. E que, por isso, nunca devemos ter vergonha do nosso lugar, nem da nossa gente, que nunca devemos ter vergonha da nossa luta, por maior que ela seja, que nunca devemos ter vergonha de acreditar. Durante 25 anos, todos queriam ter o Totti, todos queriam ser o Totti. Ele podia ter sido tudo o que quisesse, mas só quis ficar. E toda a gente ficou maior por causa dele. Essa coragem, a grandeza e a altivez foram o princípio e o fim e tornaram-se no ADN do clube e da cidade. A crença inabalável no mérito daquele escudo passou a ser, em si própria, a razão porque valia a pena ir até ao fim. Se o Totti fica, se o Totti acredita, quem somos nós para duvidar? Com ele, perderemos até ao fim e seremos maiores por causa disso. Porque há coisas muito maiores do que ganhar ou perder. O legado que ele deixa ao Futebol, nem o Futebol lhe poderá pagar. Sou da Roma desde o dia em que entrei com o meu pai nos Barreiros pela primeira vez.

Obrigado por teres acreditado como nós, Francesco.

Querermos ser como tu, todos os dias, é como a Roma ter ganho um scudetto. Todos os dias.

domingo, 10 de julho de 2016

Os sem-vergonha


“Não somos favoritos. Mas vamos ganhar.”
Fernando Santos

Para quem não ganhou nada na vida, estar quase a ganhar pode ser cruel.

Não é a nossa pele. É demasiado justo, demasiado apertado, demasiado desconfortável, como um fato que não queremos vestir. Como o exagero de responsabilidade que não queremos assumir. Não era suposto, não nos era pedido e é ingrato termos agora de dever alguma coisa. Perder era muito mais fácil. Porque é mais leve jogar sem esperarem nada de nós. É mais leve viver sem esperarem nada de nós. Temos o talento, o coração, e temos uma capacidade de sacrifício absolutamente inqualificável. Só não queremos ter de ganhar. Esse é, possivelmente, o único sacrifício que nunca aprendemos a fazer. Entramos e saímos sempre com as nossas ideias. E há uma grande dignidade nisso. Em não ter vergonha de nunca ter ganho nada, em ter brio de segurar o nosso lugar. Há também medo que lhe baste. Nunca ganhámos, não porque era impossível; nunca ganhámos, porque também era assustador.


Para a França, por exemplo, perdemos a vida toda. Uma das primeiras cassetes de futebol que vi chamava-se “Os Patrícios no Europeu de 84”, cortesia d’A BOLA, o jornal que foi, singularmente, enquanto lhe lia as caixinhas todas fascinado ao sábado ou ao domingo de manhã, a razão pela qual quis ser jornalista. O Euro 84, também jogado em França, foi a nossa primeira participação internacional em quase 20 anos, depois do que Eusébio fizera em Inglaterra. Ir àquelas coisas era uma improbabilidade tão grande, um passo tão ilógico sobre o abismo, que os portugueses desse tempo lhe davam nome. Os “Magriços” no Mundial de 66, os “Patrícios” no Europeu de 84. Os novos descobridores, os novos missionários, os embaixadores na vanguarda de um mundo desconhecido do que poderia vir um dia a ser o futebol português.

Já vi aquele França 3, Portugal 2, muitas, muitas vezes. O talento ridiculamente singular do Chalana, o gigante mais esquecido dos gigantes do futebol português, um Astérix mas contra franceses, a vir da esquerda para dentro num ziguezague primordial, que gravou na relva o ADN do extremo português, para todos os que vieram depois dele. O tamanho do Bento na baliza, toda aquela tropa de choque na defesa e no meio-campo, de portugueses vintage que pareciam ter 30 anos de carreira ou mais, como o João Pinto, o Álvaro Magalhães, o Frasco, o Sousa ou o Pacheco. A classe do Nené e a força do Gomes e do Diamantino, num ataque que podia ter sido quase tudo. E claro, a graciosidade do Jordão, aquela elegância inigualável de quem veio só marcar dois golos à França, antes de voltar a um cocktail na Côte-d’Azur, onde era devido.

O que mais me fascinou nesse jogo, de todas as vezes que o revi enquanto miúdo, era aquela sensação de vitória. Aquele encanto de ter enchido o campo e ter estado a cinco minutos da final, aquela ilusão de quando o Jordão salta ao segundo poste no prolongamento e a cabeceia no ângulo, aquela euforia que é tanta demais, que nem parece de verdade. Vi o jogo tantos anos depois e achei, mais do que uma vez que, se calhar, quem sabe, aquela bola suja do Platini poderia não entrar um dia. Acho que nunca acreditamos realmente que ela entrou. Que nunca perdemos realmente esse França 3, Portugal 2. Não sei se essa pureza é boa ou má. Sei que, da mesma forma, continuamos a não ganhar muitas coisas muito depois.


Em 2000, lembro-me de ter ido festejar aquele golão em moinho do Nuno Gomes para o meio da minha estrada. Era o meu primeiro Portugal num grande Campeonato. Em 2000, por ironia das ironias. No ano em que pudemos tudo. A melhor geração, a melhor Selecção, o melhor futebol, o melhor Figo, o melhor marcador. O Europeu que refundou Portugal. Tinha 9 anos e, com 9 anos, ainda se acredita em contos de fadas e em heróis com final feliz. 28 de Junho de 2000, a ver na televisão de caixa da minha antiga sala esse jogo no Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas. É a primeira vez que me lembro de chorar a ver futebol. Não chorei em 2004, nem me lembro honestamente de voltar a chorar com a Selecção depois disso. Mas lembro-me daquele penalty do Abel Xavier como se fosse hoje. Do ódio, da impotência, do desespero. De ter gritado roubo até já ter deixado de ser uma criança. Infelizmente, a vida é quase sempre um penalty, de uma forma ou de outra.


Em 2006, não posso dizer em consciência do que é que estava à espera. Esperava não encontrar a França, por exemplo. O Euro2004 pesava mas, durante esse mês na Alemanha, parecia afinal nem pesar assim tanto. Ao último apóstolo da Geração de Ouro, tinha sido dada mais uma última oportunidade. Passámos a Inglaterra, claro, e é difícil não achar que podíamos passar o mundo, depois da Batalha de Nuremberga. Mas tudo nos levou à França e ao Casamento Vermelho dessa meia-final. Uma chuva de Castamere, uma execução à espera de acontecer. Scolari provou-nos, epicamente, que era possível viver duas vezes. A França lembrou-nos o que era invadir-nos três.

Todos esses jogos têm em comum o facto de não sermos favoritos e, ainda assim, parecermos ter tudo a perder. Ainda antes do jogo, o chão, a confiança, até o destino. Não falo do que achavam de nós, falo daquilo que achávamos de nós próprios. Falo, afinal, dessa falta de convivência extrema com o sucesso. Dessa vertigem que era, quem sabe, poder ganhar. Tínhamos melhor futebol, tínhamos tanto maior carisma, só não tínhamos forma de dever aquilo a nós próprios. De não nos assustarmos e não cairmos. Para a França, perdemos a vida toda. Perdemos emigrantes, perdemos futebolistas, perdemos financeiramente, perdemos três invasões e perdemos, até, essas três meias-finais. É exactamente por isso que, amanhã, tinha de ser a França. Porque já não temos mais nada para perder.

Se perdermos, que se foda.

Se há alguém que aprendeu da forma mais dura o que é lhe arrebanharem os sonhos, fomos nós. Se há alguém que já aprendeu tudo o que tinha para perder, fomos nós. Não temos mais nada a provar a ninguém. Muito menos a quem tinha a obrigação de cá estar. Não temos mais gente, mais dinheiro, nem mais tamanho. Mas vamos jogar a nossa segunda final em 12 anos, com quatro meias-finais nos últimos cinco Europeus. Nos últimos 20 anos jogámos futebol que dava para o continente inteiro, e o raio que o parta, metemos portugueses no melhor que há no continente inteiro. Demos espectáculo, emprestamos coração e trouxemos alma para dar e vender, deixamos em campo o sangue e o suor, e chorámos vezes de mais. Ninguém fez mais por isto do que nós. Ninguém.

Se perdermos, que se foda.


Mas tudo o que este Europeu provou é que não há mais nada que nos possam tirar. Desta vez, não viemos pela glória. Não viemos para gostarem de nós. Somos chatos, somos nojentos, somos iméritos, somos sortudos e somos toda a merda que nos quiserem chamar, e que dê para colar nas paredes do balneário de Saint-Denis. Mas também somos este caminho todo até Paris. Desta vez, viemos para gostarmos de nós próprios. E ter amor próprio come a cabeça a muita gente, sobretudo se fores pequeno, sobretudo se a vida de grande for feita dessas pequenas perversões de andar a brincar com as presas entre os dentes. O que os franceses claramente não percebem, é que, desta vez, nos estamos a cagar para eles. Que, desta vez, vão ter de comer com este bicho que não entendem, que não lhes fará vénia, nem lhes beijará a mão, e que lhes vai faltar à puta do respeito todo, por mais que eles se estrebuchem nos Versalhes da vida onde sempre viveram. Não temos sangue azul. Mas, desta vez, eles vão ter de vir à rua ganhar, se quiserem. E o que os corrói é este desamor. Este despeito. Esta arrogância de quem já não tem medo, nem tem vergonha, nem tem mais pena de si próprio.

Se perdermos, que se foda.

Mas, na rua, o campo nunca é inclinado. Na rua, somos todos do mesmo tamanho. Quem sabe, talvez não seja desta, em Paris. Se não for, inimigos na mesma. Mas não tenham dúvidas de que, se quiserem ganhar, os franceses vão ter de sofrer coisas que nunca sofreram. Vão ter de ser melhores em campo, no banco e nas bancadas, vão ter de querer mais, sacrificar mais, aguentar mais, enervar mais e sobreviver mais. Vão ter de sair do altar e virem ver se são bons o suficiente. Já nós, fizemos isso a vida toda.

Se perdermos, que se foda.

Escrevia um jornal inglês esta semana que o único mérito que ninguém pode tirar a Portugal é o de ser incansável. É a impassibilidade de continuar a remar mesmo quando não saímos do mesmo lugar. Quando não se criam jogadas, quando não se marcam golos, quando o adversário vem numa e noutra vaga. Nós nunca paramos de remar. Para mim, isso é crónica moderna de um super-poder. Amanhã, a França terá melhores jogadores, mais futebol, mais passado, melhor forma, mais gente. 80 mil pessoas. O que os franceses devem perguntar a si próprios é se isso é suficiente. Para aguentar.

Se perdermos, que se foda.

Foi isso que o Fernando percebeu antes de irmos. Foi isso que o Cristiano percebeu antes dos outros. O que nunca foi nosso, não podemos perder. O que não é suposto ser nosso, não podemos perder. Mas se questionarmos o tempo suficiente, se aguentarmos o tempo suficiente, se fizermos com que eles duvidem de si próprios o tempo suficiente, então, de repente, deixa tudo de ser uma piada. Não vai ser chato, vai ser tortuoso. Não vai ser nojento, vai ser um suor frio.

Se perdermos, que se foda.

Mas amanhã, sentados à volta da esfera armilar que fala deste povo e desta língua em cada canto do mundo (dizia hoje o Engenheiro, "por todo o lado onde passei, havia um português"), o que nos resta não é apoiar, nem gritar, nem ficar a torcer. O que se nos propõe é um desafio muito mais radical: é acreditar mesmo no que não estamos a ver, é esperar mesmo pelo que não parece ir chegar, é saber que nada em estar ali é de menos e perceber que não há nada para além da miragem de uma vitória moral. É não fraquejar e é sonhar acordados. Porque já não é um sonho. É amanhã. Pensem o que era desta terra se acordássemos todos na segunda Campeões da Europa. Pensem em não dormir no domingo. É isso, é hora. Sonhem acordados.

Se perdermos, que se foda. 

Mas, por uma vez, pensem em chorar, mas duma puta alegria. Pensem no que é derrubar a maior de todas as nossas barreiras e não ter, enfim, vergonha de ser feliz. Pensem,

e se ganharmos?